Numa época de transição na música pop, entre o grunge e o hip hop, com a britpop pelo meio e a eletrónica a despontar em força, 1997 trouxe álbuns clássicos que definiram muito do que iríamos escutar nas décadas seguintes — Portugal parecia acompanhar os ventos de mudança, nas suas diferentes latitudes. O Observador destaca treze registos lançados nesse ano.

“Homogenic”

Bjork

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É um daqueles discos que representa bem o papel e o legado da artista islandesa no panorama musical das últimas décadas. Homogenic, o seu terceiro álbum, o mais bem-sucedido comercialmente, anunciava uma mudança de curso que seria amplamente aclamado pela crítica. Casava os sons de batidas eletrónicas com elementos de música erudita, presente através de instrumentos de cordas, numa homenagem também à tradição musical do seu país. Hipnótico e marcadamente nórdico, como apontava muita da crítica à época, Homogenic sintetiza também a forma com a voz de Bjork se tornou epíteto da sua singularidade. A capa foi desenhada por Alexander McQueen e tornou-se símbolo da presença como guerreira “sem armas, mas com amor” que era e continuaria a ser Bjork.

“F♯ A♯ ∞”

Godspeed You! Black Emperor

Um verdadeiro apocalipse: era esse, afinal, o tema que definia o álbum de estreia da banda de post-rock canadiano Godspeed You! Black Emperor. Trata-se de um documento arrebatador daquela que se tornaria uma das bandas-chave deste género musical. Mesmo na completa ausência de palavras, a música produzida pelo grupo foi sempre encarada como uma importante componente de afirmação política: um discurso musical atmosférico e experimental, materialização num som mutável onde não existem fronteiras. Foi inicialmente lançado em edições limitadas e distribuído sobretudo em apresentações ao vivo, o que lhe granjeou um carácter de culto e de seguidores que não mais deixariam de seguir os passos desta que é uma das bandas mais singulares criadas na década de 1990.

“OK Computer”

Radiohead

Foi na mansão histórica de St. Catherine’s Court que nasceu o terceiro e mítico álbum dos britânicos Radiohead. O disco foi uma tentativa deliberada da banda para se afastar do estilo guiado por guitarras elétricas e letras introspetivas tão característico do indie rock da transição entre as décadas de 80 e 90 (bem presentes no trabalho precedente, The Bends). As letras sobre o caos interno e externo causado por um mundo cada vez mais ligado, apressado e sobre-populado, a fuga ao estrelato pop, a instrumentação densamente produzida e a vasta gama de influências introduziram o experimentalismo na obra dos Radiohead. Com singles como “Paranoid Android” e “Karma Police”, o OK Computer expandiu o sucesso do grupo em diversas partes do globo e vendeu mais de oito milhões de cópias mundialmente. Foi recebido como um dos melhores trabalhos daquela década (e é ainda considerado como um dos discos mais importantes da história da música pop-rock).

“Cão!”

Ornatos Violeta

Foi o início de um fenómeno que ainda hoje tem impacto no panorama musical português: a estreia dos portuenses Ornatos Violeta nos discos, através do primeiro álbum, Cão!. Com “Punk Moda Funk”, “A Dama do Sinal” e “Mata-me Outra Vez” abriu-se todo um novo capítulo na música portuguesa. Era, afinal, uma forma de exclamação efusiva: um grito, um berro murmurado em português, um berço de emoções frenéticas e descontroladas. Menos polido, é certo, que o seu sucessor “O Monstro Precisa de Amigos”, este primeiro registo era um sinal de um nova madrugada (pela qual tanto esperávamos?), através de um uivo raivoso que ainda se faz ouvir.

“Urban Hymns”

The Verve

Se em 1997 os Blur entravam numa fase de divergência em relação à Britpop e os Oasis desvaneciam com Be Here Now, os The Verve ganhavam espaço para conquistar o público britânico (e não só) com este terceiro disco. Urban Hymns passou a ser visto como o canto de cisne do movimento que já começava a dominar as grandes arenas e os The Verve não podiam ter acertado mais em cheio na equação. Richard Ashcroft e companhia fizeram, literalmente, um álbum de hinos, entre eles “Bitter Sweet Symphony” e “Lucky Man”. O sucesso comercial, com mais de dez milhões de cópias vendidas, e a aclamação crítica, fizeram da banda de Wigan um dos nomes cimeiros da cena musical inglesa daquela década.

“Ladies and Gentlemen We Are Floating in Space”

Spiritualized

Os anos 90 são dominados pelo rock, sim, mas com espaço para muitas atmosferas e camadas. É o caso deste terceiro disco dos Spiritualized, banda de Jason Pierce, que tinha sido um dos timoneiros dos icónicos Spacemen 3. Naquele que é considerado um dos grandes álbuns de 1997, junta-se a participação de Balanescu Quartet, The London Community Gospel Choir e Dr. John. O resultado? Um manifesto emocional, de amor-ódio à vida, testemunho irrepreensível da visão cósmica e talento notável de Pierce que acrescentou assim um capítulo histórico ao percurso do shoegaze, como subgénero de culto dentro do panorama do rock alternativo, aqui recheado de um psicadelismo muito particular.

“Dig Your Own Hole”

The Chemical Brothers

No campo da eletrónica, a dupla britânica The Chemical Brothers trilhava por estes dias um caminho de ascensão sem paralelo. Ao segundo álbum, que teve como vocalistas convidados Noel Gallagher (Oasis) e Beth Orton, chegaram ao cimo dos tops e tornaram-se numa das bandas mais procuradas no que aos remixes e samples diz respeito. Dig Your Own Hole é um álbum sem costuras, onde não faltam hits como “Setting Sun”, “Where Do I Begin”, “Block Rockin’ Beats”, “Elektrobank” e “The Private Psychedelic Reel”. Vinte cinco anos depois, temos a certeza que é um dos álbuns responsáveis pela popularização da música eletrónica, especialmente aquela que levou o rótulo “big beat”, que aparecia em discos dos Prodigy, Fatboyslim ou Propellerheads.

“Baduizm”

Erykah Badu

Registo de estreia da cantora norte-americana Erykah Badu e um marco do género neo-soul. Baduizm é um daqueles momentos únicos, que fez da sua criadora um nome popular e a reter na música que se fazia no continente americano. O álbum foi um grande sucesso junto do público e da crítica. Estabeleceu a cantora como uma das melhores intérpretes emergentes e trouxe de volta a simplicidade do género, aquela que se tinha feito notar entre as décadas de 60 e 70. Uma mistura confiante de jazz, soul, R&B e hip-hop, que recebeu o prémio de Melhor Álbum de R&B nos Grammy Awards desse ano.

“Blur”

Blur

Em pleno auge do movimento britpop, o quinto álbum dos Blur foi a continuação da aclamação crítica que já tinham recebido, particularmente, com Parklife e The Great Escape. Neste disco, com algumas mudanças estilísticas e a influência presente de bandas indie rock norte-americanas, como os Pavement, os Blur evoluíram, ainda que à época isso fosse visto como um passo arriscado. “Song 2”, presente no álbum, assim como o seu primeiro single, “Beetlebum”, foram canções que os aproximaram do público norte-americano e mesmo que tenha demorado alguns meses, levou os Blur até ao primeiro lugar do top na Grã-Bretanha. Foi o início de um novo caminho para a banda de Damon Albarn e companhia, mas foi também o princípio de uma longa ressaca face ao sucesso acumulado até então.

“3º Capítulo”

Da Weasel

Embora já fossem uma banda reconhecida, é com este 3º Capítulo que os Da Weasel parecem, de facto, criar um lastro e movimento que se manteria por muitos anos. E logo com um disco bastante maduro nas temáticas e onde Pacman se afirmava como um dos maiores e mais engenhosos letristas do panorama musical português. “Todagente” torna-se num dos hinos do grupo, mas são vários os temas que retratam a sociedade de forma crítica e atenta. De carácter intemporal, o segundo trabalho da banda de Almada revela uma multiplicidade de influências e abordagens que se tornariam num selo Da Weasel, entre o humor sarcástico e o relato frio bem patentes. Não poderíamos pedir por melhor análise à sociedade portuguesa daqueles anos.

“Life After Death”

The Notorious B.I.G.

É o segundo e último álbum do rapper The Notorious B.I.G. (também conhecido como Biggie Smalls), lançado postumamente a 25 de março de 1997 pela Bad Boy Records. O seu criador tinha sido mortalmente baleado nesse mesmo mês dentro de um carro, em Los Angeles, quando tinha apenas 24 anos. Sucessor do clássico de 1994, Ready to Die, este foi um disco de sucesso, junto do público e da crítica. Conta com as participações especiais dos músicos 112, Jay-Z, Lil’ Kim, Bone Thugs-n-Harmony, R. Kelly, The LOX, Kelly Price e Puff Daddy, sendo considerado um testemunho seminal do chamado gangsta rap e obra-prima do hip-hop.

“The Fat Of The Land”

The Prodigy

Talvez não haja melhor cruzamento entre rock e música de dança do que aquele que podemos encontrar neste clássico de referência no percurso dos britânicos The Prodigy. Um disco que marcou, certamente, uma geração de adolescentes e prenunciou muito do que este género musical ainda iria trazer ao longo dos anos seguintes. Blockbuster comercial, permitiu aos The Prodigy correr o mundo e chegar às paradas norte-americanas. Quase três décadas depois mantém a barra da tensão lá bem no alto. Afinal, esse fulgor imparável e provocador seria uma tónica para o grupo, a que se juntou, pela primeira vez, a postura enigmática de Keith Flint. Já em 1999, The Fat of the Land entrou no Guinness World Records como o álbum mais rapidamente esgotado no Reino Unido.

“Kazoo”

Clã

Depois de um primeiro álbum bem-sucedido, o LusoQUALQUERcoisa, de 1996, este segundo registo dos Clã vinha confirmar, em definitivo, que era a Norte que estavam a surgir algumas das mais valiosas vozes do panorama musical português. “Problema de Expressão”, “GTI (Gentle, Tall & Intelligent)” e “Loja de Porcelanas”, entre outras composições, todas com letras de Carlos Tê – exceto uma versão de “I’m Free”, dos Rolling Stones – mostravam a inegável pujança de Manuela Azevedo e companhia, num disco que os levaria numa primeira grande digressão em Portugal, mas também pelo Brasil e Macau. Kazoo é, 25 anos depois, uma obra versátil e plural, repleta de canções pop minuciosamente escritas, que merecem ser relembradas.