Era difícil existir um contexto mais positivo para abordar um jogo a eliminar. Três dias depois de conquistar a Taça da Liga contra o Sporting, nas grandes penalidades, o Benfica visitava o Farense e procurava chegar aos quartos de final da Taça de Portugal. Ou seja, três dias depois de vencer um dos principais rivais e levantar um troféu, o Benfica visitava o Farense com o objetivo de voltar a correr atrás de outro troféu.

Os últimos dias de Bruno Lage foram naturalmente mais simples, apesar das interrogações à volta da substituição de Schjelderup ao intervalo da final da Taça da Liga e da exibição assim-assim, e o treinador beneficiava de um período de aparente acalmia depois das derrotas consecutivas contra Sporting e Sp. Braga no Campeonato. Em pouco mais de uma semana, tudo mudou — para melhor. Logo, o treinador encarnado sabia que, em pouco mais de uma semana, tudo poderia voltar a mudar — para pior.

Ficha de jogo

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Farense-Benfica, 1-3

Oitavos de final da Taça de Portugal

Estádio de São Luís, em Faro

Árbitro: Hélder Malheiro (AF Lisboa)

Farense: Ricardo Velho, Pastor, Cláudio Falcão, Raul Silva, Tomás Ribeiro, Paulo Victor, Neto (André Seruca, 34′, Filipe Soares, 77′), Miguel Menino, Marco Matias (Darío Poveda, 66′), Tomané (Elves Baldé, 66′), Mehdi Merghem (Jaime Pinto, 66′)

Suplentes não utilizados: Lucas Cañizares, Artur Jorge, Derick Poloni, Rivaldo Morais

Treinador: Tozé Marreco

Benfica: Samuel Soares, Alexander Bah, António Silva, Otamendi, Álvaro Carreras (Adrian Bajrami, 88′), Florentino, Leandro Barreiro, Fredrik Aursnes (Rollheiser, 88′), Di María (Amdouni, 41′), Schjelderup (Aktürkoğlu, 75′), Arthur Cabral (Pavlidis, 75′)

Suplentes não utilizados: Trubin, Kökçü, Tomás Araújo, João Rego

Treinador: Bruno Lage

Golos: Tomané (7′), Schjelderup (56′), Arthur Cabral (58′), Alexander Bah (62′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Raul Silva (42′), a Tomás Ribeiro (45+4′)

“Nós queremos sempre o melhor Benfica. E aquilo de que nós falámos durante muito, muito tempo nos primeiros meses de trabalho foi essa união. E essa união chegou-nos, deu-nos a oportunidade de estarmos fortes, de jogar bem, de nos unirmos cá dentro e de nos unirmos também com os adeptos. E aquilo que nós queremos neste momento — e temos de ter uso e de nos agarrar a essa palavra — é a consistência. É em busca dessa consistência que temos de continuar a trabalhar. Perceber que não podemos perder a união que temos, quer dentro, quer com os nossos adeptos, mas continuar a trabalhar para sermos cada vez mais consistentes. Essa consistência tem de partir de todos nós: dos jogadores, ao perceberem que a cada momento têm de estar no seu melhor, e também de nós, equipa técnica, ao sabermos que temos de jogar de três em três dias”, explicou Lage na antevisão da partida desta terça-feira.

Ora, neste contexto e no Estádio São Luís, em Faro, o treinador do Benfica mantinha a aposta em Schjelderup, em detrimento de Aktürkoğlu, e lançava Leandro Barreiro e Arthur Cabral ao invés de Kökçü e Pavlidis. Alexander Bah voltava à direita da defesa, enquanto que António Silva era titular e Tomás Araújo começava no banco. Do outro lado, num Farense que só perdeu uma vez no último mês, Tozé Marreco tinha Tomané como referência ofensiva e estreava o central Tomás Ribeiro, contratado ao V. Guimarães já durante o atual mercado.

O Benfica começou bem e com um ritmo muito acima da média, implementando uma intensidade que não permitia ao Farense sair do último terço defensivo. Os encarnados poderiam ter inaugurado o marcador logo no primeiro minuto, com um remate de Di María que passou por cima (1′), e Álvaro Carreras também ensaiou o pontapé pouco depois, mas a bola saiu contra um jogador adversário (3′).

Os algarvios conseguiram reagir ainda dentro dos dez minutos iniciais, com Tomané a dividir um cabeceamento com um defesa do Benfica depois de um cruzamento na direita (6′), e a verdade é que chegaram ao golo na primeira oportunidade de que beneficiaram. Canto cobrado e Tomané, no meio de vários jogadores encarnados, saltou mais alto do que todos os outros para cabecear, bater Samuel Soares e colocar o Farense a ganhar (7′).

A reação imediata do Benfica foi um cabeceamento desenquadrado de Arthur Cabral, também depois de um canto (10′), mas a verdade é que a equipa de Bruno Lage sentiu muito o golo sofrido e nunca conseguiu propriamente aproximar-se do empate. O Farense não defendia com as linhas totalmente recuadas, apesar de se ter desinteressado do ataque depois de chegar ao golo, e ia controlando as escassas vezes em que os encarnados assustaram a baliza de Ricardo Velho — sendo que praticamente só aconteceu através de lances de bola parada e com o guarda-redes a afastar o perigo consecutivamente.

Tozé Marreco teve de fazer a primeira substituição de forma forçada, trocando o lesionado Neto por André Seruca, e a verdade é que Bruno Lage passou pelo mesmo pouco depois, com Di María a acusar um problema muscular e Amdouni a ser lançado nas costas de Arthur Cabral, com Aursnes a fixar-se na direita do ataque. Até ao intervalo, à exceção de um remate de longe de Álvaro Carreras que passou ao lado (42′), já nada mudou: e o Benfica foi mesmo para o balneário a perder com o Farense.

Nenhum dos treinadores fez mais alterações ao intervalo e a lógica do jogo manteve-se, com o Benfica a ter muitas dificuldades para criar lances de perigo e o Farense a aproveitar para ameaçar o segundo golo, com Tomané a rematar já na área para uma defesa atenta de Samuel Soares (50′). O encontro até parecia mais partido e com mais espaço, com os algarvios a apostarem totalmente na transição rápida e os encarnados, com vários passes errados, a permitirem demasiadas arrancadas ao adversário.

Em seis minutos, porém, tudo mudou. Leandro Barreiro descobriu Schjelderup na esquerda, o avançado norueguês puxou para dentro e atirou em jeito para empatar (56′); instantes depois, Carreras abriu da esquerda para o meio com um grande passe, Arthur Cabral recebeu de forma orientada e rematou cruzado para carimbar a reviravolta (58′); após a hora de jogo, Bah aproveitou uma defesa incompleta de Ricardo Velho e aumentou a vantagem numa recarga (62′). Num abrir e fechar de olhos, o Benfica deu a volta a um jogo que estava a tornar-se muito complicado e colocou-se em ótima posição para seguir em frente.

Tozé Marreco fez três substituições de uma vez, trocando todo o trio ofensivo para lançar Jaime Pinto, Darío Poveda e Elves Baldé, e Bruno Lage começou rapidamente a gerir ao colocar Aktürkoğlu e Pavlidis nos lugares de Schjelderup e Arthur Cabral. O jogo foi entrando numa toada naturalmente mais desinteressante, com o Benfica a gerir uma vantagem que entretanto se tinha tornado muito confortável e o Farense sem qualquer capacidade para voltar a discutir o marcador depois de sofrer três golos de rajada.

Já nada mudou até ao fim e o Benfica venceu o Farense com direito a reviravolta para carimbar a passagem aos quartos de final da Taça de Portugal, onde vai encontrar Sp. Braga ou Lusitano de Évora. Na antevisão, Bruno Lage elogiou Schjelderup por ter dado uma “resposta competente e séria” e deixou a certeza de que “quem quiser oportunidades” terá de fazer o que o jovem avançado tem feito — e o aluno preferido do professor reagiu com mais um teste para nota 20.