Mais de cem obras de arte britânica que mostram como artistas internacionais configuraram a arte do Reino Unido no século XX, vão poder ser vistas a partir de sexta-feira e até 21 de julho na Fundação Gulbenkian, em Lisboa.
Arte Britânica – Ponto de Fuga dará a ver essencialmente obras da coleção do CAM — Centro de Arte Moderna Gulbenkian e da Coleção Berardo (em depósito no MAC-CCB), bem como outras de coleções nacionais e internacionais. É a primeira vez que as obras das duas maiores coleções institucionais de arte britânica em Portugal se apresentam juntas numa exposição, de acordo com um comunicado da Gulbenkian.
Antony Gormley, Bridget Riley, David Hockney, Francis Bacon, Frank Auerbach, Marc Quinn David Bomberg, são alguns dos artistas internacionais em destaque, aos quais se juntam portugueses como Paula Rego, Menez, Eduardo Batarda, Fernando Calhau, Graça Pereira Coutinho ou Rui Sanches, todos com ligações ao Reino Unido.
“A coleção Gulbenkian foi construída através do patrocínio dos jovens saídos das escolas inglesas, na altura. A Coleção Berardo é feita nos anos 90, sobretudo em três ou quatro anos. Esta reunião permite, por um lado, ter mais artistas emigrados e artistas deslocados. Há uma complementaridade muito interessante”, resume Ana Vasconcelos, do CAM, que assina a curadoria da exposição juntamente com Rita Lougares, antiga diretora do Museu Berardo (que deu lugar ao atual MAC/CCB).
Expostas na Galeria Principal da Fundação Gulbenkian, as obras testemunham o impacto que artistas provenientes de diferentes partes do mundo tiveram na cena cultural e artística do Reino Unido, particularmente na segunda metade do século XX, quando escolas artísticas, sediadas sobretudo na cidade londrina, se tornam importantes polos de atração. A mostra tem a coordenação científica de Sarah MacDougall, da Ben Uri Foundation, de Londres.
Quase tantas como as obras do CAM (46), são as da Coleção Berardo. Um total de 34 embelezam as paredes da Gulbenkian numa altura em que o destino da coleção do empresário José Berardo continua incerto. Após o fim do acordo de 15 anos entre o Estado e o colecionador, a coleção ainda se encontra à guarda do Centro Cultural de Belém (CCB) por decisão judicial, no âmbito do contencioso jurídico que opõe o empresário e o consórcio formado por três bancos que dele se reclamam credores. Os termos do arresto determinam que a Coleção Berardo deverá continuar em exposição pública até haver uma decisão judicial definitiva sobre a sua propriedade.
“Looking”, de Michael Craig-Martin, 1986, Coleção Berardo
Perante os jornalistas, Rita Lougares, que foi diretora do Museu Berardo, congratulou-se com o fim de um “processo longo” de um projeto que começou há três anos, com outras condições. Mais do que convencer o próprio Joe Berardo, as dificuldades surgiram das disputas legais com o Estado português. Pelo caminho, a ambição de uma exposição que se previa com dois núcleos também mudou.
Sem a coleção Berardo, o MAC/CCB “fica esvaziado”: “Tem que arranjar um conceito novo”
“A ideia inicial até era fazer um projeto a meias entre o Museu Berardo e a Fundação Calouste Gulbenkian. Entretanto, como já sabia que o museu ia acabar, propus à administração do CCB se queriam, mesmo acabando o museu, fazer [a exposição], mas o projeto não lhes interessou por isso acabou por ser só aqui”, explicou ao Observador, à margem da visita de imprensa.
“Antes era diretora [do Museu Berardo] e tudo quanto propunha normalmente era aceite. Depois senti-me na obrigação de propôr à administração do CCB. Falei com o Delfim [Sardo], que no fundo é o administrador que está mais ligado à parte cultural, antes ainda antes da Nuria [Enguita chegar]. Disse-me que não queriam começar por aí, que iam apoiar o projeto o mais possível, mas só na Gulbenkian”, elucida.
A exposição, que foi proposta por um colecionador privado, cuja identidade a curadora não revela, ganhou então palco apenas na Fundação Gulbenkian, mas com o aval do CCB e do próprio José Berardo para o empréstimo das obras. Ainda assim, “a última palavra é do comendador”, esclarece ao Observador. “Se ele quiser vai, se ele não quiser não vai. Foi e continua a ser assim”, remata a curadora.
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Questionada sobre o processo judicial que ainda decorre, Rita Lougares assume que “seria uma perda enorme para o público português” deixar de ter acesso à coleção. “[Berardo] Sempre quis expor as obras. Ele nunca fez a coleção para ele próprio. Sempre quis que esta coleção fosse vista pelo público. Acho que provavelmente se houver consenso vai haver um acordo entre os bancos e o comendador e a coleção vai estar exposta ao público”, antecipa. Questionada sobre se o MAC/CCB ficaria esvaziado com a saída da coleção, Lougares não tem dúvidas: “Fica. Tem que arranjar um conceito novo.”
A ex-diretora do Museu Berardo trabalha há trinta anos com a coleção Berardo, desde que esta chegou ao CCB em 1996, três anos depois de a curadora chegar ao centro cultural. Com a passagem para MAC/CCB, Lougares foi despromovida para o cargo de Chief Curator, acabando por sair pouco depois.
Ao Observador, Lougares, que se tem escusado a prestar declarações à imprensa, garante que saiu “porque quis”. “Acho que já não tinha muito para oferecer ao CCB. Acho que o CCB estava a seguir uma direção que não era a minha. Não têm de ser todas iguais, acho que é ótimo que as coisas mudem. Achei que era preferível sair.”
A Coleção Berardo continua a fazer parte do discurso expositivo do Museu de Arte Contemporânea (MAC-CCB), que ocupa o espaço do antigo Museu Berardo desde outubro de 2023. Porém, no ano passado, José Berardo admitiu que tinha intenções de transferir a coleção de arte para Madeira.