O Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, encerrado desde 2022 para obras de remodelação profundas, decidiu colocar a “Arqueologia na Rua”, com a inauguração de um mural onde estão representadas obras do acervo daquele espaço museológico.

Em 2021, quando a equipa que gere o museu soube que haveria uma intervenção no edifício, no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), começou a ser preparada “uma filosofia de trabalho para os anos em que o museu estivesse encerrado”, contou à Lusa o diretor, António Carvalho, recordando que uma das decisões tomadas foi que “o museu estaria ‘aberto para obras'”.

“Não podemos, em circunstância alguma, impedir, desconsiderar ou descuidar de manter a atenção e a relação com o público. Isto é central para nós, desde o primeiro dia em que encerrámos, a 19 de abril de 2022”, afirmou.

O projeto “Arqueologia na Rua”, inaugurado esta quarta-feira, “insere-se nessa filosofia”, que inclui também “exposições noutros locais, a escuta externa ao programa museológico, que terá outras dedicadas ao projeto de arquitetura e ao programa expositivo, e a possibilidade de visitas, para núcleos de público que têm que ver com arqueologia ou património”.

O “Arqueologia na Rua” materializou-se no tapume, com 228,89 metros, que circunda o Mosteiro dos Jerónimos, onde se situa o Museu Nacional de Arqueologia (MNA), estendendo-se desde o Museu da Marinha até à entrada para o claustro dos Jerónimos.

Com “vários níveis de leitura”, sendo visível por quem circula nos comboios da linha de Cascais, por exemplo, os textos do mural estão escritos em várias línguas, a pensar nos turistas que frequentam aquela zona da cidade.

No mural estão representados bens culturais que integram o acervo do MNA.

Na zona junto ao Museu da Marinha podem ver-se “bens relacionados com o mundo náutico e subaquático, ou que se referem ao mar”. Já a área que cobre a fachada do museu é dedicada a “bens culturais do território português, mas também de outras paragens para mostrar que muitas civilizações e muitas culturas vivem nas coleções do museu”.

Na parte junto à igreja dos Jerónimos, igreja de Santa Maria de Belém, está representado “um conjunto de bens culturais de temática religiosa, relacionados com o Cristianismo”.

Estão disponíveis visitas guiadas ao mural. “O nosso Serviço Educativo passa a fazer as visitas na rua, quando estiver bom tempo”, referiu António Carvalho, explicando que há ainda a possibilidade de os visitantes verem representações dos bens numa página digital.

“Ou seja, um gémeo digital deste mural”, disse.

Além disso, o MNA está também aberto a receber “propostas de investigadores, e de pessoas amigas do museu”, que se proponham a organizar visitas.

“E nós também apoiamos essas visitas”, disse.

Com o mural, o MNA passa a estar ‘aberto’ 24 horas por dia, algo que para o diretor do museu “permite manter a ligação viva com a comunidade”.

“São formas que encontramos de comunicação do museu e das suas coleções para o período em que temos que estar encerrados ao público”, reiterou.

O MNA, “um museu de territórios, que não se esgota no seu espaço”, está também a trabalhar com autarquias portuguesas, numa forma de mostrar aos cidadãos o acervo do museu, mas “em diálogo com outros ou em outras propostas expositivas”, dado que no edifício do museu tal não é possível.

Para António Carvalho, as obras no MNA têm “um sabor agridoce”.

“A parte doce é vermos o museu em obras e caminharmos para um museu novo. Este museu nunca tinha tido um programa de obras desta dimensão. Mas queremos devolver o museu à fruição pública, queremos o museu novamente aberto”, explicou.

O diretor recorda que o MNA, alvo de uma “obra de remodelação integral do edificado e de completa reprogramação expositiva”, tinha “muito público antes de encerrar”.

As obras do PRR no MNA deverão terminar em meados de 2026, mas a remodelação daquele equipamento inclui ainda uma segunda fase de obras, não havendo data prevista de reabertura.

De acordo com António Carvalho, “as empreitadas estão a cumprir-se”.

A primeira fase, com duas empreitadas — “uma no interior, coberturas e reforço estrutural e outra de limpeza e conservação das fachadas” — é financiada pelo PRR e está calculada em cerca de 24,5 milhões de euros.

A segunda fase, “para fechar a obra” e que está calculada em 23 milhões de euros, terá outra fonte de financiamento.

Em setembro, numa visita às obras, a ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes, referiu que “obviamente” o Governo irá “garantir financiamento” à segunda fase.

Na semana passada, em entrevista ao jornal Expresso, reiterou que o Governo vai “obviamente procurar garantir financiamento”.

“Seja por via de orçamento de Estado, seja a partir de fundos europeus, o Museu Nacional de Arqueologia, naturalmente, terá o financiamento para que possa acontecer a segunda fase e que possa reabrir ao público”, disse.

O PRR é um mecanismo de financiamento, de âmbito europeu, para ser aplicado em reformas estruturais em resposta à crise pandémica provocada pela covid-19.