Quando se retirou do ténis, em 1983, com apenas 26 anos, Bjorn Borg estava no auge. Vencedor de 11 títulos do Grand Slam, mais de 100 semanas no número um do ranking mundial e ícone de talento e estilo capaz de arrastar multidões, o tenista sueco foi a primeira superestrela internacional da modalidade, quando a Internet era somente uma realidade do futuro. Borg simplesmente parou de jogar e pouco falou desde então, fiel à imagem fria, impassível e gélida no court que lhe valeu o epíteto ‘Ice Borg’.
Até agora, com o lançamento do seu livro de memórias Hearbeats, no qual revela que o tenista disciplinado como um samurai entrou em ebulição nos anos seguintes com a dependência de álcool e drogas, o abuso de comprimidos, muitas relações, depressão e duas overdoses quase fatais. “Isto tem-me incomodado há muitos anos. As pessoas conhecem-me como tenista, mas não sabem o que passei. As decisões que tomei na minha vida foram estúpidas, por isso queria contar essa história”, revelou o antigo tenista, em entrevista ao The Guardian, a propósito do lançamento do livro.
Entrevistas e toda a atenção dos fãs e da comunicação era uma realidade com que o jovem Bjorn Borg não se sentia confortável. Só o ténis — onde despontou ainda como adolescente brilhante ao vencer Roland Garros pouco depois de completar 18 anos — interessava. “Até então, estava totalmente focado no ténis. Comia, dormia, treinava, jogava partidas. E adorava. Diverti-me muito”, recordou. Mas aos 25 anos, com uma sucessão de recordes que durariam décadas a cair no circuito mundial, Borg perdeu a motivação.
“Nos hotéis, quando eu fazia o check-in, havia pelo menos 100 pessoas na receção em busca de autógrafos. Se eu fosse a um restaurante, havia 15 fotógrafos à espera do lado de fora e a seguir-me. No final, quando estava a jogar, eu simplesmente ficava no meu quarto. Comia no meu quarto. Não saía. Foi por isso que me afastei do ténis. Pensei: ‘Será esta a minha vida no futuro?’ Foi por isso que disse ‘chega'”, explicou. E assim, sem uma palavra aos fãs ou aos colegas tenistas, Borg largou a raquete e saiu do court. Só o norte-americano John McEnroe, com quem protagonizou uma rivalidade histórica, lhe ligou insistentemente para regressar.
Deixou Monte Carlo, onde vivia com a ex-tenista romena Mariana Simionescu, e rumou a Long Island, nos Estados Unidos. Deixou o circuito mundial do ténis, entrou no circuito das festas. No verão de 1982, longe de um court, descobriu na cocaína outras linhas brancas que iriam ditar-lhe o rumo dos anos seguintes. “Eu disse a mim mesmo: ‘Oh, esta é uma sensação diferente. Isto é uma coisa diferente’. Senti a mesma adrenalina que sentia no ténis. A sensação em si era nova e fez-me sentir incrivelmente enérgico. Fiquei viciado imediatamente”, referiu.
O problema, segundo Borg, era que não havia nada mais para fazer. Sem a rotina do ténis, o sueco sentiu-se perdido e deprimido, o que o levou ainda mais longe na procura de novos escapes aos problemas, com mais drogas e álcool. Divorciou-se de Mariana Simionescu em 1984 e teve um filho com uma modelo sueco em 1985. Borg, hoje com 69 anos e em recuperação de um cancro da próstata, sublinhou que o filho Robin foi a única coisa boa que lhe aconteceu nessa década. “Quando te sentes mal, tentas fugir. Eu tentei fugir com drogas, comprimidos e muito álcool. Estava à procura de algo, mas não sabia o quê. Ao consumir estas coisas, não precisas de pensar nos teus problemas”, relatou.
Apesar de todos os excessos para alguém que nunca se excedia em campo, Bjorn Borg não se descreveu na entrevista ao jornal britânico como um viciado, uma vez que não caía nos vícios todas as noites. Paralelamente, nunca deixou de ter exigência física e mantinha o atleticismo dos seus tempos de tenista profissional. Só que o sueco estava em avançado estado de degradação e em 1989 atingiu o limite. Nesse ano, casou com a cantora italiana Loredana Bertè, mudou-se para Milão, mas não mudou o estilo de vida e em fevereiro sofreu uma overdose acidental. Só não foi fatal, porque a sua mulher chamou a ambulância a tempo.
Não conseguiu travar logo e só em 1990 se decidiu afastar daquela vida, reencontrando-se com as raquetes. “Perguntei-me: ‘Será que já pratiquei este desporto antes?’ Joguei tão mal que foi ridículo. Então disse a mim mesmo: ‘Não estou a fazer isto para ser tenista, não estou a fazer isto para ganhar torneios — estou a fazer isto por uma razão diferente”, frisou. Mudou-se para Londres, começou a treinar, entrou em reabilitação e no ano seguinte, com 34 anos, quis regressar ao ténis.
Em abril de 1991 volta a jogar um torneio ATP e logo em Monte Carlo. A raquete de madeira era dos seus tempos de glória, mas Borg já não era o jogador do passado. Perdeu em dois sets (6-2 e 6-3) com o tenista espanhol Jordi Arrese, um modesto 52.º classificado da hierarquia mundial. Foi, nas palavras de Borg, um dos dias mais felizes da sua vida.
“Depois, estou sentado no banco de trás do carro e os meus pais estão na frente. Eles olham para mim e dizem: ‘Pareces tão feliz.’ Sim, eu estava muito feliz e satisfeito. Foi um momento maravilhoso depois de tudo o que eu tinha passado. Sentado no carro, eu estava muito satisfeito por ter feito isso. Senti: ‘Estou de volta à vida. Finalmente estou de volta à vida’. Só os meus pais sabiam a verdadeira razão pela qual eu tinha voltado ao ténis. Mais ninguém”, contou, explicitando a razão: “Voltei para continuar vivo“.
Nos anos 90 ainda sofreu algumas recaídas, uma delas quase fatal em 1993, diante do pai e quando se preparava para ir jogar um torneio. Sobreviveu novamente. Divorciou-se uma vez mais. O circuito de campeões, para tenistas veteranos, abriu-lhe depois uma nova porta e em 1999, quando conheceu Patricia Ostfeldt, a sua atual mulher, reabilitou-se.
Foi com a ajuda de Patricia — com quem teve em 2003 outro filho, Leo, também tenista profissional — que acabou por conseguir quebrar o silêncio e contar a sua história em Heartbeats. “Fiquei muito feliz por ela ter aceitado, porque se não tivesse aceitado, este livro nunca teria sido publicado. Eu teria levado a minha história para o túmulo. Ela perguntou: ‘O que queres colocar nele?’ E eu respondi: ‘Tudo'”.