Em 1994, David Mamet realizou Oleanna, adaptação da sua peça do mesmo título, estreada dois anos antes. William H. Macy interpreta um professor universitário à beira de entrar para o quadro e ter um significativo aumento, que se vê acusado, primeiro de assédio sexual, e depois de violação, por uma aluna (Deborah Eisenstadt) frustrada pela forma como ele dá aulas e insatisfeita com a nota baixa que teve. A certa altura, a aluna informa o discente que há “um grupo”, formado por colegas que ela consulta e que a aconselham sobre a forma como o deve confrontar e acusar. Este grupo elaborou também uma lista de livros que quer ver retirados da universidade, e que inclui um escrito pelo professor em questão.

Oleanna é uma rara obra sobre a ideologia “politicamente correta” que então começava a surgir na sociedade e nas universidades dos EUA. Encontramos ecos deste filme de David Mamet no mais complexo Depois da Caçada, de Luca Guadagnino, escrito pela atriz Nora Garrett. E que após Tár, de Todd Field (2022), e Parece que Estou a +, do canadiano Denys Arcand (2023), é mais um título que tem a coragem de refletir sobre o fundamentalismo woke, e a forma como ele se abateu sobre as universidades americanas e instalou um clima de medo coletivo e perseguição e censura política, cultural e da liberdade de expressão, destruindo carreiras e reputações, bem como sobre as derivas do #MeToo.

[Veja o “trailer” de “Depois da Caçada”:]

Julia Roberts interpreta Alma Imhoff, uma respeitada professora de Filosofia da Universidade de Yale, casada com um psiquiatra, Frederik (Michael Stuhlbarg), e à beira de entrar para o quadro. Alma é muito próxima de um brilhante e irreverente colega mais jovem, Hank Gibson (Andrew Garfield), e muito admirada por uma das suas melhores alunas, Margaret (Ayo Edebiri), uma jovem negra lésbica que namora um trans e cujos ricos pais fazem avultadas doações financeiras à instituição. Após um jantar em casa dos Imhoff, uma visivelmente perturbada Margaret confidencia a Alma que Hank a tentou violar após a levar a casa, e que conta com o depoimento dela se denunciar o caso.

Alma interroga Hank sobre o que Margaret lhe disse. Este nega veementemente, revelando à amiga e colega que a aluna plagiou a tese e sabe que ele sabe disso, e é essa a razão da acusação de violação. Hank acaba por ser rapidamente despedido sem que Alma tenha mexido uma palha para o defender, e as relações entre esta e Margaret tornam-se cada vez mais tensas. Entretanto, na noite do jantar, a jovem descobriu em casa da professora documentos pessoais que esta tem escondidos, relativos a um traumatizante segredo de juventude que Alma nem ao marido revelou e a assombra até hoje, e roubou um deles.

[Veja uma entrevista com o realizador:]

Guadagnino começa por mostrar o ambiente de privilégio e conforto, e de arrogância e snobismo intelectual, e a sensação de intocabilidade que reina entre os docentes, o que os leva a ter uma relação de proximidade e até de certa intimidade com os seus alunos preferidos, como se vê na sequência de abertura do jantar. E passa depois a descrever, numa meticulosa e densa abordagem visual e dramática, o deslaçar deste microcosmo institucional, humano e de relacionamentos profissionais e íntimos. Reservando espaço para zonas de sombra e de ambiguidade e até para uma grande surpresa perto do final, que se posiciona a contrapelo dos estereótipos diabolizadores do #MeToo.

À medida que o enredo cerradamente urdido por Nora Garrett se desenrola, vemos como a direção da universidade se vê livre de problemas e de males maiores, sacrificando sumariamente os professores. E como Alma vai perdendo a paciência para a forma como a mimada e complexada Margaret lhe joga as cartadas da vitimização racial e sexual, para os protestos do namorado e dos amigos dela (“Não têm uma causa qualquer para se irem manifestar?”, atira-lhes quando é cercada por eles num pátio) e para a intromissão da vulgata woke na discussão filosófica (ver a sequência em que ela se enfurece e arrasa os argumentos dos alunos durante uma aula). Como Alma diz a certa altura a Margaret: “Nem tudo é suposto existir para nos sentirmos confortáveis”.

[Veja uma entrevista com Julia Roberts:]

Há ainda um momento significativo, em que os docentes vão assistir a uma conferência de um autor e colega árabe sobre o seu novo livro, que postula que o jihadismo e o feminismo são conciliáveis, sem que isto provoque espanto, indignação ou contestação. É uma nota satírica, e o filme teria beneficiado com mais algumas, para aliviar a atmosfera sufocante em que banha. A conclusão de Depois da Caçada, que chega alguns anos após os acontecimentos narrados, é anticlimática, sem o conforto de uma resolução justa ou “redentora”. 

O elo mais vulnerável da fita é Julia Roberts, cujo glamour e estatuto de “estrela” (e a memória de alguns papéis emblemáticos) nos fazem resistir  a que acreditemos sem pestanejar que ela pode interpretar uma professora de Filosofia de uma universidade da Ivy League, e que cita Foucault e Kirkegaard. Embora o encorpamento dramático da história, e as presenças, em redor de Roberts, de Garfield, Edibiri, Chloë Sevigny (esta na psicóloga que não aceita as casas de banho “não binárias” e se admira de ouvir Morrissey num bar de estudantes…) e sobretudo de Michael Stuhlbarg no paciente e compreensivo marido de Alma, que lhe atura o ensimesmamento e percebe à distância quem é Margaret e do que ela é capaz, contribuam para que esta impressão de inverosimilhança de casting se atenue.

[Veja uma sequência do filme:]

É claro que, para quem tem seguido de perto os desmandos e as arbitrariedades perpetradas pelos alunos de extrema-esquerda woke nas universidades americanas, a impunidade de que têm gozado e a cumplicidade cobarde revelada, nem que seja pelo silêncio e pela omissão, pelas suas direcções, Depois da Caçada fica muito, muito aquém da realidade. Mesmo assim, e apesar da contenção e de alguns paninhos quentes, não se pode negar destemor a Luca Guadagnino e a Nora Garrett (e repare-se na hostilidade de boa parte das críticas ao filme agregadas no site Rotten Tomatoes). E não é apenas por homenagem cinéfila que o genérico e a ficha técnica de Depois da Caçada têm a mesma fonte de texto dos filmes de Woody Allen…