“Senhores e senhoras, deem as boas vindas ao meu filho, Marcello Hernández!”, diz uma senhora loira, de meia idade e sorriso rasgado, em cima do palco. Os holofotes coloridos começam a dançar, ao ritmo da música de Bad Bunny que invade a sala de espectáculos, assim como Hernández, que com a mão na cintura da mãe, Isabel Cancela, mostra ao público como baila a gente latina. “As nossas festas de família eram assim. Têm de dançar. Têm de dançar ou encontrar uma nova família.” O especial chama-se American Boy e está disponível na Netflix desde 7 de janeiro.
É a estreia de Marcello Hernández no streaming, mas dificilmente a sua primeira incursão na comédia. Com 27 anos, já faz parte do elenco do Saturday Night Live (SNL), o influente programa de sketches cómicos do canal NBC, que estreou em outubro a 51.ª temporada. Quando Hernández integrou a equipa, em 2022, era o único membro da Geração Z (ou Gen Z, que compreende as pessoas nascidas entre 1997 e 2012). Entretanto, as novas adições à equipa confirmaram a preferência por integrantes mais jovens, previsivelmente com o objetivo de captar público dessa faixa etária — que consome o conteúdo do SNL através das redes sociais.
Plataformas como o TikTok, o Youtube ou o Instagram fizeram disparar as audiências do programa. O elenco cativante de comediantes, a que se juntam artistas convidados muito populares (por exemplo, Ariana Grande, Sabrina Carpenter ou Bad Bunny) tem um sucesso estrondoso online, e gera vídeos virais quase todas as semanas. Um dos mais famosos é o que introduziu a personagem de Domingo, interpretada por Hernández, um latino sedutor que convence uma mulher casada a trair o marido.
Domingo teve tanto sucesso que já protagonizou quatro sketches, todos com uma fórmula idêntica: uma festa (casamento, baby shower, renovação de votos ou aniversário) em que as amigas de Kelsey, o “Kel-squad”, cantam uma música pop em tom desafinado, que revela as sucessivas traições ao marido da amiga, Matt. No fim, Domingo aparece de surpresa e junta-se à canção. A primeira versão do sketch contou com a presença da cantora Ariana Grande, que interpretou o hit de Sabrina Carpenter, Espresso. A própria Carpenter também se juntou ao “Kel-squad” em duas ocasiões, assim como Charli XCX.
Não é apenas no palco do SNL que Hernández explora as raízes latinas. Apesar de ter nascido nos EUA e crescido na cidade de Miami, é filho de mãe cubana e pai dominicano. Isabel Cancela fugiu de Cuba com 12 anos, depois de o governo de Fidel Castro tomar a casa da família. Após breves passagens por Espanha e pela República Dominicana, foi sozinha para os EUA, onde teve de aprender inglês e pagar os próprios estudos, que concluiu já grávida do filho. O novo solo de Hernández, American Boy, é fortemente autobiográfico e reflete sobre o que é crescer num país diferente do dos pais imigrantes, absorvendo duas culturas, por vezes contrastantes, em simultâneo.
A infância em Miami, rodeada de pessoas de origem hispânica e caribenha, foi muito diferente dos anos de licenciatura em Cleveland, no Ohio, para onde Hernández se mudou com 18 anos. “Acho que se pode dizer que estudei no estrangeiro”, diz ironicamente. Foi nessa altura, em que também trocou o reggaeton dos salões de dança da Flórida por festas ao som de Mr. Brightside (dos The Killers), que começou a frequentar comedy clubs.
Escolheu a John Carroll University de Ohio pelo programa de futebol que oferecia — e não necessariamente pela excelência do curso de Empreendedorismo e Comunicação — , mas rapidamente o interesse pelo stand-up se sobrepôs ao desporto. “Em última instância, tinha de decidir entre jogar futebol e fazer comédia”, admitiu Hernández num painel de alumni organizado pela universidade. “Eu ia aos treinos, depois fazia espetáculos e repetia a mesma coisa todos os dias. Acabei por dizer à equipa que ia desistir.”
Nessa época, recebeu um conselho precioso do comediante Sean Patton, que revelou à revista de entretenimento Variety: “Ele disse-me, ‘Vai a Nova Iorque uma vez por estação. Uma vez no inverno, uma vez no outono e uma vez na primavera. Vai e fica por um bocadinho — uma semana ou duas — cumprimenta toda a gente. Garante que se lembram de ti, para que, quando voltares, não perguntem, ‘Quem é este tipo?’ Vão dizer, ‘Oh, aquele é o Marcello. Ele já esteve aqui antes.’”
As visitas frequentes a Nova Iorque e as atuações em comedy clubs escondidos já punham o nome de Hernández nas bocas do mundo, mas foi durante a pandemia que conseguiu adquirir verdadeiro reconhecimento. De regresso à cidade natal de Miami, começou a publicar vídeos no TikTok de uma organização de notícias local, onde incluía segmentos de stand-up e comentários sobre o quotidiano da cidade. A sua participação em Only in Dade acumulou milhões de visualizações e atraiu a atenção dos magnatas da comédia.
Em 2022, Hernández foi um dos humoristas selecionados para a categoria New Face of Comedy do festival de humor canadiano Just For Laughs — o maior do mundo, celebrado anualmente em Montréal — onde foi descoberto e recrutado por um “olheiro” do SNL. Hernández estreou-se na 48ª temporada do programa e rapidamente se tornou num favorito dos fãs, quer pelas suas participações no segmento Weekend Update — onde o pivô e comediante Colin Jost apresenta notícias satíricas e que parodiam eventos reais — , como pelas personagens que interpreta em sketches, a maioria de inspiração latina.
Entre os mais populares estão, evidentemente, os que contam com a participação de Domingo, mas também Protective Mums, onde representa um filho que apresenta a namorada “gringa” à mãe de origem latina, interpretada pelo ator Pedro Pascal (The Last of Us), e Spanish Class, com Ana de Armas, no qual dois alunos hispânicos falam espanhol melhor do que o embaraçado professor americano.
Lorne Michaels, o criador e produtor executivo do Saturday Night Live, já destacou o “talento extraordinário” de Hernández. “Ele só melhora a cada dia que passa. Depois de um tempo no SNL, consegues identificar quem pertence àquele lugar — ele é uma dessas pessoas.”Ao sucesso na televisão, somam-se os convites para abrir espectáculos de outros humoristas, como o colega de programa Colin Jost, mas também Dave Chappelle e Jo Koy. E como é comum no Saturday Night Live, já teve direito a estreia no grande ecrã, em Happy Gilmore 2 – uma comédia protagonizada por Adam Sandler, que saiu no verão de 2025.
Em American Boy, Hernández mergulha na infância passada em Miami, entre “salões [de beleza] e depilações brasileiras”. Reconhece a influência da mãe no seu trabalho (inspirou o sketch Protective Mums), que não só introduz o especial, mas também acompanha Marcello onde quer que vá — e, inclusive, já participou num anúncio com o filho para a operadora de telecomunicações T-Mobile. A família tem um papel fundamental no entendimento que Hernández tem do mundo, mas não está isenta de críticas, nomeadamente sobre a negligência da saúde mental e a banalização da violência na educação das crianças.
Para além de Isabel, reconhece a importância que vários comediantes tiveram na sua vida e abordagem do humor, como Bill Murray, Jerry Seinfeld, Eddie Murphy ou Kevin Hart. “Quero ter tanto sucesso como eles”, diz, “mas eu vou ser a versão hispânica.”
Texto editado por Tiago Pereira