No final dos anos 80, Inglaterra fervilhava ao som de acid house. O termo era importado dos Estados Unidos, onde era aplicado à house feita em Chicago por gente como DJ Pierre e os Phuture, mas só quando os britânicos se apropriaram da expressão, no que ficou conhecido como Segundo Verão do Amor, em 1988, acid house ficou sinónimo de revolução social e musical. O que é que isto tem a ver com os Primal Scream? Eles foram simultaneamente vítimas e motores dessa revolução.

Clubes como o Haçienda, em Manchester, afeto à editora Factory, já anunciavam a conversão da cena indie à música de dança desde “Blue Monday” dos New Order, mas a partir de 1988, a coisa tomou proporções inéditas. Milhares de jovens saíam para dançar todos os fins de semana, viajavam pelo país para irem a raves ilegais em locais recônditos, muitas vezes em propriedades cujos donos eram alheios ao acontecimento. Os bons costumes britânicos, alimentados por tabloides incendiários, temeram realmente pela ordem social e moral e também por possíveis reflexos políticos e económicos. Depois de uma rave em 1992 ter concentrado 20 mil pessoas, em Worcestershire, até foi criada uma lei (Criminal Justice and Public Order Act) para proibir a invasão de propriedade privada, o uso de soundsystems e a concentração de mais de 20 pessoas ao som de música eletrónica com beats repetitivos. A aprovação dessa lei aconteceu em 1994, o que dá uma perspetiva da dimensão do fenómeno, como se estendeu no tempo e porque razão se fala numa “revolução acid house”. Inglaterra ficou diferente e a música foi o motor da mudança. Música e ecstasy. Nada teria acontecido sem ecstasy. A começar por Screamadelica dos Primal Scream.

Se há discos míticos, Screamadelica é um deles. Marca um ponto de viragem não só na carreira da banda, mas em toda a cena indie, é produto de uma época, da emergência da cultura rave e da música de dança. Trinta anos depois, o terceiro álbum da banda de Bobby Gillespie poderia soar datado, mas continua excitante.

[“Movin’ On Up”:]

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