No ano passado, Cannes apresentou um notável leque de obras e cineastas com reverberação que continuará a sentir-se até à próxima edição dos Óscares. Veneza não lhe ficou atrás, deixando a sensação, em Setembro passado, de que o cinema contemporâneo estava em peso no Lido – e atrás dele vieram astros de Hollywood, muitos e para todos os gostos. Já Berlim, o festival de Inverno que outrora concorreu directamente com aqueles, apresentou hoje figurino bem mais resfriado para a sua 76.ª edição, a segunda em que a norte-americana Tricia Tuttle lidera as decisões artísticas.
Wim Wenders presidirá ao júri de uma competição sugestiva, a espaços estimulante para a cinefilia, mas modesta para o showbiz e sem marés que possam a priori agitar o mercado. Receia-se que esta falta de equilíbrio necessária a um festival de topo traga consequências sérias para Berlim e acentue a perda de prestígio do histórico galardão alemão. Aliás, a sensação corrente é a de que, hoje em dia, a maioria dos cineastas e produtores prefere estar em Cannes em qualquer “secção da Cochinchina” ao invés de disputar o concurso pelo Urso de Ouro.
E contudo, confiando nas palavras de Tricia Tuttle, não ficará o espectador defraudado com a qualidade cinematográfica que vai chegar à Potsdamer Platz a partir de dia 12 de fevereiro — a ver vamos. Desta parte, temos vontade de concordar, curiosos pela estreia dos novos filmes da alemã Angela Schanelec (My Wife Cries), do franco-senegalês Alain Gomis (Dao) ou da dupla italiana Tizza Covi/Rainer Frimmel (The Loneliest Man in Town). O veterano cineasta do Chade, Mahamat-Saleh Haroun, apresentará uma nova obra, Soumsoum, la nuit des astres, a par de novos trabalhos de autores que já assinaram, de facto, estreias auspiciosas na longa-metragem, como Anthony Chen, de Singapura (We Are All Strangers), ou Leyla Bouzid, da Tunísia (À voix basse).
Dos 22 filmes a concurso pelo Urso de Ouro deste ano, destaca-se igualmente o brasileiro Karim Aïnouz com um filme já avaliado por vários festivais no ano passado, Rosebush Pruning, adaptação em língua inglesa, com Elle Fanning, Jamie Bell, Tracy Letts e Pamela Anderson, da obra de estreia do italiano Marco Bellocchio, I pugni in tasca. Mas convenhamos: nenhum deles é propriamente um fruto apetecido para a distribuição, capaz de pôr as bilheteiras com a cabeça à roda. E o programa de galas em estreia fora de concurso também não parece famoso. A parte mais paradoxal desta história é que o festival está há muito ancorado nos hábitos culturais dos berlinenes e sempre foi um fenómeno de grande público, sem comparação com outro no mundo. Antes da pandemia, vendia 400 mil bilhetes por ano e, pouco a pouco, tem vindo a aproximar-se destes valores.
Dois ou três casos pontuais servirão talvez de contraponto à falta de popularidade geral desta edição, como Rose no mercado germânico. Trata-se da nova obra do austríaco Markus Schleinzer, no elenco está um nome de peso, a actriz Sandra Huller, na pele de uma mulher do século XVII que se mascara de homem. Juliette Binoche entra em Queen at Sea, regresso à Berlinale do norte-americano Lance Hammer. Everybody Digs Bill Evans, sobre o lendário músico do título, em documentário assinado pelo fotógrafo Grant Gee, é outra entrada anglo-saxónica a concurso (com Bill Pullman no elenco) e, com estreia anterior em Sundance, chegará igualmente Josephine, thriller psicológico e segunda longa-metragem da norte-americana de origem brasileira Beth de Araújo.
Quanto ao cinema português, que tem escrito na capital alemã algumas das melhores páginas da sua história nas últimas duas décadas, com representação em praticamente todas as secções do festival, o ano é quase para esquecer, limitando-se às presenças em co-produções internacionais, nenhuma delas realizada por portugueses.
Na secção Perspectivas, foi escolhido Nosso Segredo, realização da actriz brasileira Grace Passô, com co-produção lusa da Foi Bonita a Festa. No Forum, Piedras Preciosas, de Simón Vélez, vem da Colômbia, com participação portuguesa da Bam Bam Cinema, de Paulo Carneiro, igualmente envolvida no também colombiano Filme Pin, de María Rojas Arias e Andrés Jurado (Forum Expanded). Por fim, Narciso, do paraguaio Marcelo Martinessi, é um filme de época que decorre naquele país da América Latina, em 1958, e contou com a participação portuguesa da Oublaum Filmes, de Ico Costa. Será exibido no Panorama.
No programa Shooting Stars, que há anos promove em Berlim novos talentos europeus de interpretação, Portugal está representado por Cleo Diára, premiada em Cannes por O Riso e a Faca, de Pedro Pinho, e também actriz em Entroncamento, de Pedro Cabeleira, que em breve se estreará nas salas, a 26 de Março.
O autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico