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"The Undoing": um derivado de "Big Little Lies" ou o thriller que faltava este ano? /premium

Nicole Kidman e Hugh Grant protagonizam, David E. Kelley escreveu e produziu e as regras são as de um mistério em seis episódios. Será que a nova minissérie da HBO cumpre as expectativas?

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Grace e Jonathan Fraser, um casal aparentemente perfeito, até que um acontecimento inesperado põe em andamento uma série de revelações

Grace e Jonathan Fraser, um casal aparentemente perfeito, até que um acontecimento inesperado põe em andamento uma série de revelações

“Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes são-no cada uma à sua maneira”. A frase do escritor russo Tolstoi é uma citação clássica e amplamente repetida. Em “The Undoing” conhecemos os Frasers, uma família feliz, que só ganha interesse narrativo quando se torna infeliz, claro. Pequeno problema: ao Frasers são tão obscenamente ricos e desligados do mundo real que o maior desafio do espectador conseguir é criar empatia (e pena, sim) perante as coisas más que lhes acontecem. Sintomas da luta de classes agudizados por um 2020 particularmente divisor?

Mas vamos por partes. “The Undoing”, que se estreia agora na HBO, é uma mini-série de seis episódios baseada no romance You Should Have Known  de Jean Hanff Korelitz (e, já agora, o título original é bem melhor que o nome dado à adaptação televisiva). Grace Fraser (Nicole Kidman) é uma psicanalista de sucesso, casada com o reputado oncologista Jonathan Fraser (Hugh Grant). A sua vida é perfeita, sendo as suas maiores apoquentações convencer o único filho que não pode ter um cão ou organizar mais uma gala de beneficência a reverter para o colégio caríssimo onde estuda o seu rebento.

[o trailer de “The Undoing”:]

Até que uma misteriosa mãe aparece na comunidade escolar e imediatamente agita as águas, seja por ser uma hispânica que mora no Harlem e anda de metro, seja por ter um à-vontade com o corpo que lhe permite dar de mamar em público ou andar nua num balneário público (sim, eu sei que são coisas normais, mas estamos a falar de uns Estados Unidos pseudo-modernos). Quando essa mulher aparece brutalmente assassinada, a vida perfeita de Grace dá um mortal à retaguarda, num plot clássico de thriller onde nem tudo o que parece é.

Se isto de pessoas assassinadas num ambiente de colégio de luxo lhe parece vagamente familiar, é porque é. “The Undoing” é a mais recente criação do guionista e produtor David E. Kelley, o mesmo por trás do sucesso de “Big Little Lies”, igualmente com Kidman num dos papéis principais. O universo e mesmo a estética são em tudo semelhantes – de tal modo que se “Big Little Lies” fosse uma série em modo antologia (com temporadas narrativamente estanques e independentes, como são “Fargo” ou “American Crime Story”), “The Undoing” podia perfeitamente ser uma das suas temporadas.

“Big Little Lies” foi um sucesso tão grande, a nível de público e de crítica, que esta nova série põe-se a jeito para comparações. Mais: põe-se a jeito para parecer um pouco dejá vu e talvez um pouco desnecessária. Dito isto, “The Undoing” cumpre largamente o seu propósito. É um thriller viciante, com bons atores (o jovem Noah Jupe, que faz de filhos dos protagonistas, é alguém a ter debaixo de olho) e bem realizado pela dinamarquesa Susanne Bier, a primeira mulher a ganhar um Globo de Ouro, um Emmy e um European Film Award. Se é uma série de suspense com uma boa história, que valha seis horas mal medidas da sua vida? Isso é difícil de avaliar, já que o último episódio não foi disponibilizado para visionamento dos jornalistas (medo de spoilers?) e uma série deste género é tão surpreendente e robusta quanto o seu final. Para já, posso arriscar num “é promissora”.

Não há uma gota de ativismo nesta série. Mas… será que tinha a obrigação de ter? Nem por isso. Tem só a incumbência de nos deixar entretidos e com vontade que chegue o próximo episódio

Apesar de ser um gordo isco para o anzol da próxima temporada de prémios televisivos, “The Undoing” pode sair prejudicado por ser um produto que reflete pouco ou nada o atual estado do mundo. Esta pandemia era impossível de prever pelo pobre criador, claro, que até adiou a data de estreia de maio até fim de outubro. Mas num mundo no qual a Covid-19 deixou à mostra todas as suas frágeis costuras, um casal rico que passaria a sua quarentena numa mansão de luxo a mandar vir pizza de trufas talvez não seja o que as pessoas mais querem ver. A série tem o seu quê de pornografia capitalista (se bem que tem como moral da história o chavão “o dinheiro não compra felicidade”) e tanto white privilege pode parecer um pouco desfasado e até desajustado do que vemos a acontecer no mundo atual.

Isto acaba por até não passar despercebido ao personagem de Hugh Grant, que no primeiro episódio olha em seu redor durante uma festa de beneficência e diz, plenamente irónico: “You know what I love about this? You can never tell that we’re rich, it’s all so classy and understated” (“Sabem o que é que eu gosto nisto? Nem dá para percebe que somos ricos, é tudo com tanta classe e tão discreto”). E, de facto, mais parecia a famosa tira de Quino na qual Susaninha diz à Mafalda que quer fazer um banquete de caridade com lagosta e leitão para comprar farinha e massa e essas coisas que comem os pobres.

Não há uma gota de ativismo nesta série. Mas… será que tinha a obrigação de ter? Nem por isso. Tem só a incumbência de nos deixar entretidos e com vontade que chegue o próximo episódio. E nisso, garante-vos esta escriba que ficou sem poder ver o derradeiro capítulo, cumpre. Já chega e sobra.

Susana Romana é guionista e professora de escrita criativa

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