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A vida segundo Mel Brooks: vale tudo por uma gargalhada

Este artigo tem mais de 6 meses

"Mel Brooks: The 99 Year Old Man!" é o documentário em duas partes que se estreia esta semana e que recorda a história e a obra de um nome fundamental do humor — o passado e o que é feito hoje.

Mel Brooks nos bastidores da rodagem de "The Producers", de 1967. Também na imagem, um dos protagonistas: Gene Wilder
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▲Mel Brooks nos bastidores da rodagem de "The Producers", de 1967. Também na imagem, um dos protagonistas: Gene Wilder

▲Mel Brooks nos bastidores da rodagem de "The Producers", de 1967. Também na imagem, um dos protagonistas: Gene Wilder

Mel Brooks faz parte de um grupo seleto e raríssimo de seres humanos. Por um lado, está à beira de fazer 100 anos (será a 28 de junho), ainda com grande capacidade de trabalho (acabou recentemente de gravar Spaceballs 2). Por outro, é e sempre foi uma criança grande, daquelas que aponta o dedo, acha graça a puns e se ri com a cabeça inclinada para trás, os dentes todos à mostra. Completar um século de vida e sempre se ter recusado a crescer é obra. E é esse (quase) século que se tenta fazer caber em Mel Brooks: The 99 Year Old Man!, o documentário em duas partes que Judd Apatow e Michael Bonfiglio realizaram para a HBO (a primeira parte está disponível esta quinta-feira, dia 22, a segunda na sexta).

Nascido Melvin James Kaminsky, o ator/realizador/guionista que mudou para sempre a comédia assume que até teve uma infância feliz, mas é provável que a inclinação para procurar a graça em tudo tenha vindo de uma experiência de vida bem mais complexa: serviu no Exército dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial como engenheiro de combate e observador de artilharia de campanha, tendo inclusivamente desativado minas terrestres e combatido na Batalha das Ardenas, a maior e mais sangrenta batalha individual travada pelos Estados Unidos naquele conflito.

The Producers, uma das suas obras de maior relevo, fazia piadas com Hitler pouco mais de 20 anos depois do fim de uma guerra que conheceu bem — como soldado e como homem judeu. Na sua análise a Silent Movie (em Portugal chamou-se A Última Loucura de Mel Brooks), o mítico crítico Roger Ebert escreveu: “Mel Brooks faz qualquer coisa por uma gargalhada. Qualquer coisa. Não tem pudor. É um anarquista; os seus filmes habitam um universo em que tudo é possível e o ultrajante é provável”. Não havia temas proibidos e a ordem que impera sempre foi “mas isto tem graça?”. Se tivesse, estava a valer. Numa palavra: Mel Brooks é incancelável.

Embora Brooks tenha começado no stand-up, na rota clássica, o comediante revela-se verdadeiramente no ecrã, com a possibilidade de juntar imagens às palavras. Rei do gag visual, foi pioneiro de uma técnica amplamente usada: a quebra da quarta parede, quando uma personagem reconhece o espectador e se dirige diretamente a ele, quebrando a ilusão de que o filme é um mundo fechado e distante de nós. O seu primeiro grande sucesso em televisão foi o sketch recorrente The 2000 Year Old Man (ao qual o documentário rouba inspiração para o título), que fez com Carl Reiner (pai de Rob Reiner, realizador tragicamente assassinado no ano passado).

▲ Com a atriz Anne Bancroft, com quem casou em 1964. Bancroft morreu em 2005, aos 73 anos

Porém, o sucesso dos discos e idas à televisão com esta rábula não o salvaram de dificuldades financeiras numa fase posterior. Manteve-se até surpreendentemente anónimo, ao ponto de o seu segundo casamento ter merecido no jornal o título “Anne Bancroft casa com escritor”. Bancroft era vencedora de um Óscar e protagonista de The Graduate; Brooks era alguém a tentar vender ideias para séries — como uma que parodiava o universo de James Bond.

Essa paródia, co-criada com Buck Henry, viria a estar no ar entre 1965 e 1970, com o nome Get Smart. Por cá, ganhava sempre o Agora Escolha, com o nome Olho Vivo. Contou com Don Adams no papel de Maxwell Smart, um agente secreto norte-americano de duvidosa competência e secretismo. Porém, mesmo esse caminho não foi fácil. Antes de a NBC a ter adquirido, a série foi apresentada à ABC, cujos executivos a descartaram como “de mau gosto e anti-americana”. Faltou à ABC compreender uma pedra basilar do trabalho de Brooks: a paródia vem de um lugar de homenagem, muitas vezes até de carinho, de obsessão pelo detalhe.

Brooks satirizou tudo, desde o nazismo aos fenómenos de cultura popular do século XX, com filmes como o já citado The Producers e a paródia de Star Wars, Spaceballs (em Portugal A Mais Louca Odisseia no Espaço), a tal que vai ter sequela quase 40 anos depois. Em 1991, o filme que mais fazia furor nas bilheteiras era um hiper sério Kevin Costner a fazer de Robin Hood ao som de Bryan Adams? Então, em 1993, Brooks estreia Heróis em Collants, uma sátira deliciosa (admito, foi um dos filmes que mais vi na infância) com o bónus de um Dave Chapelle muito novinho.

▲ Mel Brooks é e sempre foi uma criança grande, daquelas que aponta o dedo, acha graça a puns e se ri com a cabeça inclinada para trás, os dentes todos à mostra

O truque de Brooks para a paródia era levá-la a sério. Infantil? Sim. Imaturo? Nunca. Os seus filmes sempre privilegiavam a história em primeiro lugar, encontrando lógica no ilógico. Blazing Saddles (Em Portugal, Balbúrdia no Oeste), por exemplo, é simultaneamente uma paródia de género do western e um comentário aos estereótipos raciais dominantes associados a esse género. O guião é tudo — não é à toa que é a única pessoa a ter vencido a Tríplice Coroa da Escrita: Óscar, um Emmy e um Tony em categorias ligadas à palavra. E ao transformar atores como Gene Wilder e Frank Langella em estrelas, Brooks levou a irreverência a sério e mudou a forma como a comédia moderna passou a ser feita. Até para os Monty Python serviu de inspiração.

Porém, no documentário da HBO assume ter muitas vezes vivido com síndrome de impostor e até ataques de pânico. “Não sou um génio. Não sou inteligente. Não sou engraçado. Não mereço isto. Eles vão acabar por perceber e despedir-me”, diz. Brooks sente que tem o melhor emprego do mundo e teme que o venham roubar. Não faltariam candidatos, mas na incapacidade de o igualar, ficam no documentário as justas palavras de gratidão — nomes com Ben Stiller, Sarah Silverman, Dave Chappelle, Adam Sandler, Jerry Seinfeld, Amy Schumer, Conan O’Brien, Nick Kroll, Tracey Ullman e Patton Oswald.

Talvez o truque de Brooks acabe por ser não se levar a sério. A 8 de setembro de 2014, quando deixou as impressões das mãos e dos pés num novo pedaço do Passeio da Fama de Hollywood, fê-lo com um décimo primeiro dedo. Uma prótese, arranjada de propósito para a ocasião, a ver se o olhar mais atento se apercebe que algo ali não bate certo, se surpreende e se ri. Afinal, Mel Brooks está há quase 100 anos a não desperdiçar nenhuma oportunidade para ser uma criança a pregar uma partida.

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