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"Ganhar ou Perder": a primeira série da Pixar é um balanço delicado de humor e coração

Este artigo tem mais de 1 ano

Com oito episódios e uma equipa de softball como metáfora para a vida, estará a Pixar a procurar o mesmo que "Bluey" conseguiu — captar o interesse de gerações diferentes?

A série, que se estreia a 19 de fevereiro, acompanha os Pickles, uma equipa mista de softball do ensino básico, na semana que antecede um importante jogo do campeonato. Cada episódio oferece um olhar sobre a vida de uma personagem fora do campo
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▲A série, que se estreia a 19 de fevereiro, acompanha os Pickles, uma equipa mista de softball do ensino básico, na semana que antecede um importante jogo do campeonato. Cada episódio oferece um olhar sobre a vida de uma personagem fora do campo

▲A série, que se estreia a 19 de fevereiro, acompanha os Pickles, uma equipa mista de softball do ensino básico, na semana que antecede um importante jogo do campeonato. Cada episódio oferece um olhar sobre a vida de uma personagem fora do campo

Fui uma das pessoas que em 2009 achou que a Pixar tinha ficado louca ao ter como pièce de résistance um filme chamado Up. Num mercado em que a animação infantil aposta em ter protagonistas como animais fofos ou crianças engraçadas (que Up também tem, mas como menos ênfase), a história de um idoso viúvo e amargurado parecia-me ter perto de zero interesse para alguém de metro e vinte que ainda tem como principais angústias o medo do escuro e comer cola. O tempo viria a mostrar que, como tantas outras vezes na vida, estava profundamente enganada. Logo em 2010, Up foi nomeado para 5 Óscares, incluindo Melhor Filme (viria a ser ganho por The Hurt Locker e perdido por Avatar). E, algures em 2023, viria a tornar-se no filme preferido do meu filho, na altura com 5 anos. Um miúdo do pré-escolar obcecado pelo luto de um pensionista.

Isto para contextualizar que a minha principal dúvida ao visionar Ganhar Ou Perder, a primeira série de animação original de longa duração dos Pixar Animation Studios (que se estreia esta quarta-feira, 19 de fevereiro), não tem provavelmente razão de ser. Ao longo dos quatro episódios disponibilizados à imprensa (serão oito, no total), eu só pensava “mas isto é para quem?”. Ganhar Ou Perder é demasiado infantil para adolescentes, mas também demasiado adulta em algumas das angústias em que alicerça as suas narrativas (a maneira como fala de divórcio, de ser mãe solteira ou de lidar com o despertar hormonal dos filhos, por exemplo). Depois de um adiamento na data de estreia — era suposto ter chegado ao streaming ainda em 2024 — e de uma campanha de marketing pouco robusta, Ganhar Ou Perder corre o risco de não chegar ao público-alvo, seja ele qual for. O que será uma pena, porque é ótima, um balanço delicado de humor e coração.

[o trailer de “Ganhar ou Perder”:]

É um facto que a Pixar sempre tentou chegar a pais e filhos de igual forma com os seus filmes. Diferentes gerações podem rir e chorar em partes distintas. Mas ir ver um filme continua a ser uma experiência de comunhão, um programa familiar. Mesmo os progenitores que falharão, talvez com pena, ir ver ao cinema os nomeados para os Óscares, são os mesmos que não abdicam de transportar crianças e baldes de pipocas para uma sala de um multiplex num domingo à tarde para ver a última estreia da Disney. Mas ainda se sentarão a ver uma série — ou isso entra naquela categoria mais abstrata de “deixar os miúdos a verem desenhos animados” enquanto tentamos acabar um trabalho, meter o jantar no forno ou simplesmente fazer scroll no instagram do Insónias em Carvão? Estará a Pixar a tentar fazer o mesmo que Bluey conseguiu com sucesso – captar o interesse televisivo de gerações diferentes?

▲ Acompanhamos personagens distintas: um jogador, um dos pais, o árbitro — revelando o seu ponto de vista divertido, emocionante e relacionável

Uma das provas de que Ganhar Ou Perder quer ser para toda a gente está na constante mudança de ponto de vista. A série acompanha os Pickles, uma equipa mista de softball do ensino básico, na semana que antecede um importante jogo do campeonato. Cada episódio oferece um olhar sobre a vida de uma personagem fora do campo — um jogador, um dos pais, o árbitro — revelando o seu ponto de vista divertido, emocionante e relacionável. O primeiro episódio começa ao som de Ave Maria de Schubert, com imagens em câmara lenta de personagens que virão a ser protagonistas. Um menino sentado numa bancada faz as vezes de um coro grego e contextualiza: “Se alguém ganha, alguém tem de perder. Ou talvez ganhar seja só a maneira como se olha para as coisas”. Daí, partimos para a história da primeira protagonista, Laurie.

Laurie é uma jogadora esforçada, mas medíocre, filha do treinador dos Pickles. Tem como grande objetivo ganhar uma estrela dourada e não ser o alvo preferencial de chacota da restante equipa. Em cada episódio, o protagonista tem uma imagem imaginária associada, algo que só o próprio vê. No causo de Laurie, é um boneco branco que dá péssimos conselhos e que muda de tamanho conforme as suas angústias e traumas. O segundo episódio foca-se em Blue, árbitro e professor de Matemática. Leva muito a sério a sua função em campo e imagina-se com uma armadura azul, que o defende de insultos e sentimentos. A autoconfiança que tem como árbitro não transita para outras facetas da sua vida e está a braços com um divórcio recente.

▲ Cada uma das histórias é, para já, deixada com o final em aberto. Ao contrário do que é mais comum nas séries infantis, vai ser preciso ver todos os episódios (e por ordem) para ter um verdadeiro desfecho

O terceiro e o quarto episódios estão particularmente ligados entre si. De um lado, Rochelle, uma miúda que adora jogar softball ao ponto de ter um emprego numa roulotte junto à escola para poder acartar com as contas da modalidade. Do outro, Van, a mãe solo de Rochelle (e de um bebé pequeno que morde tudo e todos), que sonha ser mummy blogger. Se no episódio da filha (uma adulta à força que se imagina com um enorme blazer verde) ficamos convencidos de que a mãe é negligente, no episódio seguinte percebemos, com a mudança de perspetiva, que o caso é mais complexo do que parece. Van, que se imagina seguida por uma nuvem de corações cor-de-rosa (uma referência aos likes das redes sociais), tem uma tem uma capa de descontração para que a filha não se aperceba dos reais problemas da família.

Cada uma destas histórias é, para já, deixada com o final em aberto. Ao contrário do que é mais comum nas séries infantis, vai ser preciso ver todos os episódios (e por ordem) para ter um verdadeiro desfecho. Todas as narrativas se encaminham para o grande clímax: o tal jogo para o campeonato, no qual vamos, finalmente, perceber quem ganha ou perde. Nas várias facetas da vida.

Ganhar Ou Perder faz lembrar, e muito, um dos maiores sucessos da Pixar: Inside Out. Sobretudo a sequela, mais focada na adolescência — e o primeiro filme de animação a arrecadar mais de mil milhões de dólares (894,3 milhões de euros) nas bilheteiras internacionais. Para quem é esta série, perguntava eu no início? Bom, se calhar é para toda a gente. Que raio sei eu?

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