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"All's Fair": nem Glenn Close salva isto

Este artigo tem mais de 6 meses

Em valor de produção, do elenco ao guarda roupa e aparato técnico, a série (muito mal) protagonizada por Kim Kardashian terá números astronómicos. Falta-lhe é tudo o resto. Resultado: um desastre.

Kim Kardashian e Naomi Watts, ou melhor, Allura Grant e Liberty Ronson, as protagonistas desta história
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▲Kim Kardashian e Naomi Watts, ou melhor, Allura Grant e Liberty Ronson, as protagonistas desta história

▲Kim Kardashian e Naomi Watts, ou melhor, Allura Grant e Liberty Ronson, as protagonistas desta história

Eu estava tão bem dispostinha. Fiz anos no início da semana — não me entupam a caixa de comentários com parabéns atrasados, deixem lá isso — e foi um bom dia. Fiz uma sessão dupla de cinema numa sala com boas cadeiras e matinés povoadas de reformados privilegiados com uma vida social ativa, que me inspiram. Vi um filme que passadas 24 horas ainda não sei se gostei, e que traumatizou ligeiramente a namorada do meu filho, Bugonia, e outro que reacendeu a chama nunca apagada da minha eterna girl crush, Julia Sorriso-Mais-Bonito-Da-História-do-Cinema Roberts, Depois da Caçada. Fui ao meu chinês favorito, acabei no meu coreano de eleição. Um dia supimpa.

Corta para uma noite no sofá com uma malga de sopa de espinafres a ver a nova série de Ryan Murphy All’s Fair, na Disney Plus. E nem sequer posso exercer represálias sobre o editor, porque fui eu que me propus a ver esta desgraça em três atos. E digo três, porque é o número de episódios servido na estreia. Estou capaz de apostar o dedo mindinho do pé direito em como os sete que se hão-de seguir vão ser igualmente maus.

Não é uma aposta muito ambiciosa, bem sei, mas muito embora All’s Fair me tenha dado ganas de enfiar um garfo de sobremesa no olho, não há aqui nadinha que seja merecedor de sacrifício de monta. E isto apesar de Sarah Paulson, que é absurda de boa, mas não salva a honra da firma. Esta é uma série de advogadas “mulheres que defendem mulheres”, mas faz tão bem ao feminismo como a Ministra do Trabalho “o que estas gajas querem sei eu…” Maria do Rosário Ramalho. Soubesse eu o que sei hoje e mais valia uma maratona do Keeping Up with the Kardashians, do que três episódios disto. Se calhar estou a exagerar, mas isto ainda está muito a quente.

[o trailer de “All’s Fair”:]

All’s Fair começa com um flashback. Dez anos antes, Allura Grant (Kim Kardashian) e Liberty Ronson (Naomi Watts) trabalhavam numa firma de advogados carregadinha de misóginos, ó espanto, e decidiram dar um pontapé na mesa de mogno e abrir a sua própria firma. A advogada sénior Dina Standish (Glenn Close), “aquela que andou para outras poderem correr” (esta expressão dá-me um pouco de náusea, o que a torna absolutamente adequada para a circunstância), apoiou-as a seguir em frente e até lhes deu permissão para levaram uma pessoa da firma, como se elas precisassem desse indulto para alguma coisa, mas enfim.

Ao invés de convidarem outra advogada, escolheram a investigadora Emerald Greene (Niecy Nash) o que provocou uma dor de corno de proporções bíblicas a Carrington Lane (Sarah Paulson). Carrington descontou a raiva na mentora Dina e na decoração do escritório dela, que a tentou acalmar recorrendo a uma citação de Golda Meir “Não ser bonita foi a verdadeira benção. Obrigou-me a desenvolver os meus recursos internos”. E não há nada mais apaziguador para alguém que se está a sentir preterida e injustiçada, do que acrescentar que é um valente estafermo.

A rejeição deu-lhe fogo no rabo e Carrington decide abrir a sua própria firma e promete passar o resto dos seus dias a alimentar com um dieta rica em vitaminas e proteínas este ódiozinho de estimação. Dez anos depois, a firma Granton, Ronson anda Green é um sucesso, como é demonstrado numa cena que leva o conceito de exposição para todo um novo nível: “Então, qual foi o teu caso preferido dos últimos 10 anos?”. Isto não é enfiar informação pela goela abaixo do espectador, isto é um clister.

▲ Glenn Close é sempre incrível, mas aqui parece que está sob o efeito de um anestésico para pós-operatório

Ao longo dos episódios, este trio dinâmico vai resolvendo casos de mulheres que foram olimpicamente lixadas pelos malandros dos maridos, das mais variadas maneiras. Mas elas, como são advogadas boas mesmo boas, demoram menos tempo a resolver litígios de centenas de milhões de dólares do que eu a conseguir sacar a chave móvel digital.

Além do dia-a-dia de causídicas de stilletos, vamos acompanhando o difícil work-life balance destas pobres milionárias… que também têm sentimentos, pensam o quê? A investigadora Emerald tem trigémeos já adultos, concebidos graças a um banco de esperma que ela não é parva nenhuma, e é super sassy e grita imenso e está sempre a dizer que conhece alguém se for preciso dar um “tratamento” a alguém. Uma personagem afroamericana nada estereotipada, não senhor. Liberty Ronson, para além de fazer imensas boquinhas, tem um namorado perfeito, médico e tudo, mas muito receio do compromisso porque, sabem como é, já viu de tudo no exercício da profissão. Os acordos pré-nupciais são o Vietnam dela.

Mas a narrativa principal segue o casamento de Allura com Chase Munroe (Matthew Noszka), uma estrela do futebol americano que na primeira cena em que entra dá um anel de diamantes do tamanho de um porta-aviões à mulher, para logo a seguir percebermos que anda a comer a estagiária da mulher, três prostitutas adolescentes, uma ex-prostituta trans… e eu só vi 3 episódios. Pelo andar da carruagem, no próximo episódio descobre-se que também marcharam os colegas de equipa, as cheerleaders e a mascote.

▲ Não há aqui nadinha que seja merecedor de sacrifício de monta. E isto apesar de Sarah Paulson, que é absurda de boa, mas não salva a honra da firma

Dado o exposto, trocam-se os papéis num volte-face nada previsível, e Allura passa de advogada a cliente, Dina vai defender a sua antiga pupila e a cabra da Carrington vai defender o ex da sua arqui-inimiga, com prazer e júbilo, fornecendo um dos poucos momentos entusiasmastes da série: “Faria tudo por ti. Exceto representar-te. O que não faria, mesmo que estivesse sem um tostão e passasse fome numa esquina, forçada a fazer um broche a um padre com clamídia por uma taça de feijões”.

E sim, leram bem. Kim Kardashian é mesmo a protagonista de All’s Fair. Recapitulando, temos um elenco com: Naomi Watts, nomeada para o Óscar duas vezes, por 21 Gramas e Impossível; Sarah Paulson, que ganhou um Globo de Ouro e um Emmy por The People vs O. J. Simpson: American Crime Story; Niecy Nash, vencedora de um Emmy por Dahmer, and last but never the least, Glenn “F-word” Close, OITO vezes nomeada para os Óscares. OITO. Close é sempre incrível, mas ganhou o estatuto de icónica com a Alex de Atração Fatal. Mas a Marquise de Merteuil de Ligações Perigosas é a minha personagem favorita da diva, devo dizer.

Dito isto, quem é que Ryan Murphy escolhe como protagonista? Kim Kardashian, pois está claro, que recentemente lançou uma linha de cuecas com pelos púbicos. Falsos, claro, para condizer com a própria. Dizer que a performance de Kardashian é um desastre é ser meiga. Dizer que toda a gente à volta dela está muitos furos abaixo do habitual, para que o contraste não seja tão gritante, é pura matemática. Glenn Close quando contracena com ela parece que está sob o efeito de um anestésico para pós-operatório (será que não está? não a ia julgar por isso). Já quando a partenaire é Sarah Paulson, Glenn está ali fresca como uma alface do Lidl. Só uma última descarga de bílis e vou à minha vida: porquê a constante e absolutamente exasperante trilha sonora à la porno dos anos 90? Bem sei que a Kris Jenner é produtora executiva disto (sem comentários), mas o filme caseiro que ela produziu e catapultou a filha para a fama não tinha música de fundo, ao que sei (afinal comentei).

▲ Dizer que a performance de Kardashian é um desastre é ser meiga. Dizer que toda a gente à volta dela está muitos furos abaixo do habitual, para que o contraste não seja tão gritante, é pura matemática

Sou fã de muitas coisas do Ryan Murphy e algumas das suas criações são relativamente elogiadas pela crítica, como o mais antigo Nip/Tuck e os mais recentes American Crime Story e Monster. Mas ele também tem muita coisa que se ama ou se odeia e essas são as que mais me falam ao coração, como é o caso de Glee e American Horror Story, sendo certo que em ambas têm temporadas a mais. Até à data diria que quando Murphy faz bem, faz arrebatadoramente bem. Mas quando faz mal, pelo menos faz bonito, apesar de violento e gráfico e, muitas vezes, provocadoramente gratuito.

Já isto que acabei de ver nem é bonito, nem provoca nada. Quanto muito, uma úlcera no estômago. O enredo é colado a cuspo, as personagens têm a densidade de uma folha de papel vegetal e nem a realização enche o olho. Tudo é rico, tudo é muito, mas tudo é oco. Na indústria do audiovisual, fala-se muito do production value e a série está carregadinha dele. Décors de luxo, um elenco cheio de caras que toda a gente conhece a fazer papéis minúsculos e um guarda-roupa cujo valor é certamente superior ao orçamento anual do ICA. Production value puxadinho upa-upa lá para cima. Só lhe falta tudo o resto.

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