Cadelas Vadias, da escritora mexicana Dahlia de la Cerda, é a primeira tradução integral e primeira obra premiada a ser publicada pela Greta, projeto que nasceu como livraria feminista e se consolida agora como editora no panorama literário nacional.

O livro saiu da gráfica no passado dia 12 de janeiro e deverá chegar “em breve a todo o território português”, sendo o único dos três títulos da Greta Edições que está a ser distribuído e será vendido noutras livrarias no Porto e em Lisboa, representando um passo estratégico na missão da editora, disse à Lusa a mentora do projeto, Lorena Travassos, numa entrevista por escrito.

Brasileira e residente em Portugal há 11 anos, onde cumpriu o sonho antigo de ter uma livraria, Lorena Travassos é fotógrafa e doutorada em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa, sendo ainda professora universitária na área de Cultura Visual e investigadora, especializada em arquivos coloniais e estudos de género.

“A Greta Livraria abriu o seu espaço físico em 2023, em Lisboa, mas o projeto já existia desde 2021 em formato ‘online’. Com o tempo, tornou-se evidente a ausência de publicações dedicadas aos movimentos feministas e contemporâneos em Portugal, o que levou a uma expansão natural do projeto”, explicou.

A passagem da livraria para a edição de livros “foi um verdadeiro salto no escuro: uma aposta na criação de livros e na construção da primeira editora feminista de Portugal”, confessou, acrescentando que “o objetivo sempre foi publicar pessoas portuguesas e trazer traduções que muitas vezes não chegam ao país”.

“Neste momento, ainda estamos numa fase de experimentação”, salvaguardou a responsável.

Cadelas vadias (Perras de reserva, no original), da escritora e ativista mexicana Dahlia de la Cerda, que venceu o Prémio de Conto Jovem Comala e foi nomeado para o Prémio Booker Internacional de 2025, consiste numa coletânea de histórias interligadas, narradas na primeira pessoa por treze mulheres mexicanas confrontadas com realidades duras, como a violência da narcocultura mexicana.

“Atravessado por um humor ácido tão desconcertante quanto libertador, o livro recusa qualquer olhar paternalista ou moralizante. Aqui não há lições nem redenções fáceis: há vozes que falam alto, que riem no meio do caos, que amam, odeiam, mentem e resistem. Entre tiroteios, lutos e pequenos gestos de afeto inesperado, De la Cerda constrói um retrato ferozmente humano de uma realidade onde a ternura também é uma forma de sobrevivência”, lê-se na sinopse da obra.

As protagonistas são mulheres que tomam a palavra e o controlo da narrativa: “filhas de chefes de cartel, ‘socialites’ que fabricam identidades para se manterem vivas, trabalhadoras invisíveis, vítimas de transfeminicídio, jovens presas a casas cheias de costureiras solteiras”, e todas elas, cada uma à sua maneira, enfrentam “a cadela da Vida”, reinventando regras “num mundo que insiste em descartá-las”, descreve a editora.

“A linguagem é direta, de rua, acelerada, impregnada de cultura pop e oralidade. Muitas histórias nascem de experiências pessoais da autora e de notícias locais, dissolvendo a fronteira entre ficção e realidade”, arrastando o leitor para dentro, obrigando-o a escutar e a testemunhar.

Segundo Lorena Travassos, a escolha de Cadelas vadias como primeira tradução integral foi motivada pela urgência dos temas que atravessam a obra e pela vontade de dar visibilidade a literaturas feministas e marginalizadas que dialogam com questões sociais contemporâneas de violência, género e resistência.

A obra foi amplamente elogiada pela crítica internacional e tem-se destacado pela sua autenticidade radical, força narrativa e pela forma como devolve às mulheres o direito de contarem as suas próprias histórias, destaca a editora.

Depois da abertura da livraria no bairro dos Anjos, com uma proposta editorial centrada em obras escritas por mulheres e pessoas não-binárias, abrangendo ficção, não-ficção, estudos de género, zines e artes gráficas, a Greta iniciou a sua trajetória editorial em 2024, contou Lorena Travassos.

“Foi a partir de um ‘crowdfunding’ que conseguimos imprimir o primeiro livro da Greta Edições, dando início à coleção de feminismos Fresta. Nesse ano, publicámos o primeiro número da coleção, Onde é que elas andam?, com uma seleção de textos escritos por mulheres e por pessoas não-binárias lésbicas”.

O segundo número, lançado em 2025, intitula-se Kûarasy e reúne textos de mulheres indígenas.

“A cada edição, convidamos uma organizadora para propor e reunir os textos a partir de um saber localizado, refletindo experiências de pessoas falantes da língua portuguesa que carregam histórias próprias e pautas específicas dos contextos onde vivem. Em conjunto, essas vozes constroem a pluralidade inerente às lutas feministas no mundo”, esclareceu.

Questionada sobre o retorno e a aceitação que a livraria tem tido, Lorena Travassos revela que tem sido “positiva e crescente”, com um público que combina quem já acompanhava o projeto desde a fase ‘online’ e novos leitores atraídos pela curadoria específica voltada para o pensamento crítico e para as questões sociais que o feminismo contemporâneo coloca.

“A adesão acontece, por vezes, de forma ainda tímida, muito em função dos preconceitos que o termo feminismo carrega no senso comum. Ainda assim, a Greta afirma-se não apenas como um espaço de venda de livros, mas também como um lugar de encontro, troca e construção de pensamento coletivo”, referiu.

Além da venda de livros, a Greta tem promovido iniciativas como apresentações de livros, debates e encontros com autoras, sendo que os eventos com maior procura são os que articulam literatura com questões sociais urgentes, e que cruzam diferentes áreas, como literatura, ativismo e pensamento político, disse a responsável, salientando que “existe um interesse claro por propostas que criam espaço para diálogo e partilha”.

No que diz respeito a planos para o futuro, a Greta Livraria “pretende continuar a fortalecer a sua programação cultural, ampliar as parcerias com autoras, coletivos e editoras independentes, e consolidar a Greta Edições”.

Nesse contexto da edição, Lorena Travassos adiantou que se prepara para publicar ainda este ano pelo menos mais um livro — um ensaio feminista que será selecionado a partir de uma ‘open call’ para submissão de textos de forma anónima —, continuar a sua linha de publicação de um a dois livros por ano, alternando entre ficção e ensaio crítico, e “apostar em novas leituras críticas que promovam reflexão e debate, contribuindo para a construção de um futuro mais justo e igualitário”.