Vão longe, muito longe, os tempos em que a experiência imigrante nos EUA era representada pelo cinema americano de forma positiva e esperançosa, e o país de acolhimento e as possibilidades de trabalho, prosperidade, sucesso e felicidade que oferecia, e apesar de todas as agruras, preconceitos e obstáculos encontrados, eram agradecidos e celebrados. Hoje, essa experiência é pintada por Hollywood com ceticismo e negativismo, e a celebração transformou-se em execração ressentida e biliosa. É isso que encontramos em O Brutalista, de Brady Corbet, que logo no cartaz – a Estátua da Liberdade virada do avesso – mostra ao que vem e que tom vai adotar.
[Veja o “trailer” de “O Brutalista”:]
Rodado em obsoleto VistaVision, exibido em 70mm e com três horas e meia de duração (mais um intervalo de 15 minutos), O Brutalista exibe uma empáfia formal, narrativa e intelectual que esconde muito mal a banalidade, a superficialidade e a redundância que o caracterizam, tal como a sua identidade formal e os 210 minutos que demora são completamente irrelevantes em termos daquilo que conta. Brady Corbet quis rodar um filme de ideias, mas não há uma única ideia (nem sequer visual) original ou interessante em O Brutalista, cujo único espectáculo, além do cabotinismo insofrível e histriónico de Adrien Brody, é o da sua inchadíssima auto-importância.
[Veja uma entrevista com Adrien Brody, Guy Pearce e Felicity Jones:]
Escrito por Corbet e por Mona Fastvold, O Brutalista é centrado em Lázsló Tóth (Brody), um talentoso arquiteto húngaro que estudou na Bauhaus, sobreviveu à II Guerra Mundial e aos campos da morte nazis, e que se instala nos EUA em 1947, sendo acolhido em Filadélfia pelo seu primo Attila, que tem uma próspera loja de mobílias, casou com uma rapariga católica, anglicizou o nome e está bem integrado na sociedade americana. Tóth tem que recomeçar a vida de baixo, a fazer trabalhos indignos dos seus dotes, e precisa de arranjar maneira de fazer vir da Europa a mulher, Erzsébet (Felicity Jones) e a sobrinha órfã, Zsófia (Raffey Cassidy), retidas pela burocracia dos soviéticos, que entretanto, e aproveitando-se do caos do pós-guerra, estão a apoderar-se dos países de Leste.
[Veja uma entrevista com o realizador Brady Corbet:]
Entra então em cena Harrison Van Buren (Guy Pearce), um rico industrial, homem com interesses artísticos, preocupações culturais e bom gosto, que reconhece o valor de Tóth e lhe encomenda um imponente edifício modernista, misto de biblioteca, teatro, capela e ponto de encontro comunitário; e consegue que a mulher e a sobrinha do arquiteto venham juntar-se-lhe, ao mesmo tempo que lhes oferece alojamento numa casa na sua vasta propriedade. Mas esta “segunda oportunidade” da sua vida, como Tóth chama ao projecto, não irá correr bem. Van Buren mostra-se cada vez mais arrogante, condescendente e autoritário, e entra em conflito com a inflexibilidade férrea, o feitio difícil e a teimosa visão do arquitecto, causando um violento choque de vontades e egos.
[Veja uma sequência do filme:]
Brady Corbet quis fazer um épico sobre a intransigência do artista visionário, inconformista e íntegro (no caso vertente, um arquiteto). Só que esse filme já foi feito, muito melhor, de forma mais articulada, relevante e profunda, e sem a auto-indulgência, a afectação, a má consciência, os estereótipos (o artista individualista e torturado de Tóth contra o WASP abastado e prepotente de Van Buren) e a duração exagerada do seu, por King Vidor em Vontade Indómita (The Fountainhead, 1949), baseado no brilhante e intemporal romance de Ayn Rand. E também sem a insistente e ostensiva vitimização do protagonista, que tem o efeito oposto ao pretendido sobre o espectador: torna Tóth numa figura antipática, com a qual não desejávamos passar nem cinco minutos.
Este filme de Brady Corbet tem a mesma monumentalidade oca, laboriosa, forçadamente “dramática” e pseudo-“significativa” do edifício de Lázslo Tóth. E assim o realizador e a sua personagem fazem um mesmo.