É sabido que os gatos detestam água, mas para azar dele, o gato protagonista de Flow — À Deriva, o novo filme animado do letão Gints Zilbalodis (autor de Away — A Viagem, em 2019), vive num mundo que ficou vazio de humanos, do qual as águas tomaram conta e onde há cheias súbitas. Quando certo dia o nível das águas submerge a casa em que vive (e onde há desenhos e esculturas que revelam que o seu desaparecido dono era artista e gostava muito de gatos), o felino tem que saltar para bordo de um barco à vela que anda à deriva, onde terá a companhia de uma pacata capivara, um lémure acumulador de bugigangas e muito cioso delas, um agitado cão Labrador e um imponente pássaro secretário. O gato vai cair na água a todo o pé de passada, mas aproveita para contemplar os peixes multicoloridos que por lá andam, e apanha-os para se alimentar.
[Veja o “trailer” de “Flow — À Deriva”:]
Flow — À Deriva, é a longa-metragem animada-sensação desta temporada cinematográfica. Saído de uma curta realizada por Zilbalodis em 2012, Aqua, sobre um gato que decide combater o seu medo da água indo para o mar, o filme foi rodado ao longo de cinco anos com software gratuito de acesso aberto e um orçamento de apenas 3,5 milhões de euros, e anda a colecionar distinções: Prémio do Júri e Prémio do Público no Festival de Annecy, Globo de Ouro de Melhor Filme de Animação e dois prémios Annie. E está nomeado para os Óscares nas categorias de Melhor Longa-Metragem Animada e Melhor Filme Internacional.
Se quiséssemos definir Flow — À Deriva, diríamos que é a versão aquática de um road movie dobrado de fábula. Mas ao contrário destas, onde os animais falam, usam muitas vezes roupas e são antropomorfizados, os animais de Flow — À Deriva estão o mais próximo possível dos modelos reais, desde o comportamento até aos sons que emitem, às suas “vozes” específicas, quase todas captadas nos seus equivalentes de carne e osso (por isso, fazemos vista grossa aos raros momentos em que têm atitudes humanas, como quando tomam o leme do barco). No que também diferem, e de forma refrescante, dos bichos tagarelas, humanizados, fofinhos ou espalhafatosos que povoam a animação que se faz hoje um pouco por toda a parte para cinema e televisão.
[Veja uma entrevista com o realizador Gints Zilbalodis:]
O singelo mas expressivo naturalismo do gato (veja-se como os seus olhos são usados pelos animadores para transmitir a vida interior do felino e as suas idiossincrasias) e dos seus colegas de navegação, bem como dos animais com que se cruzam em terra e na água, mete num chinelo o fotorealismo atarefado e high tech das fitas da série Rei Leão da Disney. Eles são criados digitalmente mas parecem animados tradicionalmente, e por isso tornam-se mais empáticos, também porque os sentimos mais próximos dos animais verdadeiros de que como apenas “desenhos animados”, e mesmo aparentados com os bichos daqueles documentários de natureza dramatizados em que a mesma Disney era pródiga nos anos 50 e 60.
As fábulas também têm sempre uma moral clara e vincada, mas Flow — À Deriva dispensa “mensagens” sublinhadas a traço grosso, nem dá uma qualquer “lição” com o dedo bem esticado e a abanar. O gato tem que dominar o seu individualismo, e do convívio entre os vários animais confinados ao barco decorre de forma natural um elogio da amizade, da entreajuda e da confiança mútua em situações perigosas e condições difíceis de sobrevivência. E o cenário de devastação geral e de vazio humano em que a história se passa deixa uma sugestão de ter havido um qualquer desastre ou uma anomalia climática, mas Gints Zilbalodis escusa-se a dar explicações detalhadas ou a fazer discursos eco-catastrofistas.
[Veja uma sequência do filme:]
O “Flow” do título original refere a odisseia aquática dos animais, mas também define a personalidade visual e sonora do filme (aqui, a música também conta a história, e muito), consistente e serenamente fluida, realista na caracterização das personagens e na representação da natureza que as enquadra, com intromissões oníricas e místicas (veja-se a ascensão ao cosmos do pássaro secretário). E para além de toda uma variedade de pormenores veristas no comportamento dos animais (ver a distância tipicamente felina que o gato procura manter em relação aos companheiros, apesar daquilo que o liga a eles), Gints Zilbalodis pontua o ténue enredo com pormenores cómicos (a obsessão do lémure por tralha) e afetuosos, mas que nunca o tornam pilhérico nem sentimentalão.
Flow — À Deriva é um filme animado que esquiva categorizações e salta fronteiras. E consegue, como poucos, envolver e cativar pessoas de todas as idades, através da sua deslumbrante história de um gato e dos seus parceiros de aventura embarcada, ao longo de um mundo sem gente e com água a mais. E mostra que é na animação que encontramos hoje a imaginação, a originalidade, a criatividade, a capacidade de fantasia, entretenimento e de envolvimento emocional que estão em défice no outro cinema que se faz na Europa e nos EUA.
[António Raminhos, Luís Filipe Borges e Marco Horácio são três “Homens de Uma Certa Idade” a discutir a vida “de forma sincera”. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]