Bucareste, perto do Natal de 1989. O regime de Nicolae Ceausescu treme. Uma revolta popular em Timisoara foi reprimida pelas armas ao custo de muitas vidas, e apesar da censura, as notícias do massacre chegam ao resto do país. A capital está sob tensão, toda a gente está farta do “Conducator” e da sua mulher Elena, da Securitate, de ter medo, da falta de liberdade, da penúria, dos denunciantes em todo o lado. Em O Ano Novo que Não Aconteceu, a sua primeira longa-metragem (saída de uma curta de 2018, Christmas Gift), o realizador Bogdan Muresanu acompanha um punhado de personagens que, no espaço de dois dias, se irão cruzar e, sem o saber, marcar encontro com a História no dia 21 de dezembro, em que um grande comício de apoio ao ditador se vai tornar no catalisador da queda do poder na Roménia.
Uma viúva idosa, mãe de um agente da Securitate, vai trocar, com enorme relutância, a casa onde sempre viveu, condenada à demolição pela megalomania urbanística de Ceausescu, por um acanhado apartamento num prédio indistinto, e toma uma decisão drástica; uma atriz vê-se convocada, à última da hora, para substituir uma colega que fugiu para o Ocidente e que ia dizer a mensagem patriótica no programa de Ano Novo da Televisão Nacional; um adolescente, filho do apoquentado realizador do dito programa, vai arriscar, com um colega de faculdade, atravessar o Danúbio a nado para fugirem para a Áustria; um operário cujo filho escreveu inocentemente uma carta ao Pai Natal a pedir que este mate o “tio Nic” (Ceausescu) como o pai deseja, tem que arranjar maneira de impedir que a missiva siga no correio.
[Veja o “trailer” de “O Ano Novo que Não Aconteceu”:]
Servindo-se deste formato narrativo “coral”, Bogdan Muresanu revisita o início do fim do comunismo no seu país do ponto de vista destas personagens anónimas em momentos muito difíceis das suas vidas e numa quadra que deveria ser de festa (uma delas, embora não tinha noção disso, irá mesmo ser decisiva para o processo) e dos familiares, amigos e amantes em seu redor. E recorre a um registo tragicómico que não admite uma única fífia durante as mais de duas horas de O Ano Novo que Não Aconteceu (que nunca pesam e são, neste caso, plenamente justificadas pela natureza e pela estrutura da história), combinando dramatismo, melancolia, suspense e um sentido de humor característico de quem penava sob um regime totalitário no Leste.
[Veja uma entrevista com o realizador Bogdan Muresanu:]
Os atores são. sem exceção, todos muito bons (destaque para Nicoleta Hâncu na atriz que execra o regime, e para Adrian Vancica no operário bonacheirão que a carta do filho leva ao desespero), e o quotidiano soturno, rigorosamente vigiado e de austeridade da esmagadora maioria dos romenos na altura é recriado por Muresanu sem forçar qualquer nota, com muito sentido do pormenor e com um realismo encardido e tristonho enfatizado pelo tempo invernoso, e por uma época festiva que muito pouca gente tem ânimo ou bons motivos para celebrar. Mas que, a 21 de Dezembro de 1989, haveria de se tornar entusiasticamente inesquecível.
Bodgan Muresanu remata O Ano Novo que Não Aconteceu, que ganhou a secção paralela Orizzonti do Festival de Veneza de 2024, com imagens de arquivo da revolução em marcha nas ruas de Bucareste, mais poderosas e eloquentes do que as de qualquer ficção. O seu filme é um dos melhores sobre o fim do comunismo na Roménia, e sobre o colapso do Bloco de Leste.