O mínimo que se pode dizer sobre o britânico Andrew Weatherall é que é um dos DJs e produtores mais influentes dos últimos 30 anos. Embora nem sempre o seu nome tenha aparecido com o destaque merecido, trabalhou na sombra para fazer outros grandes, ajudou a definir o som de um movimento e soube continuar para lá disso.

Enquanto produtor do álbum Screamadelica, por exemplo, elevou os Primal Scream de revivalistas psicadélicos a inovadores ativistas da pista de dança. Integrando coletivos como os Sabres of Paradise ou os Two Lone Swordsmen infetou-nos de dub e eletrónica experimental. Remisturou — e tornou melhores — canções de Happy Mondays, Bjork ou New Order e, ao longo dos anos, nos clubes, na rádio e na internet, mostrou-nos pérolas de punk funk, rock psicadélico, krautrock, rockabilly, reggae, disco, proto house ou techno.

Em 2010, a sua militância na divulgação musical e o seu estatuto de culto, deram origem a uma campanha na internet para que ficasse com o horário de John Peel na Radio One. Weatherall não se envolveu e afirmou que “preferia ser o primeiro Andrew Weatherall, ao segundo John Peel”. Escolheu ter um programa mensal para garantir que passava apenas música verdadeiramente especial. Algo que ele sempre soube reconhecer. Atualmente tinha um programa mensal na NTS chamado Music’s Not For Everyone, o que também diz alguma coisa sobre si.

Mas tudo começou com um fanzine, que depois se transformou numa editora (que editou Chemical Brothers e Underworld, por exemplo): a Boy’s Own, o primeiro órgão oficial da revolução acid house em curso no final dos anos 80. Uma revista fotocopiada, com artigos escritos à máquina e à mão, desenhos e rabiscos, feita por Weatherall, Terry Farley, Pete Heller e outros amigos. A Boy’s Own era em tudo semelhante a fanzines punk como a Sniffin Glue, dava dicas de estilo, tinha entrevistas, criticas, mas tudo sobre a emergente club culture.

Saiu pela primeira vez 1986 (continuou até 92), antes da data oficial decretada para o surgimento do acid house, o verão de 1988, mas seguindo atentamente e crescendo com um movimento que tomava forma dentro e fora dos clubes. A troupe da Boy’s Own organizou algumas das primeiras raves em Inglaterra, ainda nos anos 80, e Paul Oakenfoald e Danny Rampling, dois dos DJs mais importantes da altura, acabaram por convidar Andrew Weatherall para tocar nas suas noites. A história seguiu o seu curso e nunca teria sido a mesma sem Weatherall.

[“Glide by Shooting”, dos Two Lone Swordsmen:]

Fez-se rapidamente um enfant terrible da cena britânica, e depois de remisturas estrondosas para Happy Mondays e Saint Étienne e da reinvenção dos Primal Scream, o seu toque começou a ser procurado como o de Midas. Algum do seu trabalho mais interessante e exploratório foi no entanto feito como Sabres of Paradise e Two Lone Swordsmen, dois projetos que esticaram sempre os limites do universo conhecido na pista de dança.

Weatherall poderia ter vivido exclusivamente dos créditos dos anos 90 (consta que Screamadelica pagou as contas durante muito tempo) ou ter escolhido ser um artista de sucesso aplicando fórmulas por si definidas e de eficácia comprovada. Mas não parou. Gravou vários discos em nome próprio e também como Asphoddels (projeto com Timothy J. Fairplay) e continuou a sua carreira de produtor e DJ, dando assim uso a uma coleção de discos incrivelmente extensa e diversa. Weatherall era um melómano de gosto nem sempre previsível. Além de dub, techno, punk ou disco, Weatherall tinha paixão por rockabilly e era um ávido colecionador, o que tornava um DJ muito especial. Passou várias vezes por Portugal, a última foi a 25 de Janeiro, no Lux-Frágil. Demonstrou sempre conhecimento, vontade de partilha e uma extraordinária capacidade de surpreender.

[“Movin on Up”, do álbum “Screamadelica”, dos Primal Scream:]

O português Gonçalo Pereira, que editou como ZNTN e dirige a editora/podcast How The Other Half Lives (ambos projectos estão suspensos), conheceu pessoalmente Weatherall. Ambos remisturaram faixas de um EP de Timothy J Fairplay, em 2011, e acabaram por descobrir que viviam na mesma rua, em Londres, o que facilitou uma convivência quase diária. Gonçalo lembra-o como “uma das pessoas mais simpáticas ligadas à música” que conheceu em Inglaterra e também das mais atentas: “Estava sempre em dia, a comprar discos de bandas novas. E também andava sempre a ler, adorava o período vitoriano”. Acredito que a sua incansável curiosidade, a avidez com que consumia música e a intensidade com que conseguia gostar de estilos e artistas tão diferentes, contagiaram todos os que o viram tocar. Era um DJ sem medo. Um dos grandes.

Isilda Sanches é jornalista e animadora de rádio na Antena 3