Os Artistas Unidos abrem ao público o “novo” Teatro Paulo Claro, em Lisboa, na quinta-feira, com a estreia da “comédia negra” “Jantar”, da britânica Moira Buffini, “numa espécie de celebração” do novo espaço, disse o encenador Pedro Carraca.
A peça, que o ator Pedro Gil apresentara há algum tempo ao encenador, para fazer com a atriz Catarina Campos Costa, que está no elenco, acabou por ser impossível de concretizar até ao momento, já que os Artistas Unidos continuavam sem espaço próprio desde julho de 2024, quando foram obrigados a sair do Teatro da Politécnica, em Lisboa.
“E há um ano, um bocado menos, começámos a aperceber-nos de que se calhar seria o primeiro texto para um possível novo espaço”, disse Pedro Carraca, no final de um ensaio de imprensa da peça, no espaço que agora ocupa, um pavilhão enorme, de pé direito alto, mas onde falta fazer tudo para que seja um teatro. E é neste espaço desnudo que a peça se estreará.
É uma estreia possível, por ser uma comédia, que a companhia “não fazia há algum tempo”. Além disso, já que iam para um “novo início”, seria bom mudarem “um bocadinho e festejar”, sustentou o encenador.
“Bom, é uma comédia negra, claro, também não podia ser uma comédia que não tivesse alguns laivos fora do normal”, acrescentou Pedro Carraca, sublinhando tratar-se do 200.º texto que a companhia fundada em 1995 por Jorge Silva Melo leva à cena. Por isso mesmo, acharam que pôr a peça em cena “devia ser uma espécie de celebração e uma coisa mais divertida e leve”, apesar de Pedro Gil, que motivou os Artistas Unidos a montarem a peça, não poder fazer parte do elenco de momento.
A montagem da peça começou sem sequer os Artistas Unidos “conseguirem entender bem qual seria a data da estreia possível”, já que o acordo de cedência do novo espaço, pela autarquia de Lisboa, foi celebrado no passado dia 26 de setembro.
O casal Paige e Lars, Winne, Hal e Siân, outro casal, e Mike e Criado são as personagens da obra em que Paige é a anfitriã da pomposa refeição.
Aperitivos, um “Caldo Primordial”, como entrada, um “Apocalipse da Lagosta”, como prato principal, e um “Refugo Gelado”, como sobremesa, compõem a refeição, a que se junta uma tábua de queijos e muito vinho, pratos que Paige demonstra ter escolhido propositadamente para cada convidado.
Sem grande carga psicológica nem com uma discussão de mensagem muito profunda, “Jantar” é um texto “para quem gosta de trabalho de atores”, pois permite-lhes desenvolver as suas personagens e ao mesmo tempo “brincar e gozar com isso”, observou Pedro Carraca.
Uma forma de os Artistas Unidos estarem “um bocadinho mais leves, num momento que é leve, mas bastante pesado tendo em conta todos os trabalhos hercúleos” que têm pela frente para tornar um espaço vazio e decadente de centenas de metros quadrados num teatro.
Ironia, hipocrisia, sarcasmo, o viver de aparências, mostrar-se o que não se é perpassam toda a peça escrita há cerca de 20 anos pela escritora nascida em 1965, e a que não faltam cáusticos e certeiros comentários.
O cenário fixa-se no espaço vazio da nova casa dos Artistas Unidos, onde pontifica apenas uma mesa com cadeiras para os convidados e uma mesa posta com requinte para um jantar faustoso. O trabalho de cena é todo baseado no diálogo entre personagens e no jogo maquiavélico que Paige demonstra ter preparado ao pormenor para cada convidado. As personagens revestem-se de várias “camadas-personas”, que vão caindo à medida que se desenrola a ação e se vão abrindo garrafas de vinho.
O “nós primeiro” que pauta as sociedades de hoje, “quer ao nível de pessoas, quer dos países”, como referiu Pedro Carraca, é também um tema que atravessa toda a peça, com a ironia e o humor negro a tornarem-se hilariantes.
“Um jantar de sobrevivência e de abandono ao mesmo tempo”, conclui o encenador sobre o primeiro texto que põem em cena depois de terem sido obrigados “não uma, nem duas, nem três, nem quatro”, mas pelo menos cinco vezes, a saírem de teatros que foram construindo.
Um espetáculo no qual as personagens, aparentemente de classe alta mas sem que seja a classe social a determiná-las, estão todas presas a máscaras de como se devem comportar e do que acham que devem fazer. Personagens presas entre “aquilo que queremos ser e aquilo que temos de ser”, e em que se vislumbra ainda uma terceira camada, o que podemos ser.
“Acho que no dia a dia nós somos muitas vezes confrontados com o desejo e a obrigação; é uma coisa que está muito presente nas nossas vidas e que nos obriga a estar constantemente numa procura para encontrar este equilíbrio”, concluiu Pedro Carraca. E volta a exemplificar com o momento em que a companhia se debate com a nova casa. Admitindo estar a ser “um bocadinho umbilical”, Pedro Carraca afirma: “Entre aquilo que a gente quer fazer e aquilo que a gente tem de fazer vai uma grande distância”.
“Jantar” vai estar em cena no Teatro Paulo Claro, na Rua do Açúcar, n.º 37, em Lisboa, até 1 de novembro. Tem sessões à terça e quarta-feira, às 19h00, à quinta e sexta, às 21h00, e ao sábado, às 16h00 e às 21h00.
Com tradução de Ana Frazão, a interpretar estão Catarina Campos Costa, Gonçalo Carvalho, Inês Pereira, Pedro Caeiro, Raquel Montenegro, Tiago Matias e Vicente Wallenstein. No cenário e figurinos está Rita Lopes Alves, na assistência de cenografia, Francisco Silva, na luz, Pedro Domingos e, no som, André Pires. Na assistência de encenação estão Joana Calado e Nuno Gonçalo Rodrigues.