[AVISO: se não quer saber absolutamente nada sobre os primeiros quatro episódios da quinta temporada de “Stranger Things”, não leia]
Se eu fosse dessas que acredita em karma, destino ou mercúrio retrógrado (imagino sempre um termómetro de vidro à antiga, a pedir uma mil nove e vinte ao balcão e a dizer “Isto o que faz falta é um Salazar em cada esquina), diria que alguma coisa boa devo ter feito, para o Universo me ter devolvido esta dádiva. Como escrevi aqui no início da semana, na minha reflexão sobre o sucesso de Stranger Things, tinha deixado parte da quarta temporada no fundo de uma prateleira do frigorífico que é o meu perfil da Netflix, onde tenho uns quantos tupperwares com restos que um dia hão-de dar jeito. Dei conta dos 3 últimos episódios aqui há uns dias, e não só me soube pela vida, como foi a entrada perfeita para o menu de degustação que aí vinha: a quinta e última temporada da saga de Eleven e os amigos.
Não podia ter vindo mais a calhar, porque a penúltima temporada acaba com um cliffhanger e eu fiquei mais pendurada que um Menino Jesus ou um Pai Natal naqueles panos vermelhos que por aí se veem. Hawkins estava o chamado fim do mundo em cuecas e eu não teria estrutura emocional para esperar TRÊS ANOS para saber o que é que acontece a seguir. Quer dizer, não ia falecer, que acho que nunca ninguém faleceu de cliffhangerite aguda, mas ia-me custar horrores. Mas o sol brilhou para mim e passado menos de uma semana, tive direito a uma nova dose acabada de sair do forno. Para além de que ter o mil-folhas de universos que é Stranger Things fresquinho na memória pelo recente visionamento, caiu que nem ginjas.
Eu tinha uma vizinha quando era gaiata, a Dona Olinda, que quando lhe dava a dor ciática dizia à minha mãe para apanhar a roupa, porque era certinho que ia chover. O Will é tal e qual. A última temporada acabou com o nosso cabeça-de-tigela agarrado ao cachaço, que é sinal de tsunami de fezes vindo do Mundo Invertido. E bem dito, bem feito. Mal ele põe a manita na cervical, começa a chover cinza. E o nosso grupo, que ainda agora se estava a abraçar e a celebrar ter escapado com vida às últimas patifarias do Vecna e dos seus muchachos, encontra-se no topo da montanha com vista privilegiada para um pot-pourri de catástrofes “naturais” que está a acontecer na cidade, entre terramotos, incêndios e crateras a regurgitar lava.
Feito o previously, corta para 3 de novembro de 87. Fun fact: faço anos a 3 do 11, portanto, neste dia completei 8 aninhos. Ainda me lembro, como se fosse hoje. As minhas coisas favoritas eram, por ordem crescente: pentear o meu Pequeno Pónei, colecionar blocos de folhas perfumadas e ver televisão. Vai-se a ver e não evolui muito: adoro unicórnios, tenho gavetas a abarrotar de cadernos de todos os tamanhos e feitios e, bom, quanto à televisão, acho que está à vista.
▲ Pais que fazem tudo para proteger os filhos, que às vezes acabam por ser os salvadores dos pais. Tudo coroado pelo propósito mais consensual de todos: salvar o mundo. Conhecem outro mais unificador? Diga-me um!
Mas voltando a Hawkins, a cidade está de quarentena e com um rácio civil/militar que não indicia nada de bom. Os Byers estão a viver com os Wheelers e convivem amigavelmente, na medida do possível. Assim que a câmara bate em Holly, a irmã mais nova de Mike e Nancy (que parece uma boneca, oh raça da miúda) dá para perceber que ela vai ter um papel importante neste último tomo e mais não digo. Dizer que o elenco antes infanto, agora juvenil, passou por um glow up considerável é factual, até a tigela do Will melhorou. Mas como para toda a regra há uma exceção, a fava capilar saiu ao Dustin. Mas sejamos honestos, um mullet com permanente nem o Pedro Pascal safava. E daí…
E o que é que os putos andam a fazer, lookinhos à parte? Robyn, Steve e Jonathan trabalham na rádio dirigida por Nancy. O Coronel Sullivan, o vilão de farda que se segue, ainda não conseguiu apanhar a Eleven e tem a Dr. Kay à perna. Uma cientista/militar, interpretada pela icónica Linda Hamilton a.k.a. Sarah Connor (é descabida a quantidade de vezes que eu vi o Judgement Day), que passa a vida a enxovalhar Sullivan e os seus homens, porque “precisa da rapariga” e cheira-me que não é para a convidar para um chá e bolachas. O triângulo Jonathan-Nancy-Steve está de boa saúde e recomenda-se, embora deva confessar que a mim já me enjoa um nadinha.
O Dustin foi o último do grupo a ter dentes e também o último a deixar-se levar pela rebeldia da adolescência. Estarei a ser injusta, porque o problema do nosso querido Dustin não são as hormonas, mas o sentimento de injustiça relativamente à condenação pública do Eddie e o circo de pânico satânico à sua volta. A Max está no mesmo sítio onde ficou, não vou dizer mais nada para evitar spoilers, e a carinha do Lucas é de dar dó. O Murray anda, qual Paco Bandeira, armado em contrabandista não de amor e saudade, mas de armas e peças e pecinhas para as engenhocas que eles inventam para resolver a coisa de uma vez por todas. Por falar em amor, o Hopper e a Joyce estão num mel para quem está à beira do fim do mundo que só visto e a cratera no casamento de Mr. e Mrs. Wheeler cresce a olhos vistos, regada a álcool e ressentimento.
E finalmente, a nossa protagonista. A Eleven está mais gira e mais forte do que nunca, graças a um circuito que o Hopper lhe montou tipo American Ninja Warrior, um estágio para o dia em que se vão voltar a defrontar com o Vecna. Vai-se a ver e esse dia chega mais cedo do que eles estavam à espera. E eu também. Não há aqui lume brando, se os criadores de Stranger Things não tirarem o pé do pedal até ao fim, não sei se não tenho que começar a por um comprimido debaixo da língua antes de carregar no play.
Não vou avançar com muitos pormenores, porque não vos quero estragar o divertimento, nem retirar um pingo da adrenalina que senti ao longo destes 4 primeiros episódios. Já os capítulos 5, 6 e 7 estreiam na madrugada de 25 para 26 de dezembro, quando ainda estiverem a vaporizar açúcar e canela, e o capítulo final à 01h da manhã de dia 1 de janeiro, desejavelmente antes dos efeitos de Raposeira e Aperol Spritz (que deve ser feito à base da gosma dos Demogorgons, há alguém que goste disto mesmo a sério?).
▲ A Eleven está mais gira e mais forte do que nunca, graças a um circuito que o Hopper lhe montou tipo American Ninja Warrior, um estágio para o dia em que se vão voltar a defrontar com o Vecna
Este primeiro quarteto augura tudo de bom, com uma realização irrepreensível, um elenco a entregar tudo, de forma transversal, e a música a ser muito mais do que pano de fundo. Mil coisas a acontecer em sucessivos planos mirabolantes que têm tudo para dar errado, que pode ou não ser o exato motivo para darem certo. Amigos que a tempos não se podem ver, mas que arriscam a vida uns pelos outros sem pensar duas vezes. Pais que fazem tudo para proteger os filhos, que às vezes acabam por ser os salvadores dos pais. Tudo coroado pelo propósito mais consensual de todos: salvar o mundo. Conhecem outro mais unificador? Diga-me um!
Um elenco carregado de baddies: a Eleven (Millie Bobbie Brown) e a Joyce (Winona Rider), a Nancy (Natalia Dyer) e a mãe Karen (Cara Buono), a Robin (Maya Hawke), a Max (Sadie Sink), a Erica (Priah Ferguson) e a vilã, até ver, Dr. Kay. São muitas e não é dizer pouco. Tenho que referir, claro, porque o equilíbrio é tudo, os belos momentos de comic relief. Como quando a mãe do “Deep Shit Dereck” (só a alcunha vale ouro), diz à filha “Sê bem educada. A não ser que seja um mórmon ou um democrata”. Ou a escolha do tema para lançar na rádio quando for hora de avançar para o Mundo Invertido (o Depois do Adeus deles, portanto): Up Side Down, de Diana Ross. Que ainda por cima é um malhão.
Alguém que não fique emocionalmente envolvido, é marcar um eletrocardiograma ASAP. Mais complexa, tensa e violenta, sem deixar de ser enternecedora, engraçada e humana. Impossível não carregar no “Próximo Episódio”nesta derradeira, até esgotar esta dose. Acabei de queixo caído. Nunca mais é Natal.