Foi no mês de julho, no ano da graça de 2016, que as luzes de Natal se acenderam na parede de uma casa em Hawkins. Foi um verão de fenómenos nunca antes vistos em Portugal. Os termómetros registaram o verão mais quente das últimas décadas, o Éder registou uma nova variedade de melon e as redes sociais registaram um tsunami de “marselfies”. Curiosamente, a Netflix lançava uma série que cheirava a vintage, tinha um aspeto retro, apelava e, talvez, quem sabe, seja esta uma das explicações para o fenómeno extremamente rentável em que se transformou Stranger Things. Agora que a plataforma se prepara para lançar o capítulo final desta saga (na madrugada de quarta para quinta, 26 para 27, à 01h da manhã), não venho fazer um recap, até porque há todo um mundo de vídeos no YouTube a fazê-lo por mim, em detalhe. Se tivesse que fazer um previously de uma só frase, seria qualquer coisa como: “No final da temporada, os putos salvaram o Mundo! Afinal não, porque o Will está com uma impressão na cervical…”. É isto, vezes 4 temporadas.
Pode parecer que estou a ser simplista, porque estou, e que os criadores Matt e Ross “The Duffer Brothers” não inventaram propriamente a roda, porque não inventaram. Mas que resulta, resulta e o saldo da conta bancária deles é um polígrafo que não engana.
[o trailer da primeira parte do final de “Stranger Things”:]
Não que eu seja preguiçosa (tenho um buffet “all you can eat” de defeitos e este não é um deles), mas, por acaso, tenho a bíblia do projeto e os manos sabiam muito bem o que estavam a fazer. Para quem não sabe, a bíblia de uma série é a apresentação com toda a informação sobre o formato e é usada como documento de venda. Partilho convosco um excerto bastante elucidativo daquelas que eram as intenções dos autores: “O sentimento de medo e deslumbramento de Eliiot, enquanto se aproxima da cabana rodeada de nevoeiro em E.T.… O pavor impotente do Chief Brody enquanto vê um rapaz e a sua jangada a serem arrastados para debaixo de água por um monstro nunca antes visto em Tubarão… a televisão rachada em Poltergeist… o horror da gargalhada de palhaço em It… a amizade e a aventura em Stand By Me…”
Eles prometeram, eles cumpriram. A saga de Hawkins é isto tudo. Uma fórmula testada e vencedora, em particular nos anos 80, como provam os referidos títulos ou, por exemplo, Os Goonies. Um núcleo de miúdos a resolver um mistério com ares de teoria da conspiração que parece fruto da imaginação, mocas de açúcar e muito tempo livre da canalhada, mas vai-se a ver e eles é que toparam os mauzões, apanham-nos com a boca na botija e salvam o dia, enquanto os pais estavam alapados no sofá a olhar para o televisor descansados e aborrecidos da vida, crentes que aquele monte de almofadas cobertas por um edredon eram as suas crias a dormir o sono dos inocentes.
▲ Um núcleo de miúdos a resolver um mistério com ares de teoria da conspiração que parece fruto da imaginação, mocas de açúcar e muito tempo livre da canalhada
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O que é que sucede? Os espectadores mais velhos reveem-se naquele bando e os mais novos querem ser aquele bando, o que resulta num público-alvo multigeracional (inserir som de máquina registadora).
O mercado da nostalgia tem vindo a ser bastante ordenhado, há um revivalismo em cada esquina e a década de 80 tem sido umas das suas tetas mais prolíficas. Não sei se é dos penteados regados a laca extra-forte, se é dos sintetizadores omnipresentes, se é o hiperconsumismo da época que nos deixou carregadinho de referências pop, logo há um inventário maior para revender. Lá que vende, vende. E Stranger Things tem uma primorosa direção de arte, figurinos, cabelos… e que cabelos, com uma banda sonora que é a mais poderosa máquina do tempo.
Mais uma vez, os mais velhos vão buscar as fotos ao baú e mostrar que também usaram uma daquelas poupas que desafiavam as leis da física e os mais novos aproveitam para fazer o que fazem melhor: gozar com os pais, apesar de quererem imitar a malta cool da série. Vai daí, a indústria retira elementos daquela estética, bota-lhe um tunning para parecer datado e fresco ao mesmo tempo, o baú da moda dá a volta mais uma vez e a roda do capitalismo gira. Já para não falar não de uma mina, mas de um arranha-céus à la Dubai que foi o merchandising da série. Atenção, que não estou a falar de um lugar de superioridade moral: eu tenho uma caneca da Barb na secretária, a minha filha tem um fileira de Pops na estante.
▲ A realização é na batatinha, os efeitos especiais são avassaladores e o elenco é do caraças (na foto: Millie Bobby Brown como "Eleven")
E este terreno comum é mais uma vez um ponto a favor: é difícil sentar adolescentes e pais num sofá, à volta de um único ecrã, sem telemóveis no caminho, numa experiência comum, prazerosa para todos. Isto vale ouro para pais que têm memórias dessa experiência partilhada, a ver o McGyver ou Um Anjo na Terra (contém referências autobiográficas, sim). E de bónus, tivemos a oportunidade de ver aqueles miúdos-atores-estrelas a crescerem à frente dos nossos olhos ao longo da série e eu acredito no poder desse apelo emocional. Ou então sou só eu que sou uma grandessíssima lamechas.
É claro que nada disto funcionaria sem um boa história com um universo apaixonante, que nos espeta uns cagaços e nos emociona quando aqueles miúdos ficam com o queixo a tremer e de lágrima no olho, que nos põe sentados na beira do sofá, porque aprendemos logo no início que de vez em quando há mesmo baixas a registar. Mas também nos provoca um “aaawwww” quando assistimos às paixonetas a acontecerem e a provas de amizade a serem dadas. A realização é na batatinha, os efeitos especiais são avassaladores e o elenco é do caraças. E é claro que ir buscar caras de posters dos anos 80, como é o caso da Winona Rider e do Mathew Modine (e da Linda Hamilton na temporada que se segue), é muito bem jogado. E a música, senhores, a música. Toda uma nova geração que fez disparar as métricas da Kate Bush no Spotify e só lhes faz é bem.
▲ Se Stranger Things é perfeito? Não acho que seja. A primeira temporada está lá perto, mas confesso que se tornou um pouco repetitivo e quando tentou ir para fora de pé não foi eficaz
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Se Stranger Things é perfeito? Não acho que seja. A primeira temporada está lá perto, mas confesso que se tornou um pouco repetitivo e, vou-me já contradizer a seguir, quando tentou ir para fora de pé não foi eficaz, na minha opinião. Como aconteceu na segunda temporada, na qual Eleven vai para Chicago — o que é que foi aquilo? Ou na Rússia, na quarta temporada, naquele enredo arrastadíssimo. Eu quase que desisti aí e confesso que deixei a quarta temporada a meio, temporada essa que terminei ontem mesmo, para me preparar para o que aí vem. E ainda bem que o fiz. Os últimos três episódios, precisamente os que me faltavam, são bons a valer, apesar de quilométricos e o que faz com que, para mim, seja até à data a segunda melhor temporada da série.
E agora? Como é que isto vai acabar. Já me confessei lamechas, é claro que o Dustin é a minha personagem do coração e se vos passa pela cabeça, Senhores Duffer, sacrificar o meu underdog, sou menina para… Nada. Vou só ficar imensamente irritada e despejar a minha raiva nos que me rodeiam, como qualquer pessoa mentalmente sã. Porque a verdade é que a história é deles e eles fazem com ela o que quiserem e eu sou do tempo da internet pré-ADSL, por isso tenho um doutoramento em lidar com a frustração. Mas eu queria muito um final feliz.
▲ Mais um ponto a favor: é difícil sentar adolescentes e pais num sofá, à volta de um único ecrã, sem telemóveis no caminho, numa experiência comum, prazerosa para todos
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Tenho uma pena infinita do Will, que na quarta temporada então, meu Deus, alguém que dê uma alegria a esta rapaz, que está feito o menino da lágrima, para não falar daquele cabelo à tigela. E a Eleven? Desde a Joana D’Arc que não víamos uma heroína de cabelo curto tão castigada. Acredito que esta guerra contra o mal vai ter batalhas ganhas e perdidas pelos nossos heróis e haverá baixas pelo caminho (o Dustin, não, pleeeeaaaaseeee). Estou curiosa em perceber que papel é que o Governo e as Forças Militares vão assumir desta vez e espero que não tenha aquele desenrolar previsível do “quem manda aqui são os adultos”, fazem a vida no inferno aos gaiatos, não só não ajudam, como atrapalham… e, de repente, há um militar que abre o coração e acredita nos nossos heróis, desafia a hierarquia e, no final, o que interessa é a bandeira e acabamos todos Unidos, como os Estados.
Portanto, é isso que eu quero, Mário Alberto. Um final feliz. Emoção, uns “ia sendo, mas não fondo”, monstros espectaculares, um vilão feito em pó e que o Will pare de uma vez por todas de coçar a cervical e cuspir lesmas. No final, amizades para a vida e putos felizes e apaixonados. É lamechas? É. Mas vem do coração. Porque como disse o Will “Sem coração, desmoronávamos”. E fora aquelas lampreias mutantes cheias de gosma, Stranger Things é uma série cheia dele.
Na introdução da já referida bíblia, descrevem eles: “Emocional, cinematográfico e assente nas personagens (…) uma carta de amor à era dourada de Steven Spielberg e Stephen King (…) um casamento entre o drama humana e o medo sobrenatural”. Acho que a correspondência chegou ao destino e, seja qual for o desfecho, acredito que Stranger Things vai deixar saudades. Mas não faz mal. Daqui a 10 anos, fazem um revival.