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"The Bear": apurar a receita para cozinhar a redenção

Este artigo tem mais de 1 ano

Na quarta temporada (já na Disney+) vamos ter as respostas que não tivemos na terceira. E mais do que isso: a certeza de que é da melhor TV que podemos ver. Mesmo que este restaurante esteja em risco.

O motor desta nova temporada é simples: Carmy (Jeremy Allen White) tem dois meses para colocar o restaurante que comanda nos eixos. Mas será esta de facto a narrativa principal?
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▲O motor desta nova temporada é simples: Carmy (Jeremy Allen White) tem dois meses para colocar o restaurante que comanda nos eixos. Mas será esta de facto a narrativa principal?

▲O motor desta nova temporada é simples: Carmy (Jeremy Allen White) tem dois meses para colocar o restaurante que comanda nos eixos. Mas será esta de facto a narrativa principal?

Algures num episódio da primeira metade desta temporada, Carmy (Jeremy Allen White), o chef protagonista de The Bear, sai do restaurante, vai apanhar um comboio e, ao entrar, hesita e começa a correr pelas ruas de Chicago. Vai correr bastante até chegar ao destino. Fazemos contas e apercebemo-nos que não é a primeira cena nesta temporada de The Bear em que se vê uma personagem a andar pelas ruas, de um ponto para o outro. Aliás, é algo regular na série, noutros momentos há parcelas dos episódios em que vemos quotidianos, o que fazem quando não estão no restaurante ou o que lhes acontece enquanto fazemo caminho.

Se, por um lado, esta imagem ilustra a ideia de que The Bear é sobre pessoas e as suas relações — e não sobre como gerir um restaurante (isso é o que puxa a conversa, não é o que faz a conversa), por outro, mais importante, mostra como a série é diferente (ou quer ser diferente) de quase tudo o resto. Se pensarmos bem, existem atualmente poucas séries que mostram as personagens a andar de um lado para o outro. O que importa, claro, não é o ato de mostrar, mas o efeito que isso provoca em nós, espectadores, e o que nos contam essas pequenas ações. Tem mais de cinema do que de televisão. Percebe-se porquê: nos episódios mais exóticos, o criador de The Bear, Christopher Storer, tem puxado por esse lado. Seja por via referencial ou, lá está, pelo efeito.

Nesta quarta temporada continuamos a ver uma série que joga num campeonato próprio. Não inventou regras, nem é televisão revolucionária. É só excelente televisão. Esqueça se é drama ou comédia, se é sobre restaurantes ou talheres, o que importa é como entrega essa viagem. Mesmo que nem sempre corresponda às expectativas ou aos desejos de quem vê. Foi o caso da terceira temporada, que gerou alguma falta de paciência quando deu a sensação de uma roda que anda às voltas sem sair do mesmo lugar.

[o trailer da quarta temporada de “The Bear”:]

Há temporadas assim e ainda bem. Porque os criadores que as decidem sabem, por norma, o que estão a fazer. Podem perder espectadores mas, para quem fica, a recompensa será ótima. Às vezes é preciso esgotar — esgotar as personagens, esgotar os espectadores — para se encontrar um ponto de saída. Fazemos isso na vida, porque é que não se pode fazer no entretenimento? Talvez porque perca o efeito de entretenimento, claro. Mas temos mesmo de estar sempre entretidos, até neste caso? Já não nos podemos dar ao luxo de ficar aborrecidos, até com aquilo de que gostamos?

Podemos. The Bear é a prova disso. Não há maravilhamento cego — por quem escreve —, o que existe, sim, é gosto ao direito à slow TV quando ela tem de ser lenta. E isso não se traduz em encher chouriços. A quarta temporada de The Bear responde aos problemas da terceira e isso vai deixar muita gente satisfeita. Mas também explica porque é que a terceira criou esses problemas. Fá-lo sem ser uma reação. É, antes, uma continuação. As ações das personagens tornam-se naturais, as mudanças — ou o esforço em mudar — de Carmy ao longo desta temporada — reconhecer os erros, pedir desculpa — parecem espontâneos, consequência de ter falhado tantas vezes. É um ato curioso, porque quando o faz também imprime um tom especial à narrativa. Por vezes, sente-se que está a pedir desculpa ao espectador. Não é que o tivesse de fazer, mas fá-lo na mesma. Não pela terceira temporada — isso seria um disparate — mas por esta ideia: foi preciso andar às voltar para chegarmos aqui, algo como “desculpem se demorou um pouco mais do que o desejado”.

A quarta temporada avança mais rapidamente porque é obrigada a fazê-lo. Jimmy (Oliver Platt) e The Computer (Brian Koppelman) chegam à cozinha, na primeira metade do primeiro episódio, e instalam um relógio digital. Marca o tempo que o restaurante tem até fechar: dois meses. Dois meses e, se as coisas não mudarem muito, mesmo muito, Jimmy vai fechar a torneira e vender o restaurante. Está tudo em jogo e a série entra logo noutro modo: não há tempo para nostalgia, há urgência em resolver problemas. Surgirão uma série de constrangimentos, que serão tratados de forma mais pacífica do que no passado. E em nenhum momento parece uma cedência, antes um efeito prático de que aquelas personagens já repetiram os mesmos erros demasiadas vezes.

▲ A grande vitória de Storer e Calo, e desta quarta temporada de The Bear, é convencer-nos de que tudo isto é um processo. O processo de contar uma grande história

Mais do que em qualquer outra temporada, a cozinha parece um elemento de outro mundo. Quase ficção científica, os planos de fora da cozinha, que mostram a iluminação em volta, as cores, a disposição, fazem sentir aquele espaço como algo futurista, alienígena. Algo que faz todo o sentido porque é o processo visual daquela cozinha ao tornar-se igual às outras cozinhas dos restaurantes reputados que são visitados em The Bear, seja em Chicago ou em Copenhaga.

A presença constante do relógio gera impaciência, uma experiência em contrarrelógio que constantemente nos diz que pode mesmo tudo falhar. E é um falhar com muita diferença dos outros falhanços. Os anteriores existiram sempre na ideia de experiências limites — o penúltimo episódio da primeira temporada, toda a construção mental da segunda temporada. Agora, desta vez, estamos no presente. Assume-se, de alguma forma, que o projeto falhou e a tentativa de aproveitar esse falhanço é fazer daquele prazo de dois meses o melhor período possível, com todas as condicionantes.

A melhor parte é que The Bear, isto é, Christopher Storer e Joanna Calo, constroem isto sem se sentir que a série está no mesmo caminho que o restaurante. Não tem de salvar a pele, só tem de fazer aquilo que sempre fez, mas melhor. Abrir um restaurante não é fácil. Fazer uma temporada de uma série sobre isso também não. A grande vitória de Storer e Calo, e desta quarta temporada de The Bear, é convencer-nos de que tudo isto é um processo. O processo de contar uma grande história. Guardem sete horas nos próximos dias para ver The Bear. Vai, como sempre, valer muito a pena.

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