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De tanto bater por “The Voice of Hind Rajab”, o coração de Veneza quase parou

Este artigo tem mais de 1 ano

Dramatização das últimas horas de uma criança presa num automóvel em Gaza debaixo de fogo, o filme de Kaouther Ben Hania foi recebido com um turbilhão de emoções raramente visto num festival de cinema

“The Voice of Hind Rajab”, de Kaouther Ben Hania
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▲“The Voice of Hind Rajab”, de Kaouther Ben Hania

▲“The Voice of Hind Rajab”, de Kaouther Ben Hania

Percebeu-se cedo, desde esse 22 de Julho em que Alberto Barbera anunciou o programa desta 82.ª Mostra, que The Voice of Hind Rajab estava destinado a fazer figura nesta edição. A imprensa internacional acreditada recebeu nessa manhã um mail do publicista do filme com uma declaração de intenções da cineasta a alertar para matéria sensível, num movimento de antecipação raro, para não escrever inédito, a mais de um mês do início do concurso. O novo filme da cineasta tunisina Kaouther Ben Hania — que esteve nos Óscares após a nomeação para Melhor Documentário do seu trabalho anterior, Quatro Filhas — iniciava assim um percurso planeado, consciente da sua diferença.

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Com acerto, disse a própria Kaouther Ben Hania que The Voice of Hind Rajab, no fundo, é um filme que nem precisa da nossa defesa. E porquê? Porque fala por si, é uma exposição frontal da tragédia que se vive em Gaza, transformada em campo de massacre. Se quisermos ir mais longe (e devemos ir), é uma exposição da tragédia do sofrimento de todas as crianças em todas as guerras. Mas o foco geográfico é contundente. A Palestina foi assunto de rua no Lido e esteve muito presente no festival pelas manifestações de apoio que surgiram. Pediu-se ao festival mais engajamento e compromisso. Annie Ernaux, Laura Poitras e Lucrecia Martel juntaram-se à mesma voz. Com The Voice of Hind Rajab, o festival respondeu em momento certo, à semelhança do que, há escassas semanas, tinha acontecido em Locarno, com a programação de With Hasan in Gaza, de Kamal Aljafari.

The Voice of Hind Rajab é uma dramatização consistente de um facto verídico e causou comoção raras vezes sentida na plateia de um festival de cinema. Hind Rajab foi uma menina palestiniana de seis anos que fugiu com tios e primos num automóvel, a 29 de janeiro de 2024, quando o bairro em que viviam recebeu ordem de evacuação numa incursão das IDF israelitas depois da invasão pós-7 de Outubro. O carro foi severamente metralhado, deixando Hind Rajab, que escapou ilesa, presa lá dentro, junto a seis cadáveres, sem saber o que fazer. Mas Hijab tinha um telemóvel ligado na mão, já que uma prima tentara pedir socorro ao Crescente Vermelho Palestiniano, organização humanitária forçada desde o início da guerra a operar remotamente desde Ramallah, na Cisjordânia, a 80 quilómetros de distância de Gaza. As conversas entre Hind Rajab e os socorristas foram gravadas (e divulgadas nas redes sociais nessa altura), testemunhando a luta da criança pela vida.

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▲ A realizadora Kaouther Ben Hania

WireImage

Usar este testemunho vivo e visceral da realidade numa obra cinematográfica é decisão que não pode ser tomada de ânimo leve. “Eu sabia que iria deixar a audiência desconfortável”, contou a cineasta ao Observador em entrevista que há-de vir. “Mas nada em Gaza é confortável hoje. Quando a mãe da criança me autorizou a usar as gravações e o Crescente Vermelho me deu o seu apoio incondicional, ganhei toda a validação moral que precisava. Alguém diria a um escritor que não tem o direito de usar o diário de Anne Frank porque ela foi vítima?”

Kaouther Ben Hania honra a voz de Hind Rajab. “Há um sentimento de impotência em todos nós sobre o que está a acontecer em Gaza e o pedido de ajuda de Hind Rajab amplifica-o”, continuou. A cineasta filma frequentemente em grande plano o dispositivo gráfico do áudio da criança, como se fosse um diagrama infográfico de frequência cardíaca de um monitor de hospital que vai dando sinal de vida.

Por outro lado, as cenas de teatralização dos factos com actores profissionais palestinianos, embora desiguais (foram rodadas em estúdio na Tunísia), atingem picos de grande intensidade. “Os actores embarcaram numa jornada emocional e numa experiência imersiva a um tal ponto que deixaram de conseguir distinguir a realidade da representação.”

Este filme também vem “desmascarar a desumanização da Palestina e a narrativa de que as mortes em Gaza são um dano colateral, sem nomes e sem rostos, tal como ela tem vindo a ser alimentada por Israel”, contou a cineasta. “Hind Rajab era um ser humano, tinha mãe, um irmão, gostava de brincar na praia. Quero que seja lembrada.” Tudo indica que o festival lhe responderá positivamente, levando-o ao Palmarés que será anunciado este sábado.

A boa réplica italiana

Numa edição em que a Mostra fez valer os seus pergaminhos e mostrou a concurso uma qualidade média acima do costume, é urgente realçar um filme italiano que encheu por inteiro as medidas, o novo trabalho de Leonardo Di Costanzo. Elisa é a história da genealogia de um crime, não a nível criminal e forense, já que esse assunto está resolvido, mas enquanto meditação rigorosa sobre a culpa, o ressentimento e a maneira como estes sentimentos reverberam de forma diferente em cada ser humano.

▲ “Elisa”, um dos grandes filmes deste festival, realizado por Leonardo Di Costanzo

OLVER OPPITZ PHOTOGRAPHY

A personagem que dá nome ao título (papel de Barbara Ronchi) cometeu um crime hediondo para esconder uma mentira de família: estrangulou a irmã e depois pegou fogo ao cadáver. Pela monstruosidade, resultante de uma vertigem irreflectida, apanhou 20 anos de cadeia. Elisa vem, contudo, falar-nos de outra coisa, de uma noção de “justiça reparadora” baseada em estudos e conversas de dois criminólogos italianos. A personagem de Alaoui (Roschdy Zem) é uma fusão desses investigadores, procurando a condenada na cárcere, convencendo-a a participar num diálogo franco, sem subterfúgios, sobre a memória, a dor e a violência.

Filme de expiação impecavelmente escrito, escavação às profundezas da alma, Elisa é tenso e sublime na gestão das emoções. Roschdy Zem funciona como trave moral, acredita no poder curativo das palavras. Este óptimo actor francês vai ainda mais longe do que já mostrara ser capaz em Roubaix, Misericórdia, de Arnaud Desplechin. Quarta longa-metragem de ficção de Di Costanzo, Elisa merece reconhecimento, pouco importa a categoria. O filme tem atributos para se bater por qualquer delas: argumento, interpretações, realização… Quando assim é, mais certeiro seria dar-lhe o Leão de Ouro.

▲ “Duse”, de Pietro Marcello

Erika Kuenka

Duse, outra entrada italiana, não é tão forte, mas ainda assim saúda-se o regresso à forma de Pietro Marcello (após o fraco L’envol) com uma obra que se aproxima, pela época abordada e pelo recurso a materias de arquivo, ao que o cineasta mostrou em Martin Eden. Este novo Duse é biográfico, retrato de uma actriz dilacerada que falou em nome do seu tempo convulso, Eleonora Duse — dita a “divina” — estrela de teatro e do cinema mudo que perde tudo após a I Guerra Mundial e renasce nos palcos, para tudo voltar a perder, despenhando-se a nível ético junto de amigos e família pela sua proximidade a Mussolini e ao fascismo, que lhe fazem a corte, e lhe permitem continuar a trabalhar — tudo o que ela mais quer.

Duse é também um poço de emoções contraditórias, vida e arte em fusão plena, um filme à imagem de Valeria Bruni Tedeschi, que interpreta a biografada nos seus últimos anos de existência (cumpre-se agora o centenário da sua morte). Numa das cenas mais conseguidas, Pietro Marcello explora o curto-circuito resultante do encontro entre Eleonora e a grande Sarah Bernhardt, entregando o papel desta última à francesa Noémie Lvovsky — que é desde sempre uma bússola, fonte de inspiração para Valeria Bruni Tedeschi. Quem conhece este elo de admiração privado entre as duas mulheres entende porque é que o resultado daquela cena é empolgante.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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