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— O que estás a fazer?
— Estamos no estúdio a fazer música, anda. 

Às vezes é só isto. Uma troca de mensagens online que vira convocatória informal, uma ideia após o primeiro copo. A Maternidade — agência, promotora, produtora, editora —, ou alguns dos seus elementos, tinham combinado encontrar-se numa casa para abrir umas garrafas. Daí até Outras Maneiras — LP colaborativo de vários dos artistas que formam o coletivo, mais alguns amigos que foram recebendo mensagens como aquela que inicia este texto — foi um tirinho, uma mudança de local, uma excitação meio adolescente: “Estava em minha casa com o Ró [Vaiapraia] e o Luís [Severo] ia lá ter para bebermos um copo. Acho que as esplanadas ainda não estavam abertas, isto foi logo após o primeiro confinamento, logo ali em Maio. E o Luís, que nem um adolescente, disse: ‘E se em vez disso fossemos para o estúdio fazer música?’ Isto sem qualquer pretensão, a ideia era ir gravar só porque sim. E esse plano ganhou, ficámos entusiasmados, ainda por cima o Ró tinha acabado de mostrar-me uma música, da qual ele só tinha a melodia e a letra, que veio a ser a ‘Betinho’. A ideia era convidar gente até porque não havia grande coisa para fazer. A Lucía apareceu logo nessa noite e surgiu mais gente”, conta Rodrigo Castaño.

Além dele, o núcleo duro que assumiu o corpo principal da ideia e a execução das sete canções que formam este objeto foi composto por Teresa Serra Nunes, Luís Severo, Vaiapraia, Filipe Sambado, Lucía Vives e chica (Francisca Ribeiro). Mas não estiveram sozinhos, a eles foram-se juntando Jasmim (Martim Braz Teixeira), Ana Farinha (Candy Diaz), Maria Inês Paredes, Bernardo Álvares, Catarina Olaio Marques, Bia Diniz (April Marmara), Duarte Coimbra e Margarida Alfeirão.

A capa de “Outras Maneiras”, o disco que resultou da colaboração de vários artistas do coletivo Maternidade

A amizade tem sido, desde a fundação desta Maternidade, agente propulsora de criatividade e ímpetos artísticos. A partir daí, o que aconteceu no Estúdio da Cuca Monga, em Alvalade, não foi programado nem pensado, saiu antes de uma vontade de fazer coisas quando — como agora — não estamos propriamente a fazer nada, sobretudo fora de casa. Fazer música porque era permitido fazer música. Músicos reunidos com instrumentos vários. Até o alinhamento das canções veio de vontades momentâneas: “A tracklist foi composta por sugestões, no momento, das pessoas que ali estavam. Cada pessoa desse núcleo duro sugeriu uma, acho que foi isso. Quase todas as pessoas envolvidas têm projetos próprios ou bandas, daí a ênfase ter sido a importância do coletivo, uma coisa horizontal. E o resultado final tem como título Outras Maneiras porque foi de facto outra forma de fazer as coisas, distinta daquela que já conhecemos e à qual estávamos habituados”, explica Lucía Vives.

Gravado em live take — e de forma profundamente denunciada e assumida —, este é um disco-espaço de liberdade. Com 7 canções: duas originais de Vaiapraia, uma original de Lucía Vives e versões do GAC — Grupo de Acção Cultural, Starlolix, Marco Paulo e Duo Ouro Negro. O arranque faz-se com “Cantiga Sem Maneiras”, escrita por José Mário Branco para o GAC e agora reinterpretada por chica, empurrada por uma ideia de Teresa Serra Nunes. E se é certo que o disco era para ter saído há mais tempo, convém agradecer aos problemas logísticos que fizeram com que saísse dia 22 de Janeiro, dois dias antes das eleições presidenciais. Em “Cantiga Sem Maneiras”, chica canta:

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“E enquanto nos dizem para votar
Já está o burguês a preparar
Outro fascismo de cara mudada
Enquanto a gente anda assim enganada”

A mesma que admite que nada disso foi equacionado na altura, isto é, esta música não foi tocada e cantada com o sentimento pré-eleitoral, mas teria um “sentimento antifascista que já há uns anos nos assusta o cérebro e nos faz tremer a voz”: “Não sei bem, a ‘Cantiga Sem Maneiras’ foi a Teresa [Serra Nunes] que escolheu, somos um pouco malucos por José Mário Branco e era óbvio que íamos acabar por fazer uma versão. Mas foi assim bastante à toa, escolhemos e gravámos no dia seguinte. Nunca a escolhemos a pensar que iam decorrer eleições nem nada disso, mas foi muito bonito ouvi-la no sábado e no domingo, e foi engraçado porque muita gente estava a partilhar”, afirma chica.

Quanto às duas canções originais de Vaiapraia: músicas despidas, letras pontiagudas, desejos de “motoquatro na serra”, bocas à classe média-alta. O que, para quem assinou um dos melhores discos de 2020, só pode ser sinal que está em boa forma.

[ouça “Outras Maneiras” na íntegra através do Spotify:]

“Golpe por Golpe” é o tal original de Lucía Vives, um tema de letra dura, melancolia por etiquetar, que vem de um outro tempo, que de alguma maneira voltou a existir, por uma breve temporada, nas sessões deste disco: “É uma canção que já tinha na gaveta há muitos anos, escrevi-a quando andava na Faculdade de Letras e desde que vim viver para Amesterdão, onde estou a estudar, pus a música de parte. E acho que precisei muito dessa distância. Voltar a Lisboa naquela altura e perceber que fazia música a partir das pessoas à minha volta e dessa energia foi importante, era uma canção que estava fechada e que puxava muito por esta ideia de ter uma equipa e um coro, enfim isto também porque gosto muito de compor e de escrever, mas não me considero instrumentista. Mas é uma canção pesadona, sim, já não estou aí emocionalmente, mas relembra-me uma outra fase, anterior”, admite Lucía.

Sobra ainda falar de “Na Mesma”, uma canção de Starlolix [Carolina Valente], que Luís Severo já tinha cantado e de que sempre gostou bastante. Uma letra com referências a Ariel Pink e que Severo trouxe para o seu universo.

Nada nestas canções podia ter acontecido sem uma série de circunstâncias felizes, de encontros inesperados, como o facto de Lucía Vives estar em Lisboa e não em Amesterdão — devido à pandemia provocada pela Covid19 —, o facto de chica, que é de Arcos de Valdevez ter comprado um bilhete para Lisboa meio por intuito, por estar aborrecida na terra. Tudo desaguou em Alvalade. “Esse momento de stand-by colocou-nos num ritmo que foi muito saudável para todos: ter alguma missão. E é engraçado dizer que, por exemplo, uma amiga que também foi lá ajudar numas vozes, nunca tinha feito música, e foi um à vontade, porque estávamos com amigos, num ambiente curtido. Foi muito aquela coisa: quem pode, pode, venham já”, diz Lucía.

O facto de ser um disco gravado em live take aumenta todas essas possibilidades e ambiguidades, coros que vêm da cozinha ou do sétimo andar, os silêncios no final de cada tema, para não ter de repetir o take: “Havia esse espírito sim, pessoas que trocavam de instrumentos, iam para outros com os quais não se costumam dar tanto. O Luís tocou baixo originalmente na ‘Eu Sou Feliz’ e eu depois tive de regravar. É o que acontece quando gravas em live take, é tudo mais orgânico, mas depois dá muito mais trabalho a misturar e muitas vezes é preciso fazer acrescentos ou substituições”, enquadra Rodrigo Castaño.

E o melhor de tudo é que antes isto não tinha nome. Ou seja, até certa altura não era um disco, eram jams de amigos, como quem vai jogar setas ao café, mas com a atitude de quem discute filmes de forma tão séria que a esplanada começa a ficar vazia: “Acho que só a partir da quarta música é que o Luís ou o Ró [Vaiapraia] disseram: ‘Isto pode ser alguma coisa’. Portanto, foi já a meio do processo”, garante Lucía Vives. Quanto a próximos capítulos, não há compromissos. Apenas o possível: vamos vendo.