Há quem diga que picam, outros dizem que “não fazem mal a ninguém”. Mas a realidade é que o grande volume de insetos no Parque Eduardo VII que se faz sentir durante as últimas horas da Feira do Livro de Lisboa forçou ao encerramento de uma das várias roulotes que alimentam os milhares de pessoas que visitam o evento todos os dias. A grande maioria dos visitantes refere-se a estes “enxames” como sendo “mosquitos”, mas os especialistas contactados pelo Observador fazem uma caracterização diferente — e menos problemática.
Depois de dias húmidos e com temperaturas mais elevadas, os feirantes notaram o aparecimento em massa destes insetos cerca das 20h/21h nos locais menos populosos, como os passeios de transição de um lado para o outro do parque, e as praças onde se concentram as zonas de alimentação. Uma trabalhadora frisa ao Observador que “os insetos não chegam à comida” porque está “protegida por detrás de um vidro”, mas ainda assim viu o seu estabelecimento encerrado, uma vez que não conseguiram manter estes supostos “mosquitos” do lado exterior da roulote.
De uma forma geral, os responsáveis por fornecer alimentação a milhares de visitantes notam que, todos os anos, por volta desta altura do ano, uma “nuvem” de insetos cobre esta região da feira. Mesmo assim, os vários trabalhadores consultados referem não sentir falta de clientela: os “bichos” incomodam o público, mas não dificultam as vendas. “Há dias piores que outros”, relata um cozinheiro ao enxotar vários insetos de um dos papéis para embrulhar a comida que acabara de preparar.
A situação é corroborada pela organização do evento. A Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) explica ao Observador que a grande presença de agúdias — e não “mosquitos” — na Feira do Livro trata-se de uma “situação recorrente todos os anos e que se deve às características naturais do espaço envolvente”. São “formigas com asas”, segundo a APEL, e estes insetos, “apesar de incómodos quando em grandes quantidades, são inofensivos”.
De acordo com a associação, não houve “queixas formais por parte dos visitantes” nem “qualquer pedido por parte de expositores — sejam bancas de livros ou de restauração — para atuação específica relacionada com a presença de insetos no recinto”. Sobre o caso da roulote que encerrou as operações na segunda-feira, a funcionária mencionou não ter reportado a situação à organização, pelo que a APEL dá nota de não ter tido “conhecimento prévio do encerramento de qualquer banca” por este motivo.
“Como é facilmente compreensível, fenómenos como o aumento da presença de insetos, especialmente durante dias de calor mais intenso, são naturais, sazonais e impossíveis de prever ou controlar por completo. Continuamos atentos e disponíveis para apoiar os nossos expositores dentro daquilo que nos é possível fazer, tendo sempre como prioridade a segurança e o bem-estar de todos”, acrescentam na resposta enviada ao Observador.
▲ As "formigas com asas", ou agúdias, durante o mês de junho, voam de uma forma sincronizada com o objetivo de formar novas colónias
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Quem são e o que fazem estas “formigas com asas”?
Em época de verão, as temperaturas elevadas e a humidade no ar são a mistura perfeita de condições para dar início aos “voos nupciais” destas “formigas com asas”. Mas afinal, que insetos são estes? As formigas mais comuns, da espécie Lasius, que aparecem principalmente nos jardins ou à caça de restos de comida, são as obreiras. São fêmeas não reprodutoras e responsáveis por tudo o que é essencial para a colónia, como a busca do alimento e a manutenção do formigueiro. Já as que foram avistadas em “enxames” a voar pelo Parque Eduardo VII nestes últimos fins de tarde são as rainhas e os “machos virgens”.
Quando estão reunidas “condições atmosféricas específicas”, neste caso o calor e a humidade, explica o curador da coleção de insetos do Museu de História Natural Roberto Keller, tanto as rainhas como os machos saem do ninho e começam a voar. Apesar disso, é uma espécie que não gosta muito do calor, o que explica porque se costumam manifestar ou durante a manhã ou no final da tarde, perto de sombras em zonas verdes como parques urbanos, jardins ou quintais.
As “formigas com asas” saem com o objetivo de se reproduzirem com insetos de diferentes ninhos. Os machos e as rainhas das várias colónias espalhadas pelo centro de Lisboa, neste caso, voam de uma forma “sincronizada” à procura de parceiros para se formarem novos formigueiros.
“As formigas em si não fazem absolutamente nada“, continua o especialista Roberto Keller: “Os machos não têm ferrão em nenhuma espécie de formiga — nunca picam — e as rainhas também, neste caso”. Nesta etapa do ciclo de vida destes insetos, a preocupação é “encontrar-se uns aos outros e reproduzir-se”, pelo que o “único papel” dos machos na colónia é a reprodução; os adultos morrem poucas horas depois de se reproduzirem. Após voarem e acasalarem, as rainhas “partem” as asas e escavam o solo, onde vão construir uma câmara (formigueiro) para colocarem ovos e darem início a uma nova colónia. “É a fase reprodutora da colónia e, como saem todos sincronizados dos diferentes formigueiros, que normalmente estão debaixo do passeio, nos jardins e parques, realmente não os vemos, só quando saem a voar é que reparamos que estamos rodeados de formigas”, explica.
As concentrações de “formigas com asas”, por norma, “não acontecem nos sítios onde estão milhares de pessoas”, existindo a tendência de irem “buscar um sítio onde não sejam perturbadas”. A comida é certamente um outro fator que contribui para a escolha de ponto de encontro. No caso específico da Feira do Livro, as formigas “comem de tudo”, podendo agregar-se tanto em caixotes do lixo ou onde existam restos de comida espalhados no chão, como no espaço verde entre as filas intermináveis de bancas de livros.
Não existe uma explicação concreta para as formigas se concentrarem nas roulotes que produzem um certo tipo de alimento específico — ou seja, não gostam mais de peixe ou de carne. Ainda assim, o investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa acredita que estes insetos se tendam a concentrar nos locais onde num determinado momento haja menos gente — o que terá acontecido com a roulote obrigada a encerrar na segunda-feira. Uma coisa é certa: o processo “não é um fenómeno que aguente um mês”, acrescenta a entomóloga Carla Sousa, do Instituto de Higiene e Medicina Tropical. Os enxames são “muito efémeros e localizados”, “aparece e desaparece”. A vaga de “voos nupciais” pode durar entre horas a “vários dias”: mas raramente se mantém mais do que uma semana.