À primeira vista, podia ser uma adaptação de As Cidades Mortas, o clássico de ficção científica de Clifford D. Simak, passado numa Terra futura onde só os cães ficaram. Mas não. Apesar de só se verem cães por toda a parte, Cão Preto, de GuanHu, um dos nomes menos conhecidos e divulgados em Portugal da chamada “Sexta Geração” de realizadores chineses (só se estreou cá um filme dele, Sr. Seis, de 2015), passa-se na China de 2008, ano dos Jogos Olímpicos de Pequim. Mas também do trágico terramoto de Wenchuan, que matou cerca de 70 mil pessoas. Foi um ano de muita satisfação nacional, mas também de imensa dor coletiva.

Na remota cidade em que Cão Preto se passa, situada no árido noroeste da China, perto do deserto do Gobi, ouvem-se nos altifalantes colocados por todo o lado, e nas carrinhas municipais que percorrem as ruas, os slogans de propaganda dos Jogos Olímpicos que vão começar dentro em breve, apelando ao orgulho nacional e à confiança no futuro. Mas o contraste é grande com a desolação e a degradação em redor. Há bairros inteiros abandonados e boa parte da cidade vai cair sob o camartelo municipal, num ímpeto de renovação física e de desenvolvimento económico. O que implica apanhar as centenas de cães vadios ou abandonados que andam por toda a parte.

[Veja o “trailer” de “Cão Preto”:]

É neste momento de viragem do país e de mudanças na cidade que a ela regressa o lacónico Lang (um excelente Eddie Peng), após ter cumprido uma pena de prisão de 10 anos por assassínio. Antes de ser preso, Lang era músico de rock e fazia acrobacias de moto, e está incompatibilizado com o pai, o único guarda que resta no decadente e quase vazio jardim zoológico da cidade. E se é recebido calorosamente e com respeito por alguns dos seus conterrâneos, há outros que não veem com bons olhos o seu regresso. Como tem obrigatoriamente que trabalhar, é incluído nos grupos de cidadãos que andam a apanhar os cães, obstinando-se em capturar um muito falado cão negro que foge a toda a gente, que terá raiva e pelo qual é oferecida uma boa recompensa. E quando o consegue, afeiçoa-se ao animal, e este a ele. 

[Veja uma entrevista com o realizador Guan Hu:]

Filmada por Guan Hu com as mesmas vistas largas e o mesmo sentido dramático dos grandes espaços demonstrado nas suas superproduções de guerra anteriores, Cão Preto é a história de dois seres excluídos e inadaptados, um homem de muito poucas palavras e um cão escanzelado, que estão desconfortáveis com o “país novo” anunciado pela propaganda do Estado e pouco aptos a caber nele. E que acabam por criar um laço fortíssimo e indizível, na boa cepa dos filmes sobre o convívio milenar e especial entre humanos e cães, e os valores de fidelidade, lealdade e companheirismo que lhe estão associados. Hu faz do bicho, que não tem nome, o correlativo canino de Lang, a sua manifestação animal, tão individualista, desconfiado e solitário como ele.

[Veja uma entrevista com o ator Eddie Peng:]

Tão expressivo cinematograficamente como parcimonioso em diálogos e exposição, Cão Preto, que o realizador produziu através da companhia que fundou com a mulher, revela o talento de Guan Hu para dar sentido narrativo à amplitude visual e ao fôlego paisagístico típicos do western e do road movie ocidentais, mas que também têm tradição no cinema épico, histórico e de ação chinês; e para harmonizar o aparentemente irreconciliável, ao conseguir ser ao mesmo tempo asperamente naturalista e poeticamente surreal. Vejam-se apenas as sequências em que os cães e os poucos animais que restam no zoológico e que foram soltos, caso do majestoso tigre, invadem as ruas degradadas da cidade semi-fantasma.

Saído do afeto que Guan Hu nutre pelos seus cães de estimação, e da vontade que tinha de fazer um filme sobre “o companheirismo” e “a comunicação indescritível que há entre o cão e o homem, e que não requer palavras”, Cão Preto não tem animais gerados digitalmente. Todos os que lá aparecem, sobretudo os cães, e mesmo o tigre, são reais e amestrados. E – pormenor bonito — no final da rodagem, Eddie Peng gostou tanto do cão com que contracenou (e que se chama Xin), que acabou por o adotar. Vencedor da secção paralela Un Certain Regard do Festival de Cannes de 2024, Cão Preto é um dos melhores filmes estreados em Portugal este ano. Tão bom, que até quem prefere gatos a cães vai gostar dele.