O tema do mentor e do discípulo fiel ou do sucessor ambicioso, e da busca pela perfeição, atravessa todos os géneros do cinema americano, do western ao policial e ao filme de desporto. É esse o assunto de O Maior, de Justin Tipping, passado no mundo do futebol americano. Só que O Maior inclui-se também num dos mais obscuros subgéneros do cinema, o filme de desporto e terror, que tem como raros exemplos títulos como Fatal Games (1983), The Catcher (1998) ou Girl Blood Sport (2019), e que não passam de variantes das fitas de assassinos em série com adolescentes, ambientadas no meio do atletismo ou do basebol.
Justin Tipping é um jovem realizador pouco conhecido, com algum trabalho na televisão desde 2018 e apenas uma longa-metragem no currículo, Kicks, de 2016, que não se estreou em Portugal. A principal razão para os apreciadores de cinema fantástico e de terror ficarem de pé atrás com O Maior, é o facto de ser produzido por Jordan Peele, que veio “wokizar” pesadamente o género, quer através dos filmes que realiza, como Foge, quer como produtor (o remake de Candyman — O Assassino em Série, e para a televisão, séries como a nova versão de The Twilight Zone ou a inenarrável Lovecraft Country).
[Veja o “trailer” de “O Maior”:]
Tyriq Withers interpreta Cameron Cade, um quarterback de futebol americano que cresceu a venerar o seu ídolo, Isaiah White (Marlon Wayans), que joga na mesma posição, e foi intensamente incentivado pelo pai a ser tão bom como ele, para um dia lhe poder suceder. À beira de se tornar profissional e de ir ocupar o lugar de White na sua equipa, assinando um contrato milionário, Withers é vítima de uma estranha agressão uma noite, quando tinha ficado sozinho no campo a treinar até tarde. E fica com uma preocupante lesão no crânio, que lhe pode comprometer o futuro.
[Veja uma entrevista com o realizador Justin Tipping:]
Withers é então convidado por Isaiah White para fazer um estágio de uma semana nas sua instalações desportivas, uma ampla construção de arquitetura brutalista no meio do deserto, e que no interior é uma combinação de zonas de treino, spa minimalista, clínica desportiva e residência espartana. A princípio, e embora alguns dos métodos de treino e de apoio médico sejam bastante heterodoxos, tudo leva a pensar que White quer puxar ao máximo por Withers (que sente muito honrado pelo convite e agradecido pela oportunidade de trabalhar com o seu ídolo) para o deixar no topo da forma, e ele poder ser um seu digno e glorioso sucessor e continuador como quarterback. Até que o jovem descobre que o que está ali em causa é algo muito mais complicado e sinistro.
[Veja uma sequência do filme:]
Em O Maior, Justin Tipping recorre ao terror sobrenatural para questionar a pressão intensa a que estão sujeitos, por todos os lados, os jovens atletas do futebol americano, das famílias que os veem como o seu bilhete para uma vida de luxo e abundância, e aos amigos oportunistas e chupistas, até aos agentes sempre os com olhos no melhor contrato possível e na sua percentagem, passando pelos media e pelos donos e diretores dos clubes, que os tratam como uma mercadoria; e pôr em causa a obsessão da busca pela perfeição, que pode ter graves consequências físicas e psicológicas, tudo em nome da vitória, do dinheiro, da satisfação dos fãs e da consagração pessoal.
O filme tem uma conotação faustiana que se vai tornando cada vez mais óbvia, e no clímax trata-se mesmo de vender a alma ao diabo pela glória e pela fama, descobrindo-se também que o mafarrico, se não controla a NFL, anda lá muito perto. Até poderia ter alguma piada, não fosse a realização de mão pesada, e insistente e grosseiramente “efeitista”, a solenidade involuntariamente cómica de várias sequências e do discurso “no guts, no glory” de White, o cabotinismo presunçoso da interpretação de Marlon Wayans, que se devia limitar à comédia, e um final em apoteose de gore, em que Justin Tipping abre todas as torneiras do sangue e deixa-o esguichar à vontade. O Maior diz que vai o diabo a quatro no futebol americano, mas é tão mau na demonstração que não há exorcismo que lhe valha.