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"Screamadelica". Há 30 anos, os Primal Scream levaram o rock'n'roll a dançar e reinventaram a pista

Nasceram no início dos anos 80. Foram folkies fora de época, rockers sem garagem, psicadélicos com pouco amor. Até que, em setembro de 1991, cruzaram-se com o "acid house" e fizeram história.

Bobby Gillespie ao vivo em janeiro de 1992, poucos meses depois do lançamento do álbum "Screamadelica"
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Bobby Gillespie ao vivo em janeiro de 1992, poucos meses depois do lançamento do álbum "Screamadelica"

Redferns

Bobby Gillespie ao vivo em janeiro de 1992, poucos meses depois do lançamento do álbum "Screamadelica"

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No final dos anos 80, Inglaterra fervilhava ao som de acid house. O termo era importado dos Estados Unidos, onde era aplicado à house feita em Chicago por gente como DJ Pierre e os Phuture, mas só quando os britânicos se apropriaram da expressão, no que ficou conhecido como Segundo Verão do Amor, em 1988, acid house ficou sinónimo de revolução social e musical. O que é que isto tem a ver com os Primal Scream? Eles foram simultaneamente vítimas e motores dessa revolução.

Clubes como o Haçienda, em Manchester, afeto à editora Factory, já anunciavam a conversão da cena indie à música de dança desde “Blue Monday” dos New Order, mas a partir de 1988, a coisa tomou proporções inéditas. Milhares de jovens saíam para dançar todos os fins de semana, viajavam pelo país para irem a raves ilegais em locais recônditos, muitas vezes em propriedades cujos donos eram alheios ao acontecimento. Os bons costumes britânicos, alimentados por tabloides incendiários, temeram realmente pela ordem social e moral e também por possíveis reflexos políticos e económicos. Depois de uma rave em 1992 ter concentrado 20 mil pessoas, em Worcestershire, até foi criada uma lei (Criminal Justice and Public Order Act) para proibir a invasão de propriedade privada, o uso de soundsystems e a concentração de mais de 20 pessoas ao som de música eletrónica com beats repetitivos. A aprovação dessa lei aconteceu em 1994, o que dá uma perspetiva da dimensão do fenómeno, como se estendeu no tempo e porque razão se fala numa “revolução acid house”. Inglaterra ficou diferente e a música foi o motor da mudança. Música e ecstasy. Nada teria acontecido sem ecstasy. A começar por Screamadelica dos Primal Scream.

Se há discos míticos, Screamadelica é um deles. Marca um ponto de viragem não só na carreira da banda, mas em toda a cena indie, é produto de uma época, da emergência da cultura rave e da música de dança. Trinta anos depois, o terceiro álbum da banda de Bobby Gillespie poderia soar datado, mas continua excitante.

[“Movin’ On Up”:]

Os Primal Scream, formados por Bobby Gillespie em Glasgow, em 1982, são um caso de metamorfose influenciada pela pista de dança. Com Screamadelica mudaram o paradigma sem aviso prévio, surpreendendo tudo e todos. Ninguém estava à espera que Bobby Gillespie e companheiros editassem um disco que, tendo guitarras, era fortemente influenciado pelo acid house. É verdade que o acid house tinha uma certa veia psicadélica e narcótica e que na altura já havia um grande interesse por música mais dançante, graças a nomes como New Order, Happy Mondays ou até Stone Roses, que tinham lançado “Fools Gold” em 1989, mostrando um caminho que ia do shoegaze à pista de dança. Ainda assim, o que aconteceu com os Primal Scream foi inesperado, até porque eles eram rockers, vestiam-se de cabedal, não os imaginávamos a dançar música eletrónica numa rave. A sua conversão criou uma onda de libertação que levou ainda mais gente para a pista, sobretudo fãs de rock, até aí o grosso dos seguidores da banda.

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Antes dos Primal Scream, Bobby Gillespie tinha sido roady dos Altered Images e baterista dos The Jesus And Mary Chain. Tocou com eles no álbum Psychocandy, mas não deixou grande marca. O seu estilo “minimal” de tocar fez com que fosse muitas vezes comparado a Moe Tucker, a baterista dos Velvet Underground, mas os seus dotes nunca foram propriamente louvados. Talvez por isso, a vida com os irmãos Reid tenha sido curta e ele tenha desistido da bateria para se concentrar na linha da frente e ser cantor, o que tem feito de forma incrivelmente carismática.

Os Primal Scream passaram de ideia a facto em 1986, primeiro como uma espécie de sucedâneo dos Byrds (no álbum Sonic Flower Groove, 1987), depois à deriva entre as baladas e o garage rock (álbum Primal Scream, 1989). Poderiam ter ficado esquecidos, confundidos na massa genérica indie psicadélica que proliferava na época, mas Allen McGee, o patrão da editora Creation, começou a arrastá-los para raves e clubes e eles acabaram por entregar-se à dança. Consta que a empatia não foi imediata, as primeiras idas a estas festas não provocaram epifanias, mas à medida que se foram ambientando e trocando speed por ecstasy, como admitiram na altura, os Primal Scream redescobriram-se e decidiram que queriam fazer um disco com o mesmo tipo de música que ouviam nos clubes.

Photo of Robert YOUNG and PRIMAL SCREAM and Henry OLSEN and Bobby GILLESPIE and Andrew INNES

Bobby Gillespie, Henry Olsen, Robert Throb Young, Phillip "Toby" Tomanov, Andrew Innes: os Primal Scream em setembro de 1991, no lançamento de "Screamadelica"

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Como não sabiam como transformar as suas canções para as fazer funcionar numa pista, procuraram um aliado na cena, por isso abordaram Andrew Weatherall, um dos fundadores da influente fanzine Boy’s Own, que ditava regras no Reino Unido sobre o que era e não era cool, também DJ e alguém que já tinha remisturado os Happy Mondays e os New Order. Weatherall, falecido em 2020, estava então em início de carreira, mas viria a tornar-se num dos produtores e DJs mais importantes do mundo. Diz a lenda que a abordagem a Weatherall foi feita uma noite no clube Shoom. Andrew Innes, guitarrista, levou uma canção do segundo álbum da banda, “I’m Losing More Than I’ll Ever Had”, e perguntou se poderia fazer alguma coisa. Weatherall refez toda a estrutura da canção original, adaptando-a às pistas de dança e tornou-a irreconhecível. Entre outros artifícios, escolheu usar o sample que marcou definitivamente a canção, a banda e os tempos:

“We wanna be free, we wanna be free to do what we wanna do”. And we wanna get loaded. And we wanna have a good time. And that’s what we’re gonna do. We’re gonna have a good time. We’re gonna have a party!”

Quem fala é Peter Fonda, no filme “Wild Angels”, uma aventura de motoqueiros contra a lei, realizada em 1966 por Roger Corman. A frase, não só ficaria como marco dos Primal Scream, mas serviria de mote para toda uma geração. O que antes era “I’m Losing More…”, transformou-se em “Loaded”. Em Screamadelica, Weatherall não mudou apenas as canções, deu groove e horizontes novos aos Primal Scream. Ele estava dentro do movimento acid house mas vinha do punk e pós-punk, conhecia reggae, dub, disco, house, rock and roll, tinha contactos e ideias sobre como as músicas deveriam ser para funcionarem numa pista. “Loaded” foi testada pela primeira vez no clube Subterrania, em 1990, por Weatherall, que às 4 da manhã ligou a Bobby Gillespie a dizer que toda a gente estava doida com a canção.

[“Loaded”:]

“Loaded”, editado no início de 1990, mais de 1 ano antes do álbum, foi o primeiro sinal da mudança e continua a canção mais conhecida dos Primal Scream e de Screamadelica, mas não é a única a destacar-se no disco. De resto, começa bem, com “Movin’ on Up”, uma canção gospel, escolhida para abrir porque o alinhamento foi pensado para representar a dinâmica do fim de semana e uma canção assim faz todo o sentido: simboliza a preparação e antecipação para o que virá a seguir. O encerramento é feito com “Shine Like Stars”, o voltar à terra depois de um fim de semana a dançar.

Entre uma e outra, a história desenrola-se na pista e paralelamente a ela, quase sempre graças ao toque de Midas de Andrew Weatherall que teve papel decisivo nos momentos mais emblemáticos. Em “Come Together” introduziu o sample do reverendo Jesse Jackson, fez de “Don’t Fight It Feel It” um infeccioso hit de pista, pronto a convencer até os mais introvertidos (eu incluída) a soltar os pés, a cabeça e o corpo todo na pista de dança. “Higher Than The Sun” (que aparece no disco também na versão dos Orb, na altura os reis do chill out graças ao impacto de “Little Flufy Clouds”), foi transformada numa odisseia de dub cósmico com Jah Wobble (Magazine, Pil) no baixo. Apesar de ser um disco pensado para pista, Screamadelica ainda tem ligações ao rock e folk, nas guitarras omnipresentes, desde logo, mas especificamente em “Damaged” ou até em “Slip Inside This House”, que é na verdade uma versão de 13Th Floor Elevators, embora o original de 1967 seja irreconhecível na versão dos Primal Scream.

Há poucos discos tão emblemáticos como Screamadelica, incluindo do ponto de vista do design. A capa, uma espécie de sol de olhos esgazeados, é um pormenor de um quadro de Paul Cannel (falecido em 2005), pintor que fazia algumas capas de discos para a Creation. A imagem, em cores berrantes, estava em perfeita sintonia com o smiley do acid house e acabou por se tornar icónica. Não só está em T-shirts e todo o tipo de merchandise autorizado e pirata, como é selo de correio no Reino Unido desde 2009. Além disso, a propósito dos 30 anos de Screamadelica que agora se assinalam, a Fender lança uma Stratocaster com o sol dos Primal Scream no corpo da guitarra. Não se pode ser muito mais rock n’roll do que isso, sobretudo com um disco pensado para a pista de dança.

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