Em 2002, quando Danny Boyle e Alex Garland mediatizavam uma espécie de narrativa de fim do mundo (no filme 28 Dias Depois), assistia-se, logo no início, a uma espécie de código para “quando as coisas correm mal”. A ideia era simples: durante uma experiência aparentemente controlada, se as improbabilidades certas se conjugarem, tudo o que é errado pode suceder. A ideia não era original, mas ressurgia moderna para uma nova geração, aproveitando a linguagem dos videojogos (Resident Evil é um dos títulos óbvios nesta dinâmica). Esse tem sido mais ou menos o padrão dos filmes e séries que exploram a ideia de apocalipse e o resultado final raramente causa surpresa.
Eis que surge Vince Gilligan no meio de tudo isto. Ele sabe como começar séries. Ele sabe como desenvolvê-las depois. O cold opening de Breaking Bad é um dos melhores que existem. Vai contra algumas regras do género, mas diz duas coisas importantes: que o que se segue vai ser selvagem e novo; e que o espectador vai querer saber como é que se chegou à situação em causa. Após 17 anos, ficamos todos contentes por saber que, ao entrar no mundo das histórias pós-apocalíptica, Gilligan volta a brincar com as regras. E com os começos. Assim o faz em Pluribus.
[o trailer de “Pluribus”:]
Vimos sete dos nove episódios (já estão dois disponíveis, depois segue-se 1 por semana), queremos contar ao mundo inteiro muito do que já sabemos sobre Pluribus, mas não podemos. Queremos partilhar, comentar, trocar ideias, mas não nos é permitido (é o preço exigido pelo visionamento antecipado). E esta ansiedade boa, em tempos de estreia, é o melhor que podíamos ter. Esta antecipação é o que faz andar o mundo pop. E fica aqui a garantia: a forma como Giligan dá a volta às expectativas é vigorosa, capaz de convencer até aqueles que são poucos amigos do género. E fá-lo logo ao início, para manter a reputação.
Não há aqui uma empresa maléfica a criar um vírus, não estamos perante a experiência de uma nova arma para ser utilizada em guerra. O propósito até parece benigno. É a vontade humana de ultrapassar limites que está em jogo. Ir mais além. Daí que o início de Pluribus tenha sotaque bem real. Até que… e há poucas coisas melhores do que um bom “até que”.
▲ Eles não percebem porque é que Carol não foi contaminada e irão fazer tudo para tentar perceber porquê
Concentremo-nos em Carol Sturka (interpretada por Rhea Seehorn). Quando a conhecemos, ela está numa apresentação do seu mais recente romance, um novo título numa série de livros de young adult. Parece radiante naquele lugar: ler o livro, assinar exemplares, falar com os fãs, até dar alguma esperança sobre os eventuais desenvolvimentos da história. Percebe-se pouco depois que a realidade é outra: Carol escreve aqueles livros por contrato, reconhece que são péssimos e o que gostava mesmo de fazer era terminar um romance mais sério que tem na gaveta.
Esta será a protagonista de Pluribus, a única pessoa no mundo que não foi contaminada por um vírus que fez da população mundial um conjunto de seres excessivamente otimistas e altamente comprometidos com a ideia de atingir um objetivo coletivo. Eles não percebem porque é que Carol não foi contaminada e irão fazer tudo para tentar perceber porquê. Ela quer distância, quer continuar miserável. Porque prefere aquilo que tem, que é real, ao que os outros têm, que não parece real. É um fim do mundo diferente. Não há zombies, não há pessoas atrás de outras, gente a querer comer-se (literalmente), matar-se e sabe-se lá mais o quê. Carol só quer continuar a ser o que é. Mas os outros, para que o grande plano funcione, precisam que ela esteja com eles.
▲ É a vontade humana de ultrapassar limites que está em jogo. Ir mais além. Daí que o início de Pluribus tenha sotaque bem real. Até que... e há poucas coisas melhores do que um bom "até que"
Não há nada de ridículo nesta premissa. Absolutamente. E os poucos que duvidem, vão mudar de opinião ao ver os dois primeiros episódios, ambos fabulosos. Pluribus conta muitas coisas ao mesmo tempo, seja uma história pós-apocalíptica, onde o fim do mundo fica aquém daquilo que normalmente se vê, seja uma fábula sobre ser diferente e resistir. A série custou muito dinheiro à Apple —alegadamente, uns 15 milhões por episódio — e não é à custa de efeitos especiais ou coisa que o valha. Está tudo nos detalhes que valorizam a narrativa, a dinâmica (como, por exemplo, o início do segundo episódio), e que se justificam porque funcionam. Senhoras e senhores: é preciso escala para tornar os pormenores credíveis.
Quase tudo o que acontece em Pluribus acontece em Albuquerque, no Novo México. Tal como Breaking Bad e Better Call Saul. É o sítio de eleição de Vince Gilligan e essa familiaridade faz com que a série se revele mais com uma história “normal” do que algo próximo de uma distopia, apesar de piscar o olho a muita da boa ficção científica norte-americana escrita durante os anos de paranoia da Guerra Fria.
▲ A série custou muito dinheiro à Apple —alegadamente, uns 15 milhões por episódio — e não é à custa de efeitos especiais ou coisa que o valha. Está tudo nos detalhes
A Apple TV+ tenta há muito justificar a existência do seu serviço de streaming com subscritores (que não tem, pelo menos em número que pague os custos). Tem qualidade na programação, um rácio invejável quando comparada com a concorrência. Pluribus é mais uma para adicionar à lista. A narrativa pode ler-se como uma espécie de crítica a este próprio sistema. O espectador não procura realmente os bons programas, fica onde está mais gente, onde passam as coisas de que se falam. À Apple nada lhe valem os prémios e as séries de qualidade se nenhuma série entrar neste zeitgeist de consumo de ficção. Nenhuma, até hoje, conseguiu. Não será Pluribus a fazê-lo. Vince Gilligan é muito bom, mas nunca foi senhor para as massas. Ou então, este será mais um preconceito que o americano vai tratar de desfazer.
Pluribus não é “só” (como se isso fosse pouco) uma série muito boa: é um dos melhores retratos da sociedade contemporânea, de comportamentos de grupo e do que realmente significa não estar alinhado. Não é ficção científica, mas usa os códigos do género para chegar onde quer. E não é, realmente, pós-apocalíptica. Contudo, encará-la como tal convida a assumir melhor os riscos que uma série assim toma. São muitos e funcionam. Pelos episódios já vistos, Vince Gilligan encontrou outra vez a fórmula mágica para nos agarrar a uma história.