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Fado e iscas, sapatos da Orion e uma ida à Nazaré cancelada: a passagem de Brigitte Bardot em Portugal em 1960

Este artigo tem mais de 6 meses

Musa da Nouvelle Vague contracenou com o ator português António Vilar e esteve em Portugal para promover o filme "A Mulher e o Fantoche". Recuperamos três dias de Brigitte Bardot em Lisboa.

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▲Brigitte Bardot com o marido Jacques Charrier, no aeroporto de Orly, França, antes de embarcar no avião para Lisboa para a estreia de "La Femme Et Le Pantin", em 1960

Bettmann Archive

▲Brigitte Bardot com o marido Jacques Charrier, no aeroporto de Orly, França, antes de embarcar no avião para Lisboa para a estreia de "La Femme Et Le Pantin", em 1960

Bettmann Archive

“Brigitte Bardot não foi à Nazaré mas percorreu Lisboa onde fez várias compras”. O título estampou a primeira página da edição de 27 de março de 1960 do Diário de Lisboa. A vinda de Brigitte Bardot, que morreu este domingo aos 91 anos, a Portugal, era então a notícia do dia em vários títulos da imprensa portuguesa.

Também o Diário de Notícias dava destaque ao tema: “B.B. sempre chegou. Um dilúvio de chuva e de admiradores. A timidez da vedeta impressiona tanto como a sua beleza”, podia ler-se na primeira página. As imagens da chegada da atriz ao Aeroporto da Portela, a 26 de março de 1960, estão no site dos arquivos da RTP, onde é possível ver Bardot a ser recebida pela chuva e por uma multidão de fãs. A atriz, ícone do cinema francês, sorri para as câmaras e acena a partir do interior do carro.

Horas depois, Bardot largava as luvas e o chapéu com que se protegera da chuva para surgir de cabeleira farta e armada e com um vestido preto coleante. Tudo para a estreia no cinema São Jorge, em Lisboa, de A Mulher e o Fantoche, filme de Julian Duvivier (La Femme et le Pantin, no original), em que contracena com o ator português António Vilar (1912-1995). Em declarações ao Diário de Lisboa, na edição do dia seguinte, Vilar gaba-se de ter recebido “uma salva de palmas mais calorosa que a dada a B. B.”. “Receei que ficasse ofendida. O público português é muito difícil…”

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▲ Brigitte Bardot com o ator português António Vilar no filme "A Mulher e o Fantoche" (1959), de Julian Duvivier

Corbis via Getty Images

Menos difícil terá sido arrancar um “adoro Portugal” a Bardot, que surpreendeu o repórter da RTP, José Fialho Gouveia, que com ela falou no “cocktail” nessa noite de estreia no São Jorge ao revelar-lhe que já tinha estado em Portugal nove anos antes, “quando não era conhecida”. “Estive também na Madeira e em Lisboa, e tinha jurado que que voltaria um dia, e era uma ótima ocasião para regressa”, disse a atriz, que acrescentou ter estado na Nazaré, sítio ao qual gostaria de voltar.

Segundo a imprensa da época, foi o mau tempo que cancelou os planos da atriz e do marido, o ator e produtor francês Jacques Charrier, de rumar à vila, o que fez com que esta visita a Portugal da musa da nouvelle vague se tenha resumido à capital portuguesa.

Escreve o Diário de Lisboa que, após a estreia no São Jorge, a atriz, acompanhada pela comitiva em que se incluía o ator António Vilar, terminou a noite na casa de fados “A Tipoia” e “permaneceu ali até cerca das quatro da madrugada ouvindo o fado com deleite”. Nota o jornal que a atriz “comeu iscas, com prazer e entusiasmo”, e que “a castiça cantadeira que ela mais apreciou foi Adelina Ramos”.

A primeira página do Diário de Lisboa a 27 de março de 1960

Nessas duas noites em que esteve em Lisboa, Brigitte Bardot ficou hospedada no oitavo andar, no quarto nº 832 do Hotel Ritz. O Diário de Lisboa detalha como, cancelados os planos de ir à Nazaré, a atriz acabou por almoçar no quarto do hotel, à frente do qual “uma multidão de adolescentes” a esperava “desde as 8 e 30”, empunhando “esferográficas e bloc-notes na ânsia do autógrafo”. Já o hall do Ritz era ocupado por “um batalhão de fotógrafos”.

A atriz acabaria por sair do Ritz já “perto das duas horas da tarde”, com o marido, a produtora do filme (Gouze-Renal) e António Vilar. “Brigitte, sorridente, de braço dado com o marido, sai do hotel onde esteve recolhida até perto das duas horas da tarde”, lê-se na legenda da imagem que estampa a capa do Diário de Lisboa. Pouco tempo antes, o jornal questionara Vilar onde iria levar Brigitte. O ator português contestava: “Não sei. Brigitte não se deixa comandar. É uma impulsiva”.

“Minutos depois B. B. aparecia. Com um tailleur de seda e sapatos cor-de-rosa, um colar de Murano no pescoço esguio, o cabelo louro escorrendo-lhe sobre o rosto, num despenteado cuidadosamente composto”, descreve o diário. “Lá fora, a multidão de adolescentes rompeu num alarido violento.”

A notícia do Diário de Lisboa dá conta de como a atriz queria comprar “objetos típicos”, mas o ator Vilar já se antecipara ofertando-lhe uns sapatos da Orion, sapataria de culto na Rua Garret (que fechou portas no fim de 2011). “Eram uns sapatos brancos, muito leves, de um desenho revolucionário, com o salto substituído por uma antepara”. A pedido de Vilar, “Brigitte descalçou os sapatos cor-de-rosa num gesto rápido” e provou o calçado, como prova uma fotografia na mesma página deste jornal.

Sairam de carro, num Citroen vermelho, Brigitte, o marido, a produtora do filme e António Vilar. “Formou-se imediatamente um cortejo de automóveis”, consta na mesma notícia. O carro partiu do hotel Ritz e dirigiu-se ao Marquês de Pombal, desceu a Avenida da Liberdade, deu a volta ao Rossio para regressar aos Restauradores e parar junto da “Regional da Madeira”, loja de objetos típicos e referência portuguesa para o turismo da década de 1960.

O Diário de Lisboa detalha como “duas mil pessoas” se acumulavam no passeio enquanto a atriz perscrutava a loja. “Brigitte, mais calma que o marido, via as toalhas bordadas da Madeira, os sacos, as mantas de cores gritantes”. Não há registo de compras da atriz, apenas de Jacques Charrier, que “comprou uma camisola de lã espessa com desenhos bordados”, que logo vestiu, descreve o repórter.

“A polícia continha, a custo, a multidão”, e vários carros seguiram o da atriz, num périplo por Monsanto e até o restaurante Mónaco, em Caxias, que por estar com o salão cheio dirigiu a comitiva para o bar, onde fizeram uma “refeição leve, de lagosta e vinhos diversos”. Nessa noite, o jantar terá sido no Casino do Estoril, a convite da Sociedade de Estoril-Sol.

Segundo o Diário de Lisboa, o casal partiu num avião da TAP para Paris às 8 e 30 do dia seguinte, 28 de março.

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