A Nova Iorque que viu os Model/Actriz crescer é uma cidade gentrificada. Os relatos que, à distância, se foram ouvindo das atuações da banda, antes de tocarem em Lisboa no ano passado, faziam lembrar outros momentos da história da cidade, seja a passagem dos 1970s para os 1980s (com o disco, a new wave e o punk a acontecer ao mesmo tempo), fosse no início dos 2000s com a reanimação de um imaginário de rock que acontecia em simultâneo com uma cultura de noise — desenvolvida naquela cidade porque ainda era possível pagar rendas baratas e os clubes certos ainda existiam. Hoje em dia já nada é barato em Nova Iorque e fica em vantagem quem tem duzentos mil dólares por uma educação musical. É o caso dos Model/Actriz.
Não se trata de uma crítica, é uma constatação sobre muita da música rebelde dos dias de hoje. É obra que, em muitos casos, nasce num conforto que não se via antes no mesmo universo, sobretudo porque esse “mesmo universo” é muito diferente — as mesmas grandes cidades são vividas de uma forma muito distinta e por grupos socioeconómicos ainda mais díspares. É música que encontra outros problemas, que cria outros problemas. Essa é a beleza natural dos Model/Actriz. Essa é a beleza de Dogsbody, álbum de estreia da banda, que em 2023 tomou de assalto alguns ouvidos, pela forma como redescobria que o noise e o rock poderiam existir nos 2020s com urgência e pertinência.
O som de Dogsbody criticava as razões dos próprios Model/Actriz existirem. Noutros tempos não haveria espaço — ou vontade — para ouvir um bando de homens nos 20s que exploraria aquele som daquela forma. Pareceria – e provavelmente seria — falso. Só que hoje até a saturação do privilégio de malta como Model/Actriz se faz ouvir como verdade. E, provavelmente, é. Dogsbody fez furor, a banda tocou de forma louca, pelos Estados Unidos e pela Europa, entre 2023 e 2024. Os concertos eram intensos, os músicos davam tudo, o público esperava que algo acontecesse. Muita gente conta as vezes que os viu naquela altura, cada concerto era um acontecimento. Foram uma das coisas mais interessantes em 2023 porque eram isso mesmo, uma espécie de estrutura a virar-se contra si mesma, que encontrava uma forma de comunicar. Encontraram um caminho para o desconforto, para puxar os cordões à urgência de uma mudança.
[“Pirouette” está disponível na íntegra no Spotify:]
Dito isto, e pesando todas estas conclusões, um evento como Dogsbody seria impossível de repetir, mas é possível continuar a existir enquanto Model/Actriz. Pirouette, o segundo álbum da banda nova-iorquina, editado há dias, é uma resposta, é uma auto-redescoberta depois da explosão.
O título, disse Cole Haden — vocalista — à revista Vogue, representa “a dicotomia de estar no limite de perder o balanço, mas ser necessária uma quantidade absurda de talento e habilidade para continuar a manter a postura”. É algo “delicado e atlético”. O que as canções de Pirouette perderam em explosão, ganharam em sentido clínico, em precisão e na noção de que é possível virar esta urgência para outro lado, para uma ideia de pista de dança.
O movimento não é novo. Mais uma vez, foi o que muitas bandas que saíram de Nova Iorque nos 2000s fizeram. O segundo álbum acabou por ser um afinar de ideias do primeiro. Ou algo como “tira-se a explosão, fica a matemática”. Dogsbody queimava porque acontecia tudo muito rápido; Pirouette assume com consciência a necessidade de desacelerar, de tornar claros os processos inteligentíssimos em que acontecem as composições dos Model/Actriz. Ao fazê-lo, vê-se o esqueleto das canções, percebe-se por onde navegam para chegar a um som. E não têm receio de experimentar várias coisas numa só canção.
Cinderella, segundo tema e single, tira o ruído de Dogsbody e deixa a secção rítmica afirmar a urgência. Está-se sempre em bicos dos pés, em pânico, à espera de que algo se abra e vá acontecer. O truque é conhecido, deixar-nos em expectativa, ansiosos e lidar com essa ansiedade durante a canção. Só que aqui não há truque, os Model/Actriz seguem essa ordem de coisas porque é uma ordem que funciona.
É logo ao segundo tema que percebemos que a honestidade se mantém. E por honestidade entenda-se o acordo entre a banda e quem a ouve: sabemos com o que contar e eles não dececionam. Porque, percebe-se agora ao ouvir Pirouette, o imediatismo e o nervo dos Model/Actriz não se medem pelo volume, pelo espectáculo, pela quantidade, antes pela forma cirúrgica como transportam uma ideia de rock, punk e noise, consciente de uma necessidade de existir, mas também consciente do quão adulterada é, pela distância — não só temporal — face às origens.
[o vídeo de “Cinderella”:]
Há algo de Cole Haden, em 2025, que faz lembrar Jamie Stewart (Xiu Xiu). Pirouette é tão pessoal como Dogsbody com uma grande diferença: Cole parece menos concentrado no dia-a-dia e mais preocupado em olhar para o seu passado, no que ficou escondido e por fazer, no que sentiu em determinado momento. Há um grande processo de autoanálise e é na respetiva exposição, misturada com a habilidade de contar uma história, que lembra Stewart. Não procura o desconforto, o desconforto encontra-o.
Canções como Diva e Doves são bons exemplos disso. São também bons exemplos de como a banda, para lá de Haden, encontrou uma forma de soar a algo saído da no wave de há quarenta e tal anos sem que se revele como falsa. Ao ponto de uma canção mais calma, como Acid Rain, que soaria a algo ofensivo no meio de Dogsbody, encaixar como um oásis nas canções ultraprocessadas deste álbum. Ao ponto de não se colocar, em nenhum momento, a ideia de “difícil segundo álbum”. Pirouette parece o caminho possível para quem criou um big bang com o primeiro disco. Repeti-lo seria um erro, iria contra os seus próprios princípios. Pirouette é Dogsbody despido, um esqueleto das bases e referências. Continuar a construir canções monstruosas nesse espectro é admirável.
É também uma forma que os Model/Actriz encontraram para dizer que estão prontos para jogar outras ligas, conquistarem uma nova audiência, uma que seria incapaz de ouvir Dogsbody pelas suas qualidades, mas que irá assimilar, sem problemas, um Dogsbody gentrificado. Isso sentir-se-ia como uma traição há vinte, trinta, quarenta ou cinquenta anos. Hoje, é uma consequência natural de como as coisas são. Aceitar isso é também gostar muito de Model/Actriz.
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