Jay Kelly é sobre um cheesecake. Talvez não fosse isto que o realizador Noah Baumbach tinha em mente ao realizar e escrever o seu mais recente filme, que chegou agora à Netflix depois de uma curta estadia em salas pelo mundo que serve apenas para poder ser nomeado para os Óscares. Mas é o que acaba por acontecer: a sobremesa que a estrela de cinema que dá nome ao filme (interpretada por George Clooney) tem na lista de exigências para os bastidores, apesar de nem sequer gostar, acaba por ser uma metáfora de todo o tema do filme.

A longa-metragem segue a crise de identidade de uma estrela de Hollywood, um ator de sucesso que se tornou num ícone do cinema, descartando alegremente todas as outras facetas da sua vida. Porém, quando a filha mais nova chega à maioridade e começa a fazer planos sem o pai, Jay força-se a uma autorreflexão com contornos de drama de meia-idade. Entre uma cena de pancadaria com um ex-colega de escola de teatro, uma viagem de comboio em Itália e uma cerimónia de homenagem na Toscânia, o protagonista dá por si a deambular por memórias antigas, ao mesmo tempo que compreende que já não consegue construir memórias futuras. Sem relações, sem amigos e até já sem paixão pela representação, o que lhe sobra? Sobra o tal cheesecake que come a contragosto, porque não existe mais nada.

Apesar de ter ficado de fora nas nomeações para os Globos de Ouro nas categorias de Melhor Filme ou Melhor Realizador, “Jay Kelly” garantiu nomeações para Clooney e também para Adam Sandler, que faz do seu abnegado agente. E acaba por não ser estranho que um filme sobre atores acabe, essencialmente, como um veículo para esses mesmos atores. Clooney talvez esteja a fazer de si próprio (o próprio diz numa das cenas que “não há nada mais difícil que fazer de nós próprios”) e Sandler volta a mostrar como consegue ser um ótimo actor dramático, apesar de ainda insistir aqui e ali em comédias bem canastronas. Tal como o manager Ron, também Sandler carrega tudo às costas, incluindo os melhores momentos do filme. Há já quem a aponte como favorito ao Óscar de Melhor Ator Secundário, o que nos garantiria pelo menos um bom discurso naquele serão infindável.

[o trailer de Jay Kelly:]

Jay Kelly entra no cada vez mais clássico modelo de “uma comédia que consegue ser sobretudo triste e melancólica”. O filme tem cenas fortes que cheguem para nos convencer a ter pena de Jay, mas nem sempre é fácil. Entre aviões privados e impecáveis fatos de linho branco, o protagonista é cheio de soberba, com uma grande dificuldade em ouvir os outros e com um encanto por bucólicas viagens de comboios característico de quem nunca tentou ir para o trabalho de transportes públicos em dia de greve. É um filme sobre um homem a perceber que está sozinho porque é insuportável.

Já Noah Baumbach, é um caso atípico dentro dos realizadores da sua geração. Por um lado, conta com várias nomeações para prémios já desde A Lula e a Baleia, que o revelou ao mundo há 20 anos. Por outro, não se livra de duas etiquetas: a primeira, ser sempre o marido de Greta Gerwing (a relação profissional é estreita, com Gerwing a ter um pequeno papel neste filme e com Baumbach como co-guionista de Barbie). E a segunda, a de em alguns filmes (e sobretudo neste) parecer estar só a ser um Woody Allen para quem já não se sente confortável em ver filmes de Woody Allen. O discurso meta sobre Hollywood; o protagonista homem que não sabe lidar com mulheres; a Europa filmada como essa identidade una que se caracteriza simplesmente pelo caricato de não ser os Estados Unidos. Tudo isto podia ser tirado do livro de estilo do autor de Meia Noite Em Paris.

Jay Kelly é um filme sobre escolhas e nem todas as que o filme toma são as mais corretas. Porém, no final, não conseguimos evitar ficar impactados pela tristeza de um homem que, ao suceder, falhou. As boas representações salvam alguns diálogos mais óbvios e algum sabor. Olhem, como um cheesecake.