Depois do regresso às vitórias no Campeonato, a tentativa de manter os triunfos na Liga Europa. A viagem do Benfica a Itália para defrontar o AC Milan mostrou então um Benfica sem medo de rodar praticamente toda a equipa para continuar nos bons resultados. Descansou alguns titulares, deu minutos a elementos com menos minutos, não perdeu competitividade. Esse foi o principal ponto além do resultado na estreia da Liga Europa: mudar quem entra em campo sem alterar o que se faz em campo. E era também isso que projetava uma nova “revolução” na equipa inicial na receção aos escoceses do Celtic, quase como um daqueles programas “Novas Oportunidades” para quem pretende ganhar outro espaço nas opções mais habituais de Marco Silva.

Benfica-Celtic. Jhon Durán inaugura o marcador de penálti (1-0, 5′)

“O nosso jogo em Itália apresentou características diferentes mas exigiu ajustes táticos que funcionaram muito bem e deram excelentes respostas. O próximo mês e meio, até à paragem, trará oportunidades semelhantes de rotação. Com três ou quatro jogos consecutivos, poderemos avaliar com precisão se essa realidade se consolida. O nosso trabalho consiste em garantir que a rotação de jogadores mantenha a equipa competitiva, transformando a entrada de novas peças num impacto positivo, aproveitando a oportunidade para dar resposta ao serviço do coletivo. Mudar nove ou dez jogadores acarreta sempre riscos e quebra de rotinas essenciais. No entanto, os jogadores estiveram irrepreensíveis nesse momento, oferecendo respostas de alto nível tanto ao nível tático e coletivo como individual”, destacara o técnico, que olhava também para esta receção ao conjunto britânico como uma possibilidade de dar mais um passo sólido pelo top 8 da prova.

“É um jogo com contornos diferentes em relação ao Hearts, estando numa fase diferente da Liga Europa. A dimensão do Celtic enquanto clube, aquilo que são capazes de fazer e como estão habituados a jogar sempre para ganhar, pelo seu historial em termos de títulos e domínio no futebol, fala por si. Vamos estar prontos para um jogo em que queremos dar continuidade àquilo que foi o começo. Já jogámos um bom número de jogos nesta competição, com a primeira fase a eliminar, com exigências acrescidas para a fase da Liga Europa, que neste momento é diferente. Jogando em casa e com o apoio dos nossos adeptos, temo-nos sentido cada vez mais confortáveis. Percebe-se que há uma ligação cada vez mais forte entre a equipa e a massa associativa e, naturalmente, quando isso acontece, tornamo-nos muito mais fortes”, acrescentara.

Em paralelo, a meio da conferência de imprensa, Marco Silva foi também convidado a fazer uma classificação do “carro” do Benfica, depois de Rui Borges ter falado de um Sporting que evoluiu de Peugeot para Mercedes na Liga dos Campeões mesmo não sendo um topo de gama. Ao contrário do próprio homólogo leonino, que se deixou levar pela analogia, o técnico dos encarnados preferiu fazer uma curva para o lado e fugir ao tema, referindo também nessa mesma resposta algo que há muito tinha apontado: não podendo estar na Liga dos Campeões, e não sendo o único, o Benfica é e quer ser um candidato a atingir a final da prova.

“Não vou entrar em marcas de carros, não podemos… Temos um acordo com uma marca de carros e não podemos ir por outras… Disse na apresentação que tínhamos seis jogos para provar que poderíamos ser ou não candidatos a algo importante nesta prova. Começámos com o pé esquerdo, pelo primeiro mau resultado que tivemos, mas a realidade é que desde aí temos estado num momento ascendente. Estamos por mérito, e porque era nossa obrigação, na primeira fase da Liga Europa. Começámos bem mas até para provarmos que queremos e que podemos chegar à final ainda há muito caminho por fazer. Estão lá quatro ou cinco grandes clubes a nível europeu mais habituados à Liga dos Campeões do que à Liga Europa”, reforçou.

Não houve tantas mudanças como previsto mas nem por isso Marco Silva deixou de mexer em todos os setores da equipa, com as entradas de Trubin, Lenglet, Aursnes, Lukebakio, Sudakov e Jhon Durán. E, à semelhança do que tinha acontecido em Milão, a resposta não podia ser melhor, com vários jogadores que foram chamados a mostrarem que o complicado nesta fase é definir um onze tipo. Contudo, e entre um jogo que acabou por ser ainda melhor do que se pensava no reencontro de dois históricos do futebol europeu na Liga Europa, houve muito mérito encarnado entre o demérito dos escoceses em termos defensivos e na forma como perceberam mas não conseguiram travar as dinâmicas ofensivas do Benfica. Em vez de católicos, a alcunha pela qual são conhecidos, foram sobretudo anjinhos e voltaram a ter um pequeno diabo à solta chamado Prestianni, com mais duas assistências e várias jogadas antes de “rebentar” em termos físicos.

A par de tudo isso, o Benfica entrou a ganhar e de uma forma que podia contagiar todos os jogadores: Jhon Durán foi pontapeado por Murray na área após chegar mais cedo ao lance, agarrou na bola sem que se visse se ia ou não marcar o castigo máximo (podia estar apenas a fazer tempo para um companheiro, como se vê de forma cada vez mais frequente), colocou-a na marca dos 11 metros e fez o 1-0 à Panenka com uma confiança ao alcance de poucos (5′). Meio caminho estava “desbravado” mas o Celtic fez questão de mostrar que não tinha mesmo nada a ver com o Hearts que passou pela Luz esta temporada, deixando uma ameaça à baliza de Trubin num remate de Högh que voltou a obrigar os encarnados a colocarem de novo os pés na terra. Mais: a capacidade de circulação dos escoceses fazia com que o conjunto da Luz tivesse mais momentos do que era esperado a defender num bloco médio de forma paciente até recuperar e procurar as transições.

O jogo ficou durante alguns minutos sem balizas e, se não fossem os abanões de Prestianni no encontro da esquerda para o meio, mais teria ficado. Com a organização defensiva dos escoceses a fechar bem todos os espaços entre linhas e as combinações pelos corredores laterais, foi o internacional argentino que conseguiu fintar a monotonia em mais um momento da esquerda para o meio mas o remate em arco saiu por cima (19′). Mais uma vez, por mais experiências que fossem tentadas, foi do laboratório encarnado que veio o segundo golo: jogada de envolvimento na esquerda com Sudakov a criar o arrastamento, Dahl e Prestianni a ficarem em superioridade e o argentino a jogar por dentro para fazer o cruzamento que encontrou Bah sozinho ao segundo poste para o 2-0 (23′). Era um lance muito parecido ao golo do dinamarquês no Dragão, era uma jogada daquelas trabalhadas nos treinos – e os festejos de Marco Silva mostravam tudo…

Não estando decidido, o encontro estava “encaminhado”. No entanto, e naqueles apagões que não são muito frequentes mas que continuam a acontecer a espaços na equipa encarnada, o Celtic teve uma oportunidade flagrante para reduzir a desvantagem e reabrir a partida, com Högh a desviar ao segundo poste de primeira à base do ferro da baliza de Trubin antes da recarga de Camilo Durán de pé esquerdo que também bateu no poste (28′). Ficava a ameaça dos escoceses perante um certo adormecimento do Benfica, que conseguia ir bloqueando o jogo contrário pelo corredor central tendo João Palhinha como “carro-vassoura” ao meio mas deixando algumas vezes que o Celtic criasse superioridades numéricas nos flancos para colocar na área. Era isso e só isso dentro de uma partida onde a eficácia do Benfica foi esmagando: Dahl recuperou uma bola a meio-campo, Prestianni avançou antes de fazer a assistência e Jhon Durán, na área, atirou para o 3-0 (36′). Prestianni e Kieran Tierney ainda tiveram remates com perigo mas o resultado ao intervalo estava escrito.

Martin O’Neill fez uma dupla alteração ao intervalo abdicando de Högh para a entrada de Haissem Hassan, procurando maior mobilidade na frente com Camilo Durán a jogar mais por dentro. O avançado egípcio não demorou a mostrar ao que vinha, tendo um bom lance descaído sobre a direita a passar por Dahl e a atirar para defesa fácil de Trubin (50′), mas seria apenas uma exceção perante a forma como o Benfica conseguia organizar-se em termos defensivos, com grande parte do caudal ofensivo a cair na esquerda mas com João Palhinha a cair mais nesse flanco para salvaguardar a ajuda a Dahl em transições ou ataque organizado. A pressão fazia efeito, Prestianni teve um remate em arco para defesa de Sinisalo, Lukebakio também tentou de fora ao lado mas uma distração exatamente no momento que melhor parecia apreendido acabou por reabrir em parte o encontro, com Haissem Hassan a assistir Camilo Durán na área para o 3-1 (63′).

Marco Silva percebia que era necessário mexer algo para evitar calafrios inesperados na parte final. Primeiro lançou em campo El Karouani (Dahl já tinha amarelo além do desgaste físico) e Echeverri, depois foi mesmo à artilharia mais pesada com Schjelderup e Pavlidis. No entanto, e para quem procurava um impacto mais imediato, a quebra do Benfica fez com que esse efeito se sentisse, com o Celtic a ter mais uma oportunidade de ouro para reentrar de vez na partida com um remate na área de pé esquerdo que bateu no poste (73′) e os encarnados a responderem de rompante a esse “estímulo” com nova tentativa de Schjelderup ao poste (74′). Os escoceses estavam na frente por 3-1 nas bolas ao poste, os encarnados lideravam por 3-1 o marcador. Ainda assim, ficava essa ideia de que seria complicado o encontro terminar só com esses golos.

Afinal, era só mesmo uma “ideia”. Circati, acabado de entrar, teve um corte providencial a evitar aquilo que parecia o 3-2 certo de Osmand na área (82′) mas o Benfica foi depois tentando colocar algum “gelo” no jogo pela forma como o Celtic não dava grande margem para as transições que já tinham existido no segundo tempo. Se ao intervalo havia aquela ideia de exibição “esmagadora”, a segunda parte deixou outra imagem diferente, menos conseguida, capaz de puxar por assobios em alguns momentos por parte dos adeptos mais impacientes. Foi quase como se as facilidades conseguidas (mas também “provocadas”) tivessem deslumbrado os encarnados, que não conseguiram resistir às melhorias da formação escocesa e podiam ter deixado o encontro resvalar para uma zona perigosa de um golo de diferença. No entanto, a última imagem acabou por ser diferente, com Pavlidis a marcar o 4-1 na sequência de um grande passe da defesa de Tomás Araújo (89′) antes de nova bola no ferro do grego já em período de descontos (90+2′).