Os NAPA venceram o Festival da Canção com Deslocado, hino sobre estar fora de casa que se tornou viral online, e vão representar Portugal na Eurovisão, que terá lugar em Basileia, na Suíça, entre os dias 13 e 17 de maio. A final decorreu este sábado à noite, em direto dos estúdios da RTP, em Lisboa, numa altura em que Portugal é dos últimos países a selecionar a canção que vai levar à cidade suíça.

A canção da banda madeirense, que fala sobre o regresso a casa, tem sido amplamente partilhada no TikTok, sobretudo por estudantes, e coleciona já um milhão de reproduções no Spotify. “Novo hino dos imigrantes”, “hino do estudantes deslocados”, lê-se em comentários vários nas redes sociais. “Por mais que possa parecer eu nunca vou pertencer àquela cidade“, escuta-se na música, que contou até com o apelo ao voto do presidente do Governo da Madeira.

“Cantaram o sentimento de tantas e tantas pessoas que, por diversas razões, se encontram longe de casa. Cantaram a vida dos nossos estudantes deslocados. Cantaram a resiliência da nossa Diáspora. Cantaram a alegria de regressar à ilha, à paz, a casa. Merecem, pelo talento e por esta mestria, vencer o Festival”, escrevera Miguel Albuquerque (PSD) este sábado no Facebook.

Pelo sétimo ano consecutivo Filomena Cautela e Vasco Palmeirim conduziram a cerimónia da final do Festival da Canção onde atuaram os doze finalistas que foram eleitos pelo júri e pelo público, nas duas semifinais que tiveram lugar nos dois sábados passados  (dois deles foram repescados através do televoto). Por ordem de atuação, desfilaram Apago tudo, da banda Bombazine, Eu sei que o amor, de Margarida Campelo, I wanna destroy you, de HENKA, Ninguém, de Bluay, Calafrio, de Jéssica Pina, A minha casa, de Marco Rodrigues, Deslocado, da banda NAPA, Adamastor, de Peculiar, Medo, de Fernando Daniel, Rapsódia da paz, de Emmy Curl, Tristeza, de JOSH, e Cotovia, de Diana Vilarinho.

Acabou por ser uma vitória renhida para os NAPA, antes conhecidos por Men On The Couch, a banda portuguesa de indie pop e indie rock formada na Madeira, em 2013 (a mudança de nome aconteceu em 2023). Foram os votos do público a fazer a diferença na ascensão à vitória de Deslocado, cuja letra é de João Guilherme Gomes e música de João Guilherme Gomes, João Lourenço Gomes, João Rodrigues, Diogo Góis, Francisco Sousa e André Santos. Foi a canção Cotovia, de Diana Vilarinho, a obter maior pontuação por parte do júri. O prémio máximo do público foi para I wanna destroy you, de HENKA. Mas, no final, a combinação de pontos deu a vitória aos madeirenses.

[A atuação dos NAPA na final do Festival da Canção]

A banda sucede a Iolanda, que venceu o festival em 2024 com Grito e representou Portugal na Suécia. Também ela atuou na cerimónia, onde mostrou Grito 2.0, uma nova versão da canção vencedora que foi lançada este sábado.

[Iolanda no palco da Final do Festival da Canção 2025]

Filomena Cautela e Vasco Palmeirim chamaram também a palco os convidados João Borsch (que ficou em segundo lugar no ano passado, onde venceu na votação do público) com Maria João e Huca, e Expresso Transatlântico com Ana Lua Caiano e The Legendary Tigerman. Em antecipação da ida a Basileia, os primeiros mostraram versões de Refrain, de Lys Assia (a primeira vencedora da Eurovisão), The Code, a canção que deu o troféu internacional a Nemo em 2024 e ainda Ne Partez Pas Sans Moi, a entrada da Suíça interpretada por Céline Dion. Os segundos homenagearam Carlos Paredes, histórico guitarrista que faria 100 anos em 2025 , com temas como Movimento Perpétuo, Canção, Mudar de Vida e Verdes Anos.

[A atuação de Expresso Transatlântico, The Legendary Tigerman e Ana Lua Caiano]

[A atuação de João Borsch, Maria João e Huca]

Mas não foram os únicos momentos fora-competição da noite. Com recurso a inteligência artificial (IA), os rostos dos últimos vencedores da Eurovisão foram substituídos pelos dos apresentadores Vasco Palmeirim e Filomena Cautela, propondo uma realidade imaginada em que Portugal, depois da vitória de Salvador Sobral em 2017, tinha vencido todos os anos ininterruptamente. Os deepfakes colocaram os dois apresentadores a “interpretar” momentos icónicos do festival dos últimos anos, de artistas como Nemo, Loreen, Duncan Laurence ou Måneskin.

[O segmento de abertura do Festival da Canção 2025]

Numa altura em que a utilização de manipulação de imagens e de IA em particular levanta preocupações no mundo da música e da criação artística, a decisão da estação pública de recorrer a esta ferramenta foi justificada numa nota no descritivo do vídeo publicado entretanto no canal de Youtube. “A Inteligência Artificial (IA) está hoje intrinsecamente ligada à criação de conteúdos, e tem demonstrado um potencial transformador na forma como consumimos e produzimos conteúdos audiovisuais”, pode ler-se, com a ressalva: “Estamos do lado dos músicos, da mão e da mente humana, apoiando a arte como forma de fazer avançar mundo. Do lado certo da história, perante um futuro tão incerto.”

Num país de emigrantes e imigrantes, é o sentimento insular da canção dos NAPA que se vai escutar na 69ª edição da Eurovisão, que acontece em maio. Em 2017, Portugal venceu pela primeira e única vez o concurso com a canção Amar pelos dois, de Luísa Sobral, interpretada por Salvador Sobral.