“Sou o maior desapontamento da minha própria vida”, diz às tantas uma personagem de Yes. Gaza está a ser bombardeada e estamos do lado de lá, do lado israelita. Há quem ali procure as melhores vistas para fazer um pic-nic em família e assistir ao “espectáculo”. Os militares indicam o caminho para a colina mais indicada. Ninguém em Yes tem a menor dúvida de que está em curso uma ocupação genocida e, como se ouvirá também neste filme avassalador, “se Deus existe, então não tem perdão”.

Em novembro de 2023, no início da ofensiva terrestre israelita em Gaza no pós-7 de outubro, uma associação nacionalista lançou um video, largamente difundido, em que a letra de uma canção popular israelita sobre a fraternidade dos homens foi deformada em grito de raiva e de guerra. Do original, ficou apenas a seguinte parte: “O amor santificado pelo sangue”. Nadav Lapid influenciou-se no episódio para criar Y (de novo uma personagem sua com nome de inicial), pianista, compositor, casado com uma bailarina, Yasmin. O regime contrata então Y para escrever a letra de um novo hino que enalteça a aniquilação do inimigo. O casal, que tem um bebé chamado Noah nascido durante os ataques do Hamas (o Noah bíblico da arca – e Nadav tem um filho com nome igual), submete-se, como se de um pacto inevitável com o Diabo se tratasse. “É um casal que se resignou, que diz sim a tudo, ao contrário das minhas personagens anteriores, que negavam”, contou Nadav em Cannes, explicando assim o título.

Y (Ariel Bronz) e Yasmin (Efrat Dor) estão desorientados, como artistas, como judeus, como cidadãos de Telavive, rodopiam num carnaval grotesco (há uma festa destravada na cena de abertura), num vazio moral, de tom blasfemo. Nadav transforma essa blasfémia em performance, em angústia política, dilacerada, num teatro de crueldade e desespero. Porque aquelas pessoas sabem e sentem-se num dilema sem solução. Estão no seu país, não têm outro. “Fiz um filme no país inimigo”, disse também o cineasta há anos radicado em França, “aquele em que o meu país se tornou”. É uma ideia forte, mas este filme não o faz por menos e está pronto a colocar-nos à frente de personagens para os quais deixou de fazer sentido aceitarem a sua identidade.

Com 50 anos feitos há pouco, Nadav impôs-se há duas décadas, desde as suas primeiras curtas, como o mais corajoso e politicamente comprometido cineasta israelita da sua geração. Tem sido o rosto de uma juventude contestatária da ala política mais conservadora do país. Chegou, aliás, a pronunciar que ser israelita é como “um tumor que tem de ser cirurgicamente removido”.

É fundamental esta introdução porque há quem vá julgar e tratar Yes como um filme pró-Israel, sob uma leitura deslocada. O filme foi amplamente discutido por Cannes antes do anúncio da seleção, considerado até ao último instante em que o festival anunciou o programa. Por proteção (e precaução), Cannes não o pôs no concurso pela Palma de Ouro.

Além disso, a mesma presidente do júri da Berlinale 2019 que deu o Urso de Ouro a Sinónimos (uma longa anterior de Nadav) – Juliette Binoche — preside este ano ao júri em Cannes, no concurso em que o filme era esperado. Ora, uma eventual vitória deste filme traria reverberações incalculáveis. Optou então Cannes por manobra concertada: uma vez tomada a decisão, a Quinzena dos Cineastas, que só tem premiações simbólicas, abriu-lhe a janela.

Em entrevista, contou-nos o cineasta que “é o meu filme mais desesperado mas nunca houve tanto amor num filme meu, porque Yes pergunta isso aos personagens, se vão aguentar, se vão conseguir ficar juntos. Eu vivo em Paris há vários anos. Com o 7 de outubro senti uma estranha ternura pelas pessoas que conheço desde a infância e pelo sítio em que nasci. Mesmo sabendo que o pior estava para vir com o alastrar da guerra. Como lidar com estes dois sentimentos contraditórios? Podemos tentar racionalizá-los. Mas o filme não faz isso. O assunto é muito complexo. Quem não entende Telavive não pode atender Gaza e vice-versa.”

Filme tenso e hostil a nível formal, com uma variação de cores garridas e movimentos bruscos que são espelhos da agitação interior das personagens (“uma beleza contaminada em que já nada pode ser íntimo, nem puro”, resumiu o cineasta), Yes dá uma extraordinária voz coral à dissidência. Uma voz alheia a panfletos, oposta ao politicamente correto, com um ponto de vista sobre aquela realidade radicalmente diferente da posição de conforto a partir da qual o Ocidente vê o conflito israelo-palestiniano.