“A Plot/ A Scandal”, de Ligia Lewis
TBA — Teatro do Bairro Alto, Lisboa (2 a 3 de outubro)
A coreógrafa e bailarina Ligia Lewis, nascida na República Dominicana e atualmente a viver em Berlim, apresenta uma criação que mergulha em memórias históricas, políticas e sociais. A peça convoca figuras como Maria Olofa (Wolofa), líder da primeira revolta de pessoas escravizadas em Santo Domingo, o revolucionário cubano José Antonio Aponte e até a sua própria bisavó, Lolón Zapata, uma combatente da resistência negra.
▲ Ligia Lewis estreia-se em Lisboa com um espetáculo sobre memória coletiva no TBA
O espetáculo — que esteve inicialmente previsto para acontecer em abril, acabando cancelado fruto de uma questão de saúde da artista — tem como ponto de partida a palavra inglesa “plot”, que titula a peça, que pode significar tanto narrativa como conspiração ou terra, abrindo um campo de sentidos possíveis. Lewis transforma esse jogo de significados em dança e gesto, atravessando o corpo com ecos de estereótipos coloniais — como aqueles ligados à imagem de Josephine Baker — para subvertê-los. Entre o escândalo, a fantasia e o prazer, a artista constrói um palco onde história e imaginação se encontram para provocar e reinventar possibilidades de futuro.
“Aquela Canção Sobre o Fim”, de Mário Coelho
São Luiz Teatro Municipal, Lisboa (9 a 26 de outubro)
A história é comum: uma reunião de amigos do secundário revela que, afinal, a convivência já não é possível. É um jantar aparentemente banal que serve de ponto de partida para Aquela Canção Sobre o Fim, nova criação do encenador Mário Coelho, que sucede a Quando Eu Morrer, Vou Fazer Filmes no Inferno! (2024).
▲ O elenco é composto por Ana Valente, Ana Valentim, Ana Vilela da Costa, Anabela Ribeiro, Carolina Dominguez, Mário Coelho e Roxana Ionesco
Website do Teatro São Luiz
A anfitriã recebe o grupo na sua casa e, entre risos nostálgicos e memórias, rapidamente começam a emergir tensões, mágoas e verdades incómodas. O que parecia uma noite de reencontro depressa se torna num campo minado, onde cada gesto ou palavra pode desencadear novas fraturas.
Entre momentos de humor corrosivo (e muita sátira social), Aquela Canção Sobre o Fim traça um retrato impiedoso das relações contemporâneas e levanta questões como a facilidade com que se desfazem laços outrora inquebráveis. O elenco é composto por Ana Valente, Ana Valentim, Ana Vilela da Costa, Anabela Ribeiro, Carolina Dominguez, Mário Coelho e Roxana Ionesco.
“Hybridation“, de Olivier de Sagazan
Rivoli (Grande Auditório), Teatro Municipal do Porto, Porto (16 e 17 de outubro)
Há muito para descobrir na 36.ª edição do Festival Internacional de Marionetas do Porto (FIMP), que acontece de 10 a 19 de outubro. Um dos momentos mais marcantes da programação é Hybridation, do artista francês Olivier de Sagazan. Conhecido por um trabalho que navega entre o campo das artes visuais e a performance, Sagazan traz ao palco uma criação intensa em que o barro se transforma numa extensão do corpo.
▲ O espetáculo é encenado por Olivier de Sagazan, que também interpreta ao lado de Alyzée Soudet-Polaris
Em cena, duas figuras enterram-se no barro, anulam os traços humanos e ressurgem como criaturas híbridas em constante mutação. Numa oscilação entre marionetista e marioneta, corpo e objeto, o gesto de cobrir, raspar e reinventar o rosto torna-se um ritual de desconstrução, mas também de autodescoberta. O resultado é uma experiência que atravessa a dança, a escultura e o teatro, e nos desafia a pensar: quais os limites do corpo?
“Turismo Infinito“, de António M. Feijó, encenação de Ricardo Pais
Teatro Nacional São João, Porto (16 a 19 de outubro)
Em 2007, Turismo Infinito foi um acontecimento. O espetáculo encenado por Ricardo Pais que propôs uma viagem ao universo de Fernando Pessoa tornou-se uma das mais marcantes produções do Teatro Nacional São João.
Com dramaturgia de António M. Feijó, a partir de textos de Fernando Pessoa e três cartas de Ofélia Queirós, a peça ficou na memória também por um impressivo dispositivo cénico concebido pelo arquiteto Manuel Aires Mateus, em perfeita harmonia com o desenho de luz de Nuno Meira.
▲ "Turismo Infinito" estreou-se no Teatro Nacional São João, no Porto, a 7 de dezembro de 200707.
Agora, Turismo Infinito torna à cena com praticamente todo o elenco original: João Reis, Emília Silvestre, Pedro Almendra, José Eduardo Silva, a quem acresce Simão do Vale Africano em substituição de Luís Araújo. São eles que vestem a pele de figuras como o guarda-livros Bernardo Soares, o sensacionista Álvaro de Campos e do bucólico mestre Alberto Caeiro, mas também do heterónimo feminino Maria José e até de Ofélia Queirós, protagonista do único envolvimento amoroso conhecido do poeta.
“Os Maias”, encenação de Fernando Duarte
Teatro Camões, Lisboa (16 a 26 de outubro)
Fernando Duarte, diretor artístico da Companhia Nacional de Bailado (CNB), lança-se na primeira primeira adaptação coreográfica de Os Maias, obra maior da literatura portuguesa, depois de outras experiências na transposição da literatura para a dança, como O Primo Basílio (2020), também de Eça de Queirós, ou Memorial do Convento (2022), de José Saramago.
▲ "Os Maias" é um bailado em III atos a partir da obra homónima de Eça de Queirós
O bailado em três atos baseado no romance de Eça de Queirós de 1888 é a grande aposta para a rentrée da CNB, e conta com a interpretação musical do pianista António Rosado e de solistas da Orquestra de Câmara Portuguesa. A cenografia é de José Manuel Castanheira e os figurinos de José António Tenente.
“Burn Burn Burn”, de Catarina Rolo Salgueiro e Isabel Costa
Culturgest, Lisboa (30 de outubro a 1 de novembro)
O que aconteceria se os livros fossem considerados perigosos e estivessem proibidos? Catarina Rôlo Salgueiro e Isabel Costa, do coletivo Os Possessos, partiram do romance Fahrenheit 451, o romance distópico de Ray Bradbury de 1953 que imagina tal cenário, para levar a palco uma história que tem ecos no tempo presente — só nos EUA já foram banidos mais de 10 mil livros no último ano letivo.
▲ "Burn Burn Burn" é inspirado em "Fahrenheit 451", de Ray Bradbury, romance distópico publicado em 1953 em que livros são proibidos e queimados
De que forma pode a literatura lutar contra as narrativas polarizadas que assolam o mundo em que vivemos? É o que a dupla — que assina texto e encenação — questiona em Burn Burn Burn, ao colocar um grupo de estranhos numa biblioteca pública para participar num clube de leitura clandestino. O elenco é composto pelas autoras da peça e ainda pelos atores Beatriz Brás, João Pedro Mamede, João Pedro Vaz, Leonardo Garibaldi, Leonor Buescu e Tomás Alves.