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Os fabulosos irmãos Mael e um grande enigma chamado Sparks /premium

Uma história musical de cinco décadas, a exercer influência sobre gerações distintas de artistas, mas sempre fora do mainstream. Chega às salas de cinema o documentário sobre Ron e Russell Mael.

Ron e Russell Mael, os irmãos que ainda no final dos anos 60 começaram a fazer música juntos e assim continuam
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Ron e Russell Mael, os irmãos que ainda no final dos anos 60 começaram a fazer música juntos e assim continuam

Anna Webber

Ron e Russell Mael, os irmãos que ainda no final dos anos 60 começaram a fazer música juntos e assim continuam

Anna Webber

Existem há mais de 50 anos, editaram 25 álbuns, são apontados como referência por músicos de todos os quadrantes, mas continuam a ser um mistério. Uma anomalia. Os Sparks são dois irmãos, e não se chamam Sparks, mas Mael — Ron e Russell Mael. Ron tem pose austera e um bigodinho provocador, Russell usa cabelo desgrenhado e ar de estrela pop. São americanos, de Los Angeles, mas muitos pensam que são ingleses porque, nos anos 70, viveram e lançaram discos no Reino Unido.

Ao longo da sua atribulada carreira, sempre à beira do abismo e a um passo do êxito, fizeram vários tipos de rock: art, glam, hard, mas também fizeram disco, electro pop, pop operática — até fizeram uma canção chamada “Computer Girl” em 1966, antes dos computadores serem assunto, dos Kraftwerk serem homens máquina e de eles próprios serem Sparks. Sempre foram excêntricos, excessivos e teatrais e nunca foram a mesma coisa, ou a mesma banda, durante muito tempo. Talvez por isso continuem ativos e relevantes o suficiente para serem objeto de um documentário assinado pelo britânico Edgar Wright, especialista em sátiras de género, como comédias zombie (“Zombie Party”, “Shawn of the Dead”), argumentista e realizador do premiado “Baby Driver”.

Quem não conhece os Sparks não terá sentido curiosidade de saber quem são, ainda assim, tem agora oportunidade de conhecer tudo o que nunca imaginou existir sobre os irmãos Mael, algo que também é válido para quem acha que os conhece, nem que seja pelas icónicas fotografias do casal de irmãos. Se há coisa em que os Sparks foram mestres, foi na gestão da imagem bizarra, a sua e a das capas dos discos. Isso, associado ao humor intelectualmente rebuscado das canções, que faz com que piadas pareçam coisas sérias e vice versa, deu aos Sparks uma aura artística, quase sempre difícil de perceber por um público mais vasto e menos disponível para esse tipo de estranhezas.

[o trailer de “The Sparks Brothers”:]

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Tiveram êxitos, sim, mas nunca durante muito tempo, em parte por opção. Ao longo de mais de 50 anos, os Sparks seguiram a maré, gozando o sucesso como o fracasso, muitas vezes contrariando o caminho mais fácil ou certo, em nome da liberdade artística, mas mantendo sempre uma visão própria acutilante e em sintonia com os tempos (em alguns casos, antecipando-se a eles). São considerados a mais desconhecida das grandes bandas, e, vendo o filme, parecem genuinamente à vontade com isso. A sua vocação é inovar, mesmo que mais ninguém perceba o que dizem ou onde querem chegar.

“The Sparks Brothers”, o documentário de Edgar Wright, conta a história (ou uma história possível, já que eles gostam de manter alguma dúvida) da dupla de irmãos, com entrevistas aos próprios e depoimentos de amigos, colaboradores e fãs (e do próprio realizador nesta categoria). Todd Rundgren e Giorgio Moroder são dois dos produtores que falam da experiência de trabalho com os Sparks, o primeiro produziu o álbum de estreia, ainda como Halfnelson, em 1971, Moroder levou os Sparks para as pistas com “Number One Song in Heaven”, em 1979.

Também há depoimentos de vários músicos que reclamam a influência da dupla e falam da sua experiência pessoal com as canções: Beck, Flea (Red Hot Chili Peppers), Steve Jones (Sex Pistols), Stephen Morris e Gillian Gilbert (Joy Division/ New Order) Vince Clarke (Depeche Mode/Erasure/Yazoo), Nick Rhodes e John Taylor (Duran Duran), Jack Antonoff (Lorde, Taylor Swift) Alex Kapranos (de Franz Ferdinand com quem os Sparks fizeram um álbum em 2015)… até Thurston Moore, dos Sonic Youth, aparece a dizer que o álbum Big Beat é para uma influência punk. Sim, os Sparks também foram punk…

Ambiguidade, teatralidade, humor e um impulso constante para fazer diferente, ser desafiado e desafiar. Essas parecem ser as características fundamentais dos Sparks

O documentário é longo, 140 minutos, mas bem feito e divertido. Vale não só pelas histórias que conta e ajudam a unir os pontos que de algum modo explicam o enigma que são os Sparks, mas porque tem muitas imagens de arquivo da banda e, quando não tem, usa animações feitas propositadamente sobre imagens de época, conseguindo manter o ritmo, o interesse e o humor em sincronia com os relatos.

A realização é imaginativa e dinâmica, mas a história da banda, só por si, é extraordinária. Das origens como Halfnelson aos altos e baixos enquanto Sparks, passando pelas transformações e golpes de sorte e azar que os trouxeram até 2021 como banda de culto, finalmente no auge, depois de 50 anos. Neste 2021, além de terem direito a este documentário assinado por um realizador em ascensão (Wright vai fazer uma nova adaptação de “Running Man” de Stephen King), os Sparks viram finalmente concretizado o projeto de “Annette”, um musical que tinham há anos e que Leos Carax aceitou realizar, com Adam Driver e Marion Cotillard como protagonistas. Depois de filmes falhados com Jacques Tati (“Confusion”, que deveria ter sido o último filme de Tati, nos anos 70) e Tim Burton (“Mai: the Psychic Girl”, que esteve para ser mas nunca aconteceu), Ron e Russell conseguiram finalmente cumprir o velho sonho de fazer cinema. Não apenas isso, mas ter com eles um realizador francês (são cinéfilos assumidos e fãs confessos da Nouvelle Vague francesa) e estrear a obra, com aclamação, no Festival de Cannes.

O documentário de Wright fala de “Annette”, na altura ainda em produção, dos projetos falhados e desvios de carreira de duas verdadeiras lendas pop. Está cheio de pequenas histórias que, em alguns casos, deram origem a mitos urbanos. Como a estreia dos Sparks no Top of The Pops, em 1974, a tocar “This Town Ain’t Big Enough For The Both Of Us”. Terá sido de tal forma impactante em Inglaterra que, no dia a seguir à atuação, começou a circular o boato de que John Lennon terá ligado a Ringo Starr a dizer que Marc Bolan estava na televisão a cantar uma canção com Adolf Hitler. Isto é contado por quem os viu então na TV e viveu o dia seguinte na escola.

[os Sparks no Top of the Pops em 1974:]

Na verdade, era o que parecia e eles sabiam-no melhor do que ninguém: Ron cultivava uma imagem entre Charlie Chaplin e Adolf Hitler e explorava essa ambiguidade de forma muito carismática (é um dos músicos imitados por Paul McCartney no vídeo de “Coming Up”), Russell tinha caracóis e ar de poster boy, passava bem por cantor glam — que era, embora dissesse mais palavras e cantasse mais alto do que qualquer outro na altura. Em 1974, os americanos Sparks apareciam estranhos e intensos na TV britânica e marcavam uma geração de futuros músicos. A sua influência sobreviveu até 2021 bem como a ousadia de fazer coisas que não lembrariam a mais ninguém, caso do ciclo de espectáculos de 2008 em que tocaram 21 álbuns em 21 concertos (percebe-se no documentário que foi um imbróglio logístico e musical, mas resultou).

Ambiguidade, teatralidade, humor e um impulso constante para fazer diferente, ser desafiado e desafiar. Essas parecem ser as características fundamentais dos Sparks e o que faz deles grandes resistentes e uma das bandas mais interessantes de sempre (não necessariamente das melhores). É essa a sensação com que se fica depois de ver “The Sparks Brothers”, o documentário de Edgar Wright. Percebemos que não será caso para gostar de todos os álbuns, fases ou canções dos Sparks, mas há boas razões para admirar os irmãos Mael, na postura, perseverança, criatividade e humor. Não há banda, nem irmãos, como os Sparks.

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