Em No Direction Home: Bob Dylan (2005), Martin Scorsese tentou documentar e explicar o itinerário pessoal e musical de Bob Dylan entre 1961 e 1966, sem se esquecer de visitar a sua infância e juventude, quando era ainda Robert Zimmerman, um rapaz anónimo do Minnesota que queria ser cantor folk, e caso muito raro, pôs o próprio Dylan a falar de si e da sua música frente a uma câmara. Em 2007, Todd Haynes realizou Não Estou Aí, um filme no polo oposto do de Scorsese, uma especulação fantasiosa em que cinco atores e uma atriz personificam Dylan ao longo da sua vida, e ilustram outras tantas das suas enigmáticas “identidades” pessoais, artísticas e percecionadas (ou mesmo inventadas) pelos media e pelo público.

[Veja o “trailer” de “A Complete Unknown:]

O novo filme sobre Bob Dylan, A Complete Unknown, de James Mangold, escrito pelo realizador e por Jay Cocks e baseado no livro Dylan Goes Electric!, de Elijah Wald, cobre quase exatamente os mesmo anos do documentário de Martin Scorsese, em que um então desconhecido Dylan se instalou em Nova Iorque, no bairro boémio e artístico de Greenwich Village, e com as suas canções musical e poeticamente inovadoras, se tornou numa vedeta de aura místico-contestatária (com que não se sentia nada cómodo), e na voz (muito relutante) de uma nova geração numa sociedade americana em profunda convulsão social e política, e num mundo no auge das tensões da Guerra Fria. E depois passou de Messias a Judas da folk, graças a uma atuação “elctrificada” no Festival de Newport de 1965.

[Veja uma entrevista com James Mangold:]

Comparado com No Direction Home: Bob Dylan, A Complete Unknown sabe a redundante e combina realidade e ficção onde aquele procurava a mais completa e estrita factualidade; e não tem absolutamente nada a ver com Não Estou Aí, das intenções, à forma, excetuando o ser também sob Bob Dylan. Mas ao contrário destas duas, a fita de James Mangold não pretende dar contributos para a decifração dessa figura esquiva, inquieta, desconcertante, avessa a classificações e a análises, muito parcimoniosa a discorrer sobre si mesmo e a música que faz, e mais dada a despistar quem lhe vem fazer perguntas do que a dar-lhe pistas, que é Bob Dylan.

[Veja uma entrevista com Timothée Chalamet:]

Os cinco anos da existência e da carreira do músico que A Complete Unknown abrange são todos de ascensão, culminando com uma rutura. E o filme está mais interessado no efeito causado por Dylan e pela sua música naqueles que o rodeiam, do que em esmiuçar a sua personalidade e desmontar-lhe os mecanismos criativos, ou em fazer juízos sociológicos, políticos ou críticos sobre as suas canções. James Mangold evita assim dois dos grandes lugares-comuns dos filmes biográficos sobre artistas: a narrativa cronológica exaustiva e a perspetiva analítica. O que ele pretende é mostrar como Bob Dylan não estava à vontade com a imagem que os outros tinham dele, não queria ficar onde o queriam pôr nem ser quem diziam que era, e não desejava fazer o que pretendiam que ele fizesse (além de não gostar de falar de si e do seu passado).

[Veja uma entrevista com Edward Norton:]

Daí o seu gesto herético no Festival de Folk de Newport de 1965. Não lhe servia ser uma estátua imaculada no museu asséptico da folk, Dylan queria viver uma nova aventura montado na garupa elétrica do rock. A Complete Unknown ilustra, mais pormenorizadamente, uma frase dita pelo autor de Like a Rolling Stone no documentário de Martin Scorsese: “Eu sou um outsider, nunca fui um insider”. E Mangold, que em 2005 filmou a vida de Johnny Cash em Walk the Line, não tem uma atitude de veneração passiva para com o biografado, mostrando os aspetos menos agradáveis da personalidade de Dylan. Como lhe atira a certa altura a Joan Baez de Monica Barbaro: “Bob, you are a bit of an ass!”.

[Veja uma entrevista com Elle Fanning:]

Interpretando Bob Dylan, Timothée Chalamet oscila entre a imitação competente e a personificação persuasiva (a voz é fundamental aqui), e nos melhores momentos, faz-nos lembrar o Dylan do documentário Don’t Look Back, de D.A. Pennebaker (1967). Dada a quantidade de sequências musicais, e a sua importância na história, James Mangold abdicou do playback e insistiu, em nome da autenticidade, que os principais atores cantassem e aprendessem a tocar os instrumentos das suas personagens: guitarra e harmónica para Chalamet, guitarra para Monica Barbaro (Joan Baez), e banjo para Edward Norton (muito bom como Pete Seeger). Chalamet não compromete, Norton cumpre bem, mas Barbaro não convence lá muito (já agora, Boyd Holbrook faz um Johnny Cash impecável, em palco e fora dele).

[Veja uma entrevista com Monica Barbaro:]

O filme teve a autorização oficial de Bob Dylan, com o qual James Mangold chegou a encontrar-se, num café de Santa Monica. Dylan pediu-lhe que a personagem da artista e ativista Suze Rotolo, a sua primeira namorada em Nova Iorque (e que foi imortalizada a seu lado na capa de The Freewheelin’ Bob Dylan), não fosse referida diretamente. Interpretada por Elle Fanning, Rotolo surge em A Complete Unknown como Sylvie Russo. E para informação dos dylanianos mais coca-bichinhos, que vão passar o filme a pente fino, à procura do que está conforme ao acontecido e do que é liberdade dramática, quando James Mangold avisou Bob Dylan que o argumento alterava alguns factos e ficcionava certas situações, ele respondeu-lhe, enquanto ajustava os óculos escuros e bebia o seu café: “Who cares?”.