“Com a Alma na Mão, Caminha”
Impedida de entrar em Gaza, a realizadora iraniana Sepideh Farsi, refugiada no Ocidente do regime dos ayatollahs desde os anos 80, falou por vídeochamada, durante mais de 200 dias, com Fatma Hassouna, uma fotojornalista palestiniana de 25 anos ali retida com a família, que decidiu registar a devastação da cidade pelos bombardeamentos israelitas, e o dia-a-dia dos habitantes. Sepideh construiu Com a Mão na Alma, Caminha com imagens dessas conversas, e fotos de Fatma. O documentário foi selecionado para o Festival de Cannes e a realizadora estava a tentar que Fatma, que nunca tinha saído de Gaza na vida, pudesse lá ir, quando teve a notícia, a 16 de abril, que ela e quase toda a família tinham sido mortos por dois mísseis enquanto dormiam. Independentemente da posição que se tenha sobre a situação em Gaza, Com a Mão na Alma, Caminha, é um documento humano que cala muito fundo, mais eloquente do que panfletos e manifestações, sobre o que significa estar prisioneiro, indefeso e a tentar sobreviver muito precariamente numa zona de guerra. E tanto mais, porque Fatma era uma rapariga talentosa que sonhava conhecer mundo e fazer formação artística, de uma inquebrantável jovialidade e comunicabilidade, que não apoiava o Hamas e não expressava ódio aos que espalhavam a destruição na cidade e a morte e entre os seus familiares, amigos e vizinhos — só incompreensão.
“Love Life”
Taeko e o marido, Jirô, vivem calmamente em Tóquio com Keita, filho do primeiro casamento dela. Jirô deixou a sua namorada de longa data para casar com Taeko, o que nunca foi aceite pelos pais. Quando o menino morre num trágico acidente em casa, durante o aniversário do avô, Park, o ex-marido de Taeko, um coreano surdo e sem-abrigo, reaparece e faz uma cena no funeral do filho. O enredo complica-se ainda mais quando Park, que só se expressa por linguagem gestual coreana, revela à ex-mulher que tem um filho de outra. Em mãos pouco hábeis, Love Life (o título é tirado de uma canção pop nipónica, entoada no final da fita) daria um filme rasamente telenovelesco, ou um melodrama de tirar lágrimas às pedras da calçada. Nas do realizador Kôji Fukada, é um filme comedida e limpidamente expressivo, na escrita e na visualidade, no trato dramático, no manejo dos sentimentos e na condução de uma narrativa emocionalmente complexa, que é desemaranhada e levada a bom e calmo porto em duas horas que não pesam nem nos fazem começar a consultar o relógio a certa altura. Love Life é o primeiro filme de Fukada que se estreia em Portugal, e gostávamos de ver mais coisas dele.
“O Maior”
O tema do mentor e do discípulo fiel ou do sucessor ambicioso, e da busca pela perfeição, atravessa todos os géneros do cinema americano, do western ao policial e ao filme de desporto. É esse o assunto de O Maior, de Justin Tipping, passado no mundo do futebol americano. Só que O Maior inclui-se também num dos mais obscuros subgéneros do cinema, o filme de desporto e terror. Cameron Cade (Tyriq Withers) é um quarterback que cresceu a venerar o seu ídolo, Isaiah White (Marlon Wayans), que joga na mesma posição, e foi intensamente incentivado pelo pai a ser tão bom como ele, para um dia lhe poder suceder. À beira de se tornar profissional e de ir ocupar o lugar de White na sua equipa, assinando um contrato milionário, Withers é vítima de uma estranha agressão uma noite, ficando com uma preocupante lesão no crânio que lhe pode comprometer o futuro. É então convidado por White para passar uma semana a treinar nas instalações desportivas dele, situadas numa ampla construção de arquitetura brutalista no meio do deserto. O Maior foi escolhido como filme da semana pelo Observador e pode ler a crítica aqui.