A presença do cinema português na próxima edição do Festival de Cannes compôs-se este sábado com magníficas notícias no campo das curtas-metragens. Arguments in Favor of Love, de Gabriel Abrantes e A Solidão dos Lagartos, de Inês Nunes, vão correr pela Palma de Ouro da categoria. Das 4781 curtas visionadas, Cannes escolheu apenas 11 e duas delas são portuguesas. É um feito notável. Recorde-se que, no ano passado, Mau Por Um Momento, de Daniel Soares, trouxe uma menção especial desta secção competitiva. Portugal só a venceu em momento único, em 2009, por Arena, de João Salaviza. Já O Pássaro de Dentro, de Laura Anahory, está a concurso na La Cinef, secção dedicada a filmes de escola.
Arguments in Favor of Love fala-nos de “discussões de casal, tiradas da vida, entre fantasmas” (palavras de Gabriel Abrantes na sinopse que nos enviou) e é uma animação CGI de 9 minutos “feita a computador em vez de a lápis” no estúdio de animação 3D da empresa de pós-produção e efeitos especiais Irmalucia. Falado em inglês, o filme tem vozes de Inês Castel-Branco e Jack Haven. Gabriel escreve o guião, realiza e compôe a música, a montagem é de Margarida Lucas e a produção da Artificial Humors, formada por ambos (a partir do título homónimo de uma curta de Gabriel de 2016). Recorde-se que Gabriel Abrantes tem um percurso internacional muito relevante nas curtas-metragens. Em Cannes, a sua primeira experiência na longa correalizada com Daniel Schmidt, Diamantino, venceu em 2018 a Semana da Crítica.
“Arguments in Favor of Love”, de Gabriel Abrantes
Já A Solidão dos Lagartos, coprodução luso-espanhola, é o passo seguinte de Inês Nunes após Sonho de um Verão, exibido em Vila do Conde no Curtas em 2020. O filme da cineasta tavirense contempla “um lugar, o Algarve, moldado pelo turismo e pela constante tensão entre o real e o artificial, e que acolhe múltiplas formas de ser, onde é possível estabelecer ligação mesmo sem partilhar a mesma língua”, lê-se no comunicado enviado à imprensa.
A sinopse conta que “num spa rodeado de montanhas de sal, os visitantes desfrutam do calor, enquanto os salineiros, a poucos metros de distância, trabalham. As crianças correm para longe dos adultos e uma mulher perde-se nas salinas. Ao cair da noite o espaço transforma-se, movido pelos desejos de quem por aqui passa.” O filme desenrola-se “numa paisagem suspensa no tempo, onde a natureza e a presença humana coexistem numa frágil tensão.”
Mas as notícias felizes não terminam aqui já que O Pássaro de Dentro, curta de animação realizada pela jovem cineasta Laura Anahory e produzida pela Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa do Porto, integra o concurso La Cinef, secção oficial do festival criada em 1998 e dedicada à descoberta de novos talentos do cinema mundial.
Segundo o comunicado também enviado neste feriado de 25 de abril, esta curta animada a “2D e mixed media (…) representa o grande esforço necessário para manter o equilíbrio entre a saúde mental e física.” O filme segue “uma mulher, o pássaro que vive dentro dela, e a incapacidade que os dois têm de coexistir.”
Estas três curtas juntam-se assim as longas O Riso e a Faca, de Pedro Pinho, a concurso no Un Certain Regard, e a Entroncamento, de Pedro Cabeleira, selecionado pela ACID.
Também no Un Certain Regard está Once Upon a Time in Gaza, de Arab e Tarzan Nasser, com bandeira da Palestina — uma co-produção internacional que envolve a Ukbar Filmes, de Pandora da Cunha Telles. Tal como já foi aqui anunciado, Magalhães, do filipino Lav Diaz, será exibido extra-concurso na secção paralela Cannes Première e é igualmente uma coprodução internacional com envolvimento da Rosa Filmes.