A palavra “urchin” que dá título a esta estreia na realização do ator inglês Harris Dickinson (Triângulo da Tristeza, Iron Claw, Babygirl) significa, em inglês, “criança pobre, vadia ou maltrapilha”, e tem fortes e imediatas conotações dickensianas. Embora já não seja uma criança, o protagonista de Urchin-Pelas Ruas de Londres, Mike (Frank Dillane), um jovem sem-abrigo e consumidor de droga, poderia perfeitamente — e tirando o seu apego aos estupefacientes — ser uma personagem de um romance de Charles Dickens, de tal forma anda ao Deus-dará pelas ruas da capital inglesa, vivendo da caridade alheia, de dinheiro cravado a outros que estão pouco melhor do que ele ou então de pequenos furtos.
[Veja o “trailer” de ““Urchin — Pelas Ruas de Londres”:]
Pouco depois de o conhecermos, Mike comete um ato ignóbil: agride uma pessoa que o ajudou a sair de um briga e lhe vai comprar comida, para lhe roubar o relógio e o ir vender de imediato. Dickinson não é condescendente para com a personagem e não mendiga a nossa pena para ele, e Mike é preso pouco depois, para repetir um ciclo com o qual já é familiar. Algum tempo na cadeia, desintoxicação, liberdade e encaminhamento para os Serviços Sociais, que lhe arranjam um quarto e um emprego, a trabalhar na cozinha de um hotel. Quanto tempo irá ele aguentar até se ir abaixo e voltar à mesma rotina de droga, desemprego, rua e uma existência precária e delinquente?
[Veja uma conversa com o realizador e o ator:]
Mike é esperto e desembaraçado, tem sonhos e ambições (abrir um negócio de limusinas), mas é também fraco, de pouca confiança e instável. Tem por si a rede de apoios e estímulos que o Estado lhe estende, e a simpatia do seu patrão e dos colegas, mas há algo nele de autodestrutivo que o parece levar, inevitavelmente, a perder o bom senso e desesperar de si mesmo, a reincidir nos mesmos erros e comportamentos comprometedores, e a perder de novo o pouco que conseguiu de bom e de seguro. O filme não o desculpa nem estigmatiza a “sociedade”, e não oferece explicações ou justificações prontas-a-usar. Mike parece ser daquelas pessoas condenadas a cair repetidamente pelas brechas da vida, até um dia lhe acontecer o pior.
[Veja uma sequência do filme:]
Urchin — Pelas Ruas de Londres incorpora-se numa longa tradição de realismo austero e direto, encardido e cru, do cinema e da televisão britânica. E é muito difícil não pensar em Mike Leigh e muito especialmente em Ken Loach a seu propósito. O gesto cinematográfico aparentado com o deste e as interpretações naturalistas estão lá, embora o filme se situe como que num limbo entre o documentário ligeiramente encenado e a ficção plena, faltando-lhe a substância e o pulso dramático que distinguem e dão músculo narrativo, reverberação emocional e arcaboiço social ao cinema daquele, quando não abusa da militância comicieira.
Pese embora a sinceridade da abordagem de Harris Dickinson (que também aparece brevemente a interpretar um sem-abrigo que é hostil a Mike e que este teme), e o seu desejo de autenticidade sem voyeurismo miserabilista ou demagogia de sermão “social”, Urchin — Pelas Ruas de Londres é muito incidental e impressionista, frágil como a sua personagem principal, e o realizador permanece à sombra de nomes maiores que ele. Aguardemos por um segundo filme para percebermos melhor que caminhos Dickinson quer seguir.