“Eu não cheguei aqui com batotice, Tu não ‘tavas a ver quando eu te disse, Nós ‘tamos todos na Altice, Eles de fora dizem que é maluquice”. Dificilmente haverá melhores (e mais simples) palavras para descrever o momento do que as do próprio Plutonio em País das Maravilhas, single-charneira do seu novo álbum, versos que foram adaptados especialmente para as duas noites esgotadas que encabeça na MEO Arena — a primeira aconteceu esta sexta-feira, 28 de fevereiro; a próxima é já na segunda-feira, 3 de março.
Não é para menos. O rap português escancarou as portas da indústria musical e tornou-se pop ao longo da última década, mas não parece haver ninguém melhor do que Plutonio para representar esse ponto de viragem. Afinal, o rapper criado no Bairro da Cruz Vermelha, em Alcabideche, começou o seu percurso — como tantos outros — de maneira muito informal no início dos anos 2000, completamente distante da indústria e da profissionalização.
Mesmo quando já se tornara uma certa referência regional, ou pelo menos no circuito do rap ligado às vivências marginais e de rua, dificilmente alguém acreditaria que Plutonio iria um dia esgotar duas MEO Arenas, a maior sala de espetáculos do país. Ele acreditou; ou pelo menos sonhou, assim como as pessoas essenciais à sua volta. Esta sexta-feira, fez-se história, como tão bem sintetizou Richie Campbell quando subiu ao palco para agraciar Plutonio, alguém a quem deu a mão através da sua editora Bridgetown. “Este homem mudou a minha vida. Não sabem o quanto eu sou grato”, atirou o rapper ao cantor que o apadrinhou, no único momento ao longo de quase três horas em que ficou visivelmente emocionado.
▲ O início do concerto fez-se entre o teatral e o arranque de uma narrativa, como se Plutonio se preparar-se para contar uma história
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Mas atentemos nas palavras de Richie Campbell. “Já muita gente passou por esta sala, mas muito poucos esgotaram duas vezes esta sala. Agora, alguém que cresceu num bairro social na periferia de Lisboa, que enfrentou tantos desafios e cuja vida dava — e espero que venha a dar — um filme, que esteve tão perto do sonho e caiu 10 vezes para se levantar 11, só conheço um.”
E podemos acrescentar mais. Depois do fenómeno Da Weasel, Slow J foi o primeiro nome a emergir do hip hop que conseguiu o feito de encabeçar (também por duas vezes) um espetáculo na MEO Arena, quando apresentou o seu Afro Fado naquela sala em 2024. Por muito que João Batista Coelho possa ser um génio musical com um talento inigualável e uma visão e uma identidade ímpar na música nacional, Slow J vingou num mundo de pós-géneros musicais — onde o rap podia ser um ingrediente tão importante como as guitarras rock, as cadências afro, a produção eletrónica, a alma poeta do fado. Slow J criou, para todos os efeitos, o seu próprio género musical. Ora, Plutonio é outra coisa. Embora naturalmente também seja autor de um vasto espetro musical, tem muito mais o perfil de rapper, com tudo aquilo que lhe está associado — e, nesse sentido, está também a ser pioneiro.
A noite parecia ser de coroação. Além das imagens promocionais em que vemos o rosto negro de Plutonio a receber uma coroa feita com duas mãos recheadas de objetos preciosos, esta é uma temática que atravessa Carta de Alforria, o álbum lançado em novembro. O rapper recuperou o nome do documento que outrora proclamava a libertação de um escravo para refletir sobre o seu próprio sucesso — tanto para o assinalar e celebrar como para apontar que, apesar de tudo aquilo que já conquistou, continua a ser alvo, por exemplo, de preconceito racial e violência policial. A consciência de classe está em muitas das entrelinhas de Carta de Alforria, mas nesta noite na MEO Arena Plutonio veio sonhar — e concretizar o sonho — de que consegue e pode tudo, sem entraves. Naturalmente, foi acima de tudo um momento de aclamação e comemoração.
▲ Plutonio centrou-se em "Carta de Alforria", mas foi, naturalmente, fazendo um passeio pelos muitos (tantos!) êxitos
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
A fita encarnada da cerimónia foi cortada a tesoura de ouro com um discurso introdutório de uma senhora que só podemos presumir ser familiar de Plutonio, seja a própria mãe ou uma das tias — fazendo precisamente essa alusão à celebração e ao reconhecimento de todo o trabalho (e esforço) feito até aqui. Depois, quatro algarismos projetados na sala que já recebeu os maiores músicos do planeta: 2765. O código-postal do Bairro da Cruz Vermelha foi a primeira referência visual exibida por Plutonio nesta noite tão especial.
O hip hop é uma cultura coletiva e ligada à rua que nasceu nas comunidades dos bairros pobres e marginalizados. Tal como Kendrick Lamar fez há poucas semanas no intervalo da Super Bowl, quando levou a cultura urbana de Los Angeles para o palco através de uma comitiva de bailarinos que tanto representavam os gangues locais como as cores da bandeira norte-americana, Plutonio faz questão de levar — para onde quer que vá — o seu bairro. Tanto através do código-postal como das próprias pessoas, amigos que ao longo de vários temas foram chamados ao palco da MEO Arena para compor uma moldura humana que representa aquele bairro, mas também todos os outros. “Eu sou o orgulho dos bairros sociais”, canta Plutonio no seu novo disco, uma imagem que se materializou na MEO Arena e que tem uma forte carga simbólica pela mobilidade social que a sua figura representa.
Acompanhado pela sua banda e com uma cenografia de palco vistosa, com grandes ecrãs a compor cenários para cada tema, Plutonio centrou-se em Carta de Alforria, mas foi, naturalmente, fazendo um passeio pelos muitos (tantos!) êxitos que tem acumulado ao longo dos anos. E que lhe garantiram uma base de fãs que há muito ultrapassou as paredes dos bairros e que o tornaram verdadeiramente pop e mainstream.
▲ À base da musicalidade que habitualmente apresenta, Plutonio juntou ingredientes e participações especiais, gerando dinâmica entre o palco e o público
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Plutonio tem tudo para vingar e por isso é que o tem conseguido fazer. Por um lado, faz um rap de rua mais do que credível, com uma essência gangster que vai beber às histórias e vivências do seu passado. É uma persona que emana virilidade, poder e mistério. Por outro, e também graças à sua notória (e impressionante) facilidade em inventar melodias cativantes, é o autor de verdadeiros hinos de amor e desamor. Baladas que, na voz e no perfil de Plutonio, têm sal e muitas vezes pimenta. Pelo meio, há muitas outras camadas que ajudam a explicar o seu sucesso, como os balanços quentes de África que estão presentes na sua música ou as punchlines duras e inteligentes.
1 de Abril, Meu Deus, Por Enquanto, Deja Vu, Montanha, Somos Iguais, Cafeína ou Interestelar foram dos temas mais cantados. Salomão, Lucy Lucy ou Sala de Audiências equilibraram o tom e levaram o estado de espírito para ambiências mais duras. Houve viagens mais distantes ao passado com pequenas interpretações de Não Vales Nada, África Minha ou Dramas & Dilemas. Chamou Kosmo Da Gun ao palco para entoar Saber Valorizar; convocou Lon3r Johny para três temas do EP conjunto ANTI$$OCIAL; e, mesmo sem Dillaz, levou a multidão ao delírio com Alô.
Em Sacríficio, a canção que dá título ao penúltimo álbum, uma surpresa. Chullage, qual figura mística no ombro certo de Plutonio, irrompeu em palco para parabenizar o protagonista da noite e sublinhar que valeu a pena o sacrifício — todas aquelas páginas de história erguidas a sangue, lágrimas e suor. Também aí Plutonio ficou comovido, ao ver o seu ídolo — “se não fosse o Chullage provavelmente eu não teria feito rap em português, receber um shout-out dele era o meu sonho de criança”, exclamou — reconhecê-lo de forma tão pública, numa noite destas. Com o selo de aprovação de alguém como Chullage, Plutonio só reclamava ainda mais o trono que esteve a noite inteira instalado no centro do palco.
▲ “Há uns anos, só tocar na rádio já era um plano, um sonho. Nem estamos a falar de esgotar salas como esta”, lembrou Plutonio sobre o caminho trilhado até este momento
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Performer nato e experiente, a longa prestação de qualidade não saiu minada por qualquer defeito, embora os arranjos mais rock de duas ou três canções fossem dispensáveis — se aquelas faixas são apelativas pelas suas batidas digitais, com baixos musculados e percussões pujantes, talvez não houvesse necessidade de incluir solos de guitarra ou uma bateria demasiado rock’n’roll para acrescentar espetacularidade. Um dos melhores momentos, porém, envolveu precisamente uma guitarra — quando a pequena Francisca, a filha de Plutonio, subiu pela primeira vez a um palco para tocar o instrumento durante a interpretação de Acordar.
Para cumprir os desejos da mãe para o grande concerto do filho, revelados numa entrevista à Mega Hits durante a promoção do álbum, Plutonio trouxe um grupo coral e um conjunto de instrumentistas de sopro para quase recriar em palco o videoclip de Como 1 Rei — canção que fala sobre os sacrifícios e esforços de escravo que teve de fazer para alcançar o trono.
Outro dos momentos mais relevantes foi a apresentação de uma canção inédita sobre estar grato que acabou por envolver Dengaz, Lord XIV e Richie Campbell, companheiros da Bridgetown. “Há uns anos, só tocar na rádio já era um plano, um sonho. Nem estamos a falar de esgotar salas como esta”, lembrou Plutonio sobre o caminho trilhado até este momento. A ascensão do rapper, mais uma vez, simboliza algo maior do que ele próprio — também representa a própria mudança de paradigma dentro da indústria musical portuguesa.
Plutonio: “Nos bairros, como na indústria musical, há mudanças que só se fazem a partir de dentro”
Afinal, da Bridgetown, uma editora independente com raízes no reggae e na música urbana, saíram os managers Bernardo Miranda e Afonso Ferreira, que se tornaram, no último par de anos, nos novos líderes da editora multinacional Sony Music em Portugal, naquilo que foi um volte-face revolucionário na nossa indústria musical. O hip hop no nosso país não só esgotou os maiores palcos como chegou aos grandes cargos da indústria. E é por todas estas razões, méritos e conquistas que as perguntas retóricas de Plutonio se respondem a si próprias em Perguntam Como, a canção escolhida para encerrar o espetáculo e para trazer novamente o Bairro da Cruz Vermelha para o palco:
“Perguntam: como?, ‘tou há tanto tempo no trono
(…)
Como é que eu faço isto? Até eu me’mo questiono
Deus queria que eu vingasse, nada disto é à toa
Deu-me a palavra-passe das salas de Lisboa
Se eu duvidasse, ouvisse o lero-lero e não sonhasse
Talvez até dormisse numa boa
Dor de cabeça em baixo d’uma coroa”.