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A galeria São Roque é a primeira portuguesa na The Winter Show em Nova Iorque — e a "coleção exótica" está a fazer sucesso

Este artigo tem mais de 1 ano

É uma das maiores feiras de arte do mundo e a galeria portuguesa levou 90 peças dos séculos XVI e XVII, depois de ter vendido quatro ao Metropolitan. Mário Roque explica-nos o interesse americano.

“Tem havido artigos nos jornais e muita curiosidade, estamos a ter opiniões muito positivas. Dizem que é um stand muito exótico”, explica ao telefone a partir de Nova Iorque, a poucas horas de abrir novamente o espaço
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“Tem havido artigos nos jornais e muita curiosidade, estamos a ter opiniões muito positivas. Dizem que é um stand muito exótico”, explica ao telefone a partir de Nova Iorque, a poucas horas de abrir novamente o espaço

“Tem havido artigos nos jornais e muita curiosidade, estamos a ter opiniões muito positivas. Dizem que é um stand muito exótico”, explica ao telefone a partir de Nova Iorque, a poucas horas de abrir novamente o espaço

Há cerca de dez anos, enquanto visitava uma feira de arte em Paris, Mário Roque percebeu que, contrariamente ao que achava, “havia muito para conhecer sobre a arte portuguesa”. Foi nesse momento que decidiu fazer um stand com obras de artistas nacionais. “Queria, de forma pedagógica e temática, começar com a arte afro-portuguesa, indo até ao Japão. Todos os anos edito um catálogo sobre isso, sobre a arte portuguesa e sobre as peças, em que falo do cruzamento das culturas visível nas obras. Foi de tal maneira um sucesso que pouco tempo depois fui convidado para ir à feira de Maastricht [nos Países Baixos]”, explica ao Observador Mário Roque, um dos responsáveis pela São Roque — Antiguidades e Galeria de Arte, em Lisboa.

Uma década, muitas viagens e feiras depois, a São Roque está a representar Portugal pela primeira vez na The Winter Show, uma conceituada feira em Nova Iorque (EUA), que todos os anos recebe mais de 70 comerciantes de renome internacional — escolhidos por um comité de 120 especialistas — com peças de arte, design e antiguidades. “Comecei por ter muitos contactos de museus que queriam adquirir peças e, no ano passado, vendi umas peças muito importantes ao Metropolitan [conhecido como Met, The Metropolitan Museum of Art é um dos museus mais conhecidos de Nova Iorque e do mundo].” Pensou que estava então na altura de preparar uma seleção de peças para dar a conhecer as peças da Galeria São Roque aos norte-americanos.

Segundo o antiquário, o stand português tem sido a grande surpresa da feira — que começou a 24 de janeiro no Park Avenue Armory e se prolonga até 2 de fevereiro. “Tem havido artigos nos jornais e muita curiosidade, estamos a ter opiniões muito positivas. Dizem que é um stand muito exótico”, explica ao telefone a partir de Nova Iorque, a poucas horas de abrir novamente o espaço.

Salva de Gomos em prata portuguesa, pertencente à coleção do Imperador da Abissínia, inícios do Séc. XVIII

JOAO KRULL

À volta, o que os vizinhos apresentam tende a ser mais contemporâneo e é também por isso que a escolha portuguesa se destaca, garante. “Ao nosso lado há muita folk americana, mobiliários franceses e ingleses de finais do século XIX, peças europeias. Os EUA são um país relativamente recente, portanto o que conhecem aqui é sobretudo arte dos séculos XVIII e XIX. Dos séculos XVI e XVII têm pouca coisa e, além disso, a arte portuguesa é completamente desconhecida, portanto para eles tem sido uma descoberta.”

Para esta The Winter Show seguiram cerca de 90 peças, dos séculos XVI e XVII, escolhidas minuciosamente para contarem uma história. “Temos peças de África e da chegada à Índia, temos algumas de 1550. A preparação da feira começou há seis meses e a seleção foi muito criteriosa. Temos uma equipa de peritos e de especialistas de várias áreas, como historiadores de arte. Ao nível em que estamos, com as relações com museus e feiras, não podemos correr o risco de cometer qualquer falha.”

Cada objeto tem de ser transportado por empresas especializadas — “existem poucas e os preços são inacreditáveis”. Desta vez, com a agravante de ser preciso atravessar um oceano, a coleção teve de seguir de avião — “tínhamos de ter a certeza de que estavam cá no dia em que queríamos”.

Pote de faiança portuguesa alusivo à abundância e primavera, 1630-1640

A isso juntaram-se outras limitações, como a impossibilidade de apresentar peças em marfim ou tartaruga. “A decisão deles [norte-americanos] tem a ver com a proteção das espécies. Há uma norma mundial que diz que não se pode negociar marfim apreendido a partir de 1980 para limitar o risco de matarem os animais. Mas a maioria das peças que tínhamos relacionadas com a arte de expressão portuguesa tinham marfim, portanto tivemos de fazer uma escolha para que não houvesse nenhuma peça com esses critérios. Embora estas peças tenham 300 e 400 anos — portanto, não faz muito sentido porque vêm de um contexto e de uma determinada época.”

Da quase centena de objetos que estão patentes no evento, Mário Roque destaca “duas salvas de prata portuguesa do século XVII que pertenceram ao imperador da Abissínia, Haile Selassie. Foram vendidas num leilão em Londres, em 1936, e vieram parar às minhas mãos”.

Em Nova Iorque está agora também um contador do Japão, com laca, ouro, madrepérola e cobre dourado. “É uma coisa raríssima, do período Momoyama [1573-1603]. Tem um formato europeu, que os nossos navegadores levaram para lá para mobiliários das suas casas ou como encomendas de europeus, não só de portugueses. Apesar do formato, a decoração é toda japonesa e este é o único contador que se conhece que é forrado por fora com uma folha de cobre revestida de ouro a imitar escamas de peixe.”

Junta-se um São Pedro peculiar. “É do século XVII e é uma das primeiras imagens que tem a ver com o cristianismo na China. Parece um Buda, não é? Um Buda com a cabeça e as chaves de São Pedro. Lisboa era a capital do mundo, digamos, e levava o exotismo para a Europa”, observa Mário Roque.

Escritório Namban adornado com decoração de escamas de peixe, período Momoyama (1573-1603)

JOAO KRULL

Divulgar a faiança portuguesa é igualmente uma aposta e, por isso, há vários exemplos na The Winter Show. “Têm sido um grande sucesso as peças da primeira metade do século XVII, as chinoiseries. São as primeiras peças de faiança feitas na Europa seguindo as porcelanas da China do período Ming. Introduzimos na Europa o gosto pela porcelana, pela faiança azul e branca, porque anteriormente havia apenas as majólicas italianas com decoração inspirada em motivos chineses.”

Quando os visitantes param no stand português, Mário Roque gosta de explicar os altos e baixos dessa indústria. “O sucesso foi tanto que a Europa quis comprar as nossas faianças. Só que as faianças vinham de Portugal, o comércio era feito de barco e estávamos na época dos Filipes [terceira dinastia portuguesa], que não podiam perceber que este negócio existia.” O transporte ficava tão caro que outras fábricas na Europa, “nomeadamente em Delft, nos Países Baixos, começaram a copiar as nossas faianças. A partir daí, os nossos oleiros entraram em falência e acabaram passados 15 ou 50 anos”.

O facto de, em Portugal, as faianças terem sido fabricadas durante apenas algumas décadas faz delas peças raras. “Aqui tem havido muito interesse, até porque em escavações que têm feito [nos EUA], têm descoberto alguns cacos das faianças portuguesas de finais do século XVI e primeira metade do século XVII.”

Mário Roque nunca tinha estado na The Winter Show, nem como visitante. O convite para a presença da São Roque aconteceu em 2024, na feira de Maastricht, e desde então o antiquário e colecionador estudou a importância da feira e informou-se como pode com as informações disponíveis online. A partir daí, foi uma aventura alavancada pela venda feita recentemente ao Met: “Vendemos quatro cofres: dois cingalo portugueses, um de Pegu [a atual Birmânia] e outro de Guzarat, na Índia.”

São Pedro sino-português, Séc. XVII

JOAO KRULL

Brevemente, será possível vê-los expostos no Metropolitan. Quanto à seleção que está no Park Avenue Armory, da The Winter Show, algumas peças seguem para a Tefaf de Maastricht, que se realiza entre 15 e 20 de março. Outras regressam a Lisboa. Outras ainda podem ter um novo destino, se entretanto forem vendidas. Ainda assim, Mário Roque garante: “O papel do antiquário não é só vender, mas principalmente desenvolver a arte portuguesa. Desde há longos anos que nos dedicamos à expansão portuguesa, a tudo o que está ligado aos descobrimentos”.

As Antiguidades e a Galeria de Arte São Roque são um projeto de dois sócios, Mário Roque e António Lima. Mas, até há bem pouco tempo, o antiquário dividia os dias entre a galeria de arte e a carreira de médico radiologista. “Como? Com muita dificuldade, porque isto é muito exigente. Não tive férias durante 15 anos.” Herdou a paixão pela arte da mãe, que era professora de química e colecionadora. “Desde miúdo que andava sempre com ela nos antiquários e nas feiras internacionais. Ela tinha uma grande paixão por antiguidades e, quando se reformou, resolveu abrir um antiquário e eu comecei a acompanhá-la. A São Roque existe há 35 anos, mais ou menos.”

O ritmo da compra de peças não foi diminuindo com os anos, pelo contrário. “Efetivamente, é uma coisa compulsiva, às vezes não se consegue resistir. Por isso é que os antiquários nunca têm dinheiro, não é? Tudo o que têm é para investir e comprar. É uma profissão complicada por isso”, reconhece. Contudo, desta vez, na The Winter Show, a razão vai prevalecer sobre a paixão, “o que raramente acontece”. Os outros stands, com conteúdos muito mais contemporâneos, não têm nenhuma peça que fizesse sentido juntar ao catálogo da São Roque.

Até dia 2, a missão desta equipa de quatro pessoas na feira internacional de arte em Nova Iorque é só uma: “Divulgar e honrar a riqueza da nossa história e das nossas peças de arte”.

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