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Em "Lovecraft Country" há monstros, mas o terror está no racismo /premium

Este artigo tem mais de 6 meses

Quer ser uma das grandes séries de 2020. Adapta o livro de Matt Ruff, cruza o thriller de horror com o pânico social e espelha o caos do mundo em dez episódios com a banda sonora perfeita.

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"Lovecraft Country" conta a história de uma família que atravessa uma América em que a segregação das leis Jim Crow transformam a busca de um mistério do passado numa epopeia de sobrevivência

"Lovecraft Country" conta a história de uma família que atravessa uma América em que a segregação das leis Jim Crow transformam a busca de um mistério do passado numa epopeia de sobrevivência

A entrada é em grande. O protagonista, Atticus Freeman (Jonathan Majors), encontra-se num cenário de guerra e corre pelas trincheiras como um herói. Começa a preto e branco, uma explosão dar cor a todo o cenário. Do céu aparecem naves espaciais, uma rapariga desce de uma delas. Sussurra algo a Atticus. Enquanto isto tudo acontece, ouve-se em voz-off que esta é uma história bem americana, de um rapaz bem americano. Depois do sussurro, Atticus e a rapariga são atacados por um monstro, Cthulhu, a criação de H.P. Lovecraft, para ser rapidamente destruído por um jogador de basebol. É o sonho americano. É “Lovecraft Country” (estreia na HBO Portugal no dia 17 de agosto), uma adaptação do best seller de Matt Ruff, por Mischa Green. Uma série com uma entrada à “Lost” e com nomes como J. J. Abrams, Jordan Peele e Ben Stephenson envolvidos na produção.

Num painel com Green e os atores Jonathan Majors e Jurnee Smollett (que interpreta Letitia Lewis), em que o Observador participou, a criadora dá ênfase a esta entrada: “Queria que a entrada fosse em grande. Queria tentar isso. Nos seus dez episódios a série tenta fazer algo grandioso e queria que a introdução espelhasse isso, que fosse inesperada para criar surpresa ao longo dos episódios.” E é em grande. Depois da cena acabar, o espectador é levado para o mundo real da série, Chicago, anos 1950. Atticus está num autocarro e está a momentos de entrar na aventura da sua vida.

[o trailer de “Lovecraft Country”:]

O romance de Matt Ruff, Lovecraft Country, foi um sucesso. A expressão “Lovecraft Country” existe mesmo e refere-se a zonas de New England onde acontecem algumas histórias de H.P. Lovecraft. O livro e a série usam o imaginário do escritor norte-americano para contar a história de uns Estados Unidos racistas. A história de uma família que atravessa uma América em que a segregação das leis Jim Crow transformam a busca de um mistério do passado numa epopeia de sobrevivência.

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É um tempo de medo e de ódio, entre as décadas de 50 e 60, mas podia muito bem não ter data. Um universo onde os monstros, ou a magia, não são o que de mais assustador existe. Os dois primeiros episódios são o início da aventura de Atticus e Letitia, a partir daí a narrativa entre capítulos-aventura que revisitam uma série de lugares comuns do imaginário de horror e aventura. Não são uma homenagem a Lovecraft. São Lovecraft reimaginado para os Estados Unidos que Mischa Green construiu para a sua série.

Jurnee Smollett é direta nas intenções: “Os nossos heróis entram numa aventura para derrubar a supremacia branca. Ainda estamos nessa saga hoje, em 2020, como norte-americanos negros, porque o racismo ainda é um espírito demoníaco. É uma série selvagem, desconstrói a forma clássica dos géneros em diversas formas e reimagina tudo de forma radical.”

“Os monstros são uma metáfora para o racismo, não só nos Estados Unidos, mas no mundo inteiro. Para mim, o género funciona melhor quando é uma metáfora para a vida real, as suas emoções e problemas. Foi algo que gostei no livro de Matt Ruff e que queria honrar na minha adaptação,” avança Mischa Green. Os monstros são muito presentes em “Lovecraft Country”, mas quando eles realmente aparecem no final do primeiro episódio, revelam-se menos assustadores do que os polícias racistas que seguem o grupo de heróis da série. Uma das virtudes imediatas de Mischa Green é a forma como torna isso tão presente, tão imediato, tão assustador.

Jonathan Majors completa a ideia com “aquilo que é referenciado, o que nós experienciamos na história, são coisas que acontecem no dia-a-dia. Está no ADN da vivência afro-americana.” Por se saber que é tão real, por existir, por algumas das cenas que Mischa Green inclui em “Lovecraft Country” serem tão presentes no imaginário comum – até na cultura popular -, a série tem um poder incomum. Consegue uma elevação que tem estado ausente noutras realizações e produções de Jordan Peele e ganha uma existência única.

Talvez pelos negros terem as armas, a força, o saber e a coragem do seu lado. Essa é uma sensação imediata em “Lovecraft Country”, apesar do racismo, da Supremacia Branca estar bem presente, há uma sensação de viragem do poder, de contrariar a norma. O imediatismo e a relação que cria com o presente fazem o restante trabalho. “Lovecraft Country” torna-se imediatamente oportuno. E também o é porque reinventa o género de terror para televisão, mistura com uma mão firme pulp fiction e fantasia, horror e as histórias de aventuras. Por vezes, nunca se sabe bem o que é o quê, se é para ter medo ou para rir. Sabe-se apenas que se está em “Lovecraft Country”.

Cada episódio é uma coisa nova. Uma aventura. Um refresco. Jonathan Majors aborda isso com o (bom) caos possível: “Lia o argumento de um episódio e ficava imerso nesse género. E adorava. Mas depois lia outro episódio e pensava: ‘não, não, isto é que eu gosto! É onde quero estar’.” Repete várias vezes a mesma ideia nas frases seguintes, como se Majors voltasse a sentir o fascínio de ler os episódios pela primeira vez. O que Majors quer dizer é que cada episódio deixa a sensação de que é melhor do que o anterior. Pela surpresa, pela forma como a série se reinventa a cada momento e surpreende pela forma como aborda os géneros e trata as situações em que mete as suas personagens. Nada é resolvido de forma óbvia.

Tal como não é óbvia a escolha musical. Mischa Green quis usar a música como uma ponte entre o passado e o presente, por isso se a história ocorre no passado, a música tem de ser de hoje: “Estou a trazer as histórias para o aqui e agora, a música é uma ótima ponte para o tempo. Por isso, para mim, fez todo o sentido meter a tocar Cardi B nos anos 1950 e fazer com que funcione tão bem naquele tempo como agora.”

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