Ser guionista em Portugal é lixado. Desculpem esta entrada a pés juntos em tom de conversa de café, mas a palavra que me apetecia escrever até é pior. Ser guionista em Portugal é estar sempre a ver a cenoura à nossa frente apenas para a tirarem no último segundo, é serpentear entre projetos arquivados, não aprovados ou simplesmente adulterados para depois ouvir que o nosso país não tem quem arranje uma boa ideia para uma série. Desculpe, prezado leitor que se calhar até está a pagar o serviço Premium, por o estar a maçar com esta sessão pública de terapia. Mas é difícil esconder a frustração quando basta olhar para o vizinho do lado e ver uma indústria de ficção televisiva madura, robusta e ousada. “Pátria”, a nova aposta original da HBO (numa coprodução das delegações europeia e sul-americana), é o mais recente exemplo.

Com o País Basco da viragem do século como pano de fundo, “Pátria” debruça-se sobre a cisão causada em grupos de amigos e familiares pela luta pela independência da região, com a ETA como grande promotor de uma vida pautada pelo terrorismo/pela luta armada (ler como lhe fizer mais sentido de acordo com as suas convicções). Criada pelo também basco Aitor Gabilondo, com um variado currículo na televisão espanhola, é baseada no bestseller com o mesmo nome assinado em 2016 por Fernando Aramburu.

Fernando Aramburu. “A minha memória está cheia de imagens de cadáveres cobertos com um lençol”

A ação anda essencialmente entre duas linhas temporais: a que resulta no assassinato do empresário Txato, após este não ter pago o chamado imposto revolucionário que era exigido a empresários do País Basco e Navarro como chantagem para que as empresas e projetos não fossem visados pela ETA; e uma segunda, anos mais tarde, quando a ETA anuncia finalmente que não vai levar a cabo mais ações militares, uma revelação recebida com um misto de alívio, desconfiança mas também desalento. Pelo meio há uma amizade entre duas mulheres, Bittori (a viúva de Txato) e Miren (a mãe de dois elementos da ETA), que colapsa com um estrondo que acaba por envolver toda a comunidade.

Se comparada (injustamente, admito) a outros grandes sucessos recentes vindos de Espanha e distribuídos internacionalmente por streaming, a série de oito episódios tem simultaneamente uma grande qualidade e um grande defeito. A qualidade é que fica a anos luz de alguma banalidade que singra pelos tops de visualizações do Netflix, sendo infinitamente melhor do que lixo como “Toy Boy” e mais madura do que uma “Casa de Papel” (que tem outros méritos e até outros objetivos). O defeito é que “Pátria” pressupõe que o seu espectador tem uma cultura geral sobre a realidade e a história de Espanha acima da média.

[o trailer de “Pátria”:]

Este último fator não é obviamente problemático para um mercado interno, mas tendo em conta que é assumidamente uma aposta mundial da HBO, pode ser a espaços difícil de acompanhar por quem não tenha uma página de Wikipedia aberta. Ou não seja casada com uma pessoa que cresceu junto à fronteira, numa zona à qual a SIC e a TVI não chegavam e por isso eram substituídas ao jantar pela TVE e pela TV Galicia. Se não fosse o meu marido, várias subtilezas da trama e dos diálogos ter-se-iam perdido na minha cabeça cheia de factóides que não interessam. Saber os nomes das Spice Girls não foi particularmente útil neste contexto.

Outra diferença é o facto de esta série não querer fazer as vezes de postal a mando do Ministério do Turismo. San Sebastian, uma das cidades mais bonitas do sul da Europa, surge aqui cinzenta, feia e sem futuro. Mimetizando o desalento dos personagens, está quase sempre a chover – de tal modo que o próprio genérico da série recorre a imagens de um guarda-chuva pingando sangue.

Mas por mais complexo que seja o tema, “Pátria” não é uma série dogmática e nunca escolhe lados. Retira o seu nome da própria sigla da ETA — “Euskadi Ta Askatasuna” é basco para “Pátria Basca e Liberdade” – e abraça a complexidade da questão com muito coração mas sem facilitismos. Os personagens são conhecidos apenas pelo nome próprio, porque os nomes de família não importam. Afinal, podia ser qualquer família. São oito episódios que começam lentamente mas que depressa se entranham. Como a chuva quando não temos onde nos abrigar.

Susana Romana é guionista e professora de escrita criativa