O processo que se segue não é novo — aliás, acontece até com alguma regularidade. Estamos à procura de um produto, queremos fazer uma reclamação ou esclarecer uma dúvida e enfrentamos o teste da paciência ao procurar um contacto, um endereço de email para o qual escrevemos e não temos resposta, o telefonema que é atendido porr uma música que se repete e repete. Isto para lá do momento em que temos uma resposta e não ficamos esclarecidos. Esta realidade está refletida na ficção de William Trosper (Tim Robinson), que começa a descobrir uma complexa conspiração numa empresa aparentemente insignificante: um fabricante de cadeiras. É isso que move os oito episódios de The Chair Company, série que acabou de se estrear na HBO Max. Mas atenção: apesar do motor narrativo, a história não é a de uma reclamação online nem de uma organização comercial — é sobre o mundo em que vivemos.
Tim Robinson anda por aí algum tempo. Já passou pelo Saturday Night Live, e ganhou especial notoriedade com uma produção de humor para a Netflix — I Think You Should Leave with Tim Robinson (2019-2023). Os sketches ali apresentados viviam do desconforto, não o mais típico da comédia televisiva, mas aquele que nasce de situações quotidianas e que poucas vezes é devidamente explorado ou esmiuçado. Tim Robinson fez isso por nós ao longo de duas temporadas. O resultado foi ambivalente, mas provavelmente não poderia ser de outra maneira. O propósito deste humor é esta dualidade: por vezes achamos-lhe muita piada, noutras ficamos só confusos, ficamos presos nas entrelinhas.
[o trailer de “The Chair Company”:]
Tim Robinson não é consensual. Não o foi em Friendship, filme de Andrew DeYoung, que protagoniza com Paul Rudd. E não o é, certamente, nesta The Chair Company. William Trosper, o protagonista, trabalha numa empresa que desenha e constrói centros comerciais. A primeira cena é reveladora do que está para vir: Trosper está a jantar com a família e, a dado momento, alguém diz à empregada de mesa que o patriarca tem um trabalho importante, “desenha centros comerciais”. Ela pára, fica a pensar, e chega à conclusão de que nunca entrou num. Trosper indigna-se e rebate a ideia várias vezes, diz-lhe que ela “de certeza já entrou num shopping”, só que eles agora são tão bem desenhados que “por vezes as pessoas nem se apercebem que estão lá”. Ela insiste: nunca entrou num.
Este é um momento de distanciamento geracional. E é esse desajuste que torna tão familiar a obsessão que carregará ao longo dos episódios. O catalisador é uma queda. Durante uma apresentação do novo centro comercial que irão construir, a cadeira de Trosper parte-se quando este regressa ao lugar. Tenta ultrapassar a situação com algum humor, mas sente-se humilhado, foi alvo de risotas. E, para vencer essa frustração/humilhação, resolve começar a reclamar com a empresa que fabrica as cadeiras. O nosso herói da banalidade precisa de ganhar, faz-lhe falta uma vitória e por isso aponta armas a um inimigo.
▲ Tal como "The Rehearsal", "The Chair Company" foge às criações mais previsíveis e procura fazer rir com um quotidiano que não é tangível, mas que está lá
Entra numa espiral. Tem dificuldades em falar com alguém responsável. Não consegue encontrar uma morada que não seja uma fachada. Tudo aquilo que Trosper descobre parece estar a esconder algo. Ao mesmo tempo, é auqilo que nós, espectadores, encontramos no dia-a-dia: sites genéricos, formulários para preencher, descrições vagas sobre as empresas, fotografias duvidosas de pessoas aparentemente responsáveis.
Tudo isto é familiar. E a cada passo de Trosper, o ridículo aumenta. Ele decide seguir cada informação que consegue. A conspiração de The Chair Company é irreal, mas pelo caminho vamos ficando a conhecer a personagem. As pistas que vão sendo dadas indicam que é um homem com problemas, que já causou solavancos na família com outros projetos no passado e que não tem uma relação saudável com as obsessões que acumula — aliás, são obsessões. Até que ponto não é tudo uma fabricação só para se sentir feliz, como se isto fosse um hobby para se refugiar dos seus próprios problemas?
Tim Robinson gere isto muito bem. Tal como fazia em I Think You Should Leave, consegue fazer acreditar que não há muita distância entre o criador e a personagem. Se há ou não, pouco importa, importa aquilo que se vê. Nesse aspeto, Robinson existe numa tradição de comédia clássica, generalista – seja Charlie Chaplin ou Rowan Atkinson enquanto Mr. Bean —, só que a sua comédia não é clássica, e muito menos é generalista.
▲ Tim Robinson gere isto muito bem. Tal como fazia em "I Think You Should Leave", consegue fazer acreditar que não há muita distância entre o criador e a personagem
É estranha? Surreal? Não, é comédia, apenas isso. Mas é preciso aceitá-la. The Chair Company faz-nos olhar para as coisas de forma diferente – não é esse o papel da comédia? – e age, em paralelo com toda a situação, como uma crítica à forma como a sociedade se deixou envolver e resolver neste conjunto de ações genéricas: o problema não é tanto do capitalismo e, sim, de como na realidade é mais fácil estar escondido em fomatações, evitar dar respostas, comunicar bem não comunicando nada, fugir de qualquer hipótese de confronto.
The Chair Company faz-nos acreditar na comédia em 2025. Da mesma forma que The Rehearsal (outra série da HBO Max, esta criada e interpretada por Nathan Fielder) faz. São objetos que fogem às criações mais previsíveis e procuram fazer rir com um quotidiano que não é tangível, mas que está lá. Tim Robinson vive no limite, em vários momentos parece que a coisa vai quebrar, que nos vamos fartar, que tudo vai deixar de fazer sentido. Mas ele encontra-o, prolonga-o, relacionando-o ainda mais com o mundo que encontramos fora da ficção. O real. Nunca mais irá olhar para um site genérico da mesma forma.