“A Semente do Figo Sagrado”
Os protestos anti-regime de setembro de 2022 no Irão, desencadeados pela morte da jovem Mahsa Amini quando estava sob custódia policial, são o gatilho deste filme rodado clandestinamente por Mohammad Rasoulof, entretanto refugiado na Alemanha para fugir a uma pena de prisão e chicotadas. Iman, um jurista recém-nomeado juiz de investigação com poder para assinar sentenças de morte, perde em casa a arma que lhe foi dada para proteção e começa a desconfiar da mulher e das duas filhas (uma das quais anda envolvida nos tumultos), criando uma atmosfera insuportável. A Semente do Figo Sagrado é um sufocante e compacto filme de suspense com miolo político, centrado numa família que reproduz no seu interior os mecanismos de vigilância e repressão do poder teocrático, e mostra o Irão como um país em rutura de gerações, uma panela de pressão etária, social e política que um dia rebentará de vez. Rasoulouf não precisava era de ser tão demonstrativo, tornando a fita (Prémio Especial do Júri em Cannes e nomeada para Melhor Filme Internacional) desnecessariamente longa, e sobretudo insistente nas imagens dos protestos e da violência policial feitas por telemóvel.
“A Mulher de Tchaikovsky”
Realizador do excelente Verão e do excêntrico A Febre de Petrov, o russo Kirill Serebrennikov espalha-se ao comprido com esta soturna chumbada em que conta a história de Antonina Miliukova, mulher de Piotr Tchaikovsky, e do seu casamento de pesadelo com o compositor. É uma narrativa de amor obsessivo até ao doentio (Antonina deixa-se maltratar e humilhar para lá dos limites do suportável e do compreensível), com uma componente masoquista, sem que Serebrennikov pareça interessado em explicar o porquê da fixação da jovem em Tchaikovsky e do seu comportamento, transformando o filme no equivalente russo, mas medíocre, pesado, repetitivo e interminável, de A História de Adèle H., de François Truffaut. Para piorar ainda mais as coisas, o realizador, não contente com o realismo sombrio que instaurou no filme, começa a desdobrar-se, a certa altura, em sequências onírico-fantasiosas, algumas delas desconcertantes, e remata o seu indigesto dramalhão com um final “simbólico” e dançado, cujo pretensiosismo só tem igual no seu ridículo. Ken Russell tratou muito melhor esta história em Tchaikovsky, Delírio de Amor (1971), com Richard Chamberlain e Glenda Jackson.
Ciclo Mestres Japoneses Desconhecidos IV
A quarta fase deste ciclo que divulga obras de cineastas nipónicos totalmente desconhecidos em Portugal, onde nunca foram estreadas ou exibidas, e da responsabilidade da produtora e distribuidora The Stone and the Plot e do programador Miguel Patrício, inclui mais três filmes. São eles: Imagem de uma Mãe (1959), de Hiroshi Shimizu, último título da carreira de mais de trinta anos deste realizador, que conta a história do jovem Michio que perdeu a mãe recentemente e que, com o novo casamento do pai, sente a pressão para a substituir pela madrasta; Roída até ao Osso (1966), de Tai Katô, passado em 1900, num bordel, ao qual Kinu, com apenas 18 anos, é vendida, para ajudar financeiramente a família; e Yôko, A Delinquente (1966), de Yasuo Furuhata, filme de estreia do cineasta, que segue uma jovem que fugiu do campo para Tóquio, acalenta o sonho de visitar Saint-Tropez e a sua praia, que viu numa ida ao cinema, e descobre um bar frequentado por delinquentes jovens como ela. Os filmes estreiam no Cinema City Alvalade e durante três fins-de-semana em salas da NOS.
“A Complete Unknown”
Realizado por James Mangold, escrito por este e por Jay Cocks e baseado no livro Dylan Goes Electric!, de Elijah Wald, A Complete Unknown abrange os anos de 1961 a 1965, em que um então ainda anónimo Bob Dylan, vindo do Minnesota, se instalou em Nova Iorque, e com as suas canções musical e poeticamente inovadoras, se tornou numa vedeta de aura místico-contestatária (com que não se sentia nada cómodo), na voz (muito relutante) de uma nova geração numa sociedade americana em profunda convulsão social e política, e num mundo no auge das tensões da Guerra Fria. E depois passou de Messias a Judas da música folk, graças a uma actuação “electrificada” no Festival de Newport de 1965, rompendo com tudo aquilo que tinha feito antes musicalmente. O filme está nomeado para oito Óscares e foi autorizado pelo próprio Bob Dylan, que se chegou a reunir com James Mangold. Dylan é aqui interpretado por Timothée Chalamet e no elenco estão também Edward Norton, Elle Fanning e Monica Barbaro. A Complete Unknown foi escolhido como filme da semana pelo Observador e pode ler a crítica aqui.