O pintor Eduardo Batarda, reconhecido como um dos mais multifacetados artistas portugueses da sua geração, morreu esta sexta-feira, aos 81 anos, em Lisboa. As suas pinturas e aguarelas, influenciadas pela Pop Art, pela banda desenhada e pela ilustração, dão forma a um corpo de trabalho complexo, por vezes erudito, mas também irónico, crítico e sarcástico. Célebre pelo uso da palavra e da grafia, o seu trabalho destacou-se igualmente pela deambulação harmoniosa entre a figuração e a abstração. Distinguido com o Grande Prémio Amadeo de Souza-Cardoso 2019, entre outras distinções, é considerado uma das personalidades mais importantes da arte contemporânea portuguesa das últimas décadas.
A notícia da sua morte, na sequência de doença prolongada, foi divulgada esta manhã pelas galerias Miguel Nabinho e Pedro Oliveira e pela família, em comunicado. “Figura maior da arte contemporânea portuguesa, Eduardo Batarda distinguiu-se pela originalidade e rigor da sua obra, que marcou várias gerações de artistas e críticos. Com um percurso singular iniciado nos anos 60, foi autor de uma pintura profundamente pessoal, marcada pela ironia, pela liberdade formal e pela densidade intelectual, capaz de cruzar referências literárias, musicais e visuais”, pode ler-se na nota.
Nascido em Coimbra, em 1943, ingressou no curso de Medicina em 1960, de que viria a desistir três anos depois, para estudar Pintura na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, entre 1963 e 1968. Graças a uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, partiu para Londres, onde obteve uma pós-graduação pelo Royal College of Art. Foi no Reino Unido que se estabeleceu entre 1971 e 1974, concluindo também o diploma de MaRCA, e foi distinguido com os prémios Sir Alan Lane e John Minton. Nesse período nasceu a filha, a atriz Beatriz Batarda.
Esses anos foram determinantes no aprofundamento de uma tendência já visível nas suas primeiras obras: a reflexão sobre a arte, o seu papel, a história e a teoria da arte, incorporada na própria prática pictórica. Influenciado pelo rescaldo da Pop Art britânica, surgiram então alguns dos seus trabalhos mais reconhecidos. Com uma pintura marcada por temas políticos e de sátira social, Batarda recorreu frequentemente a universos ligados à publicidade, à banda desenhada e às artes gráficas. Ora mais abstrata, ora mais figurativa, a sua obra deste período é também marcada por uma postura antifascista e anticolonialista, que o destacou como artista crítico do regime do Estado Novo — tema que viria a atravessar várias fases da sua carreira.
De regresso a Portugal, em pleno período revolucionário, colaborou como crítico de arte no semanário Sempre Fixe, cujo carácter humorístico serviu de pretexto para textos contundentes e mordazes, reveladores de um pensamento crítico profundo sobre a arte. Num texto datado de maio de 2010, a investigadora em arte contemporânea Mariana Pinto Santos refere que, nos anos 80, o pintor regressa ao acrílico, numa primeira fase ainda com variações cromáticas e figurações reconhecíveis, depois progressivamente diluindo as figuras e adensando as camadas. “As obras são, desde esta altura, feitas sem desenho preparatório, em improvisações obliteradas por novas improvisações, fazendo literalmente pintura sobre pintura.”
Posteriormente, explica a mesma autora, Eduardo Batarda “abre a paleta e inscreve frases e expressões nos quadros; as telas vão-se tornando cada vez mais opacas. (…) O sarcasmo das aguarelas permanece, mas torna-se cada vez mais implícito e, segundo o próprio pintor, o comentário à arte restringe-se cada vez mais a um comentário à sua própria pintura.” É também neste período de grandes transições cromáticas e do uso cada vez mais recorrente da palavra que Eduardo Batarda se torna professor da Escola Superior de Belas-Artes do Porto, sendo reconhecido como uma figura influente junto de muitos dos artistas portugueses surgidos nas últimas décadas do século XX e no início do século XXI.
Ao Observador, o curador e artista Manuel Santos Maia, antigo aluno e colaborador que ao longo dos anos tem dialogado com a obra de Batarda, destacou precisamente a sua capacidade de “olhar para o futuro”, marcando toda uma geração de jovens artistas. “A sua obra é verdadeiramente singular, tanto a nível nacional como internacional. Desde os primeiros momentos, ainda enquanto estudante de Belas-Artes e nas primeiras exposições, distingue-se dos seus pares e veio enriquecer o panorama artístico. Todos reconhecem o valor técnico da sua pintura, assim como o trabalho exímio em aguarela e acrílico.”
Por outro lado, acrescenta Manuel Santos Maia, importa sublinhar o papel que manteve enquanto artista no Portugal democrático: “Pela crítica que manteve, pela sátira e pela utilização de novas técnicas que deixam um legado que não deve ser esquecido e que foi importante para a nossa democracia”.
Já o curador e crítico de arte Delfim Sardo destacou ao Observador a “capacidade ímpar de erudição”, que se evidencia nos mais variados campos técnicos que imprimiu nas obras. “O Eduardo Batarda é autor de um trabalho complexo, que vai muito para lá do campo da pintura, onde se destaca, por exemplo, todo o seu trabalho no campo do desenho clássico. Pertencente a uma geração de artistas portugueses que passou por Londres, é indissociável a sua relação próxima com a Pop Art, tendo construído um percurso único, com humor, ironia e ocultação”, sintetizou o curador.
A obra de Eduardo Batarda encontra-se representada no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian e nas coleções do Museu do Chiado, bem como em várias coleções privadas na Europa, Reino Unido e Estados Unidos. Entre as distinções mais relevantes destacam-se, em 1986, o Prémio Homeostética, em 2007 o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, o Grande Prémio EDP e a Medalha de Mérito Cultural.
Foi igualmente alvo de uma grande retrospetiva em Serralves, em 2011, intitulada “Outra vez não. Eduardo Batarda”, com curadoria de João Fernandes e João Pinharanda. Ao Observador, João Fernandes, então diretor do Museu de Serralves, salienta que é “um dever falar de Eduardo Batarda”, artista que reconhece como “uma pessoa extraordinária, que sabia inquietar o mundo de forma discreta, marcada pela sua forma de estar, de saber construir um comentário do mundo que não era retórico ou reivindicativo, mas que era um comentário fino e cortante, capaz de desestabilizar. Diria que é um subversivo tranquilo, uma singularidade que se amplia nas suas muitas referências presentes nas obras e que demoraram décadas a ser desconstruídas. Há ainda muito por descobrir da sua obra. E por isso sinto, tal como na altura da retrospetiva, o dever enquanto curador de destacar o seu trabalho. Portugal é um país pequeno e o Eduardo conseguiu sobreviver-lhe, continuando, apesar de tudo, a fazer o que sabia como poucos.”
Na nota de pesar hoje divulgada, as galerias e a família acrescentam que o “seu legado permanecerá como testemunho incontornável de uma das vozes mais originais da pintura portuguesa contemporânea”. Nem sempre reconhecido e tantas vezes visto como uma figura estranha, respondeu sempre com humor e provocação. Regressando às suas próprias palavras, em 2009, terminava com alguma ironia: “Fiz sempre o possível por agradar, por fazer o que julgo importante para pertencer ao meio, por ser aceite e integrado. Parece-me um bocadinho injusto, e desde há tanto tempo, ser o único mau artista do meu país.”