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Um conto para toda a família, o terror íntimo de ser diferente e 4 mil metros de seda: seis espetáculos para ver em fevereiro

Este artigo tem mais de 6 meses

Do teatro político de David Greig ao solo autobiográfico de André Murraças, passando pelo regresso de Vera Mantero, há peças para pensar o mundo contemporâneo em Lisboa, Porto e Guimarães.

"Chotto Desh", da Akram Khan Company, está no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, a 14 de fevereiro
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"Chotto Desh", da Akram Khan Company, está no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, a 14 de fevereiro

"Chotto Desh", da Akram Khan Company, está no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, a 14 de fevereiro

“O Piloto Americano”, de David Greg, encenação António Simão/Artistas Unidos

Teatro Variedades, Lisboa (4 de fevereiro a 1 de março)

Depois de Pedro Carraca ter encenado a brilhante Europa, em 2023, os Artistas Unidos voltam-se para mais uma peça de David Greig. Não é de estranhar que este seja um dos dramaturgos escoceses mais celebrados da sua geração, pois Greig “aborda assuntos políticos, globais, que estão na ordem do dia, dando-nos vivacidade formal, alegorias e símbolos que aprofundam o que quer transmitir”, como descreve a sinopse dos Artistas Unidos para este O Piloto Americano, peça de 2005 que parte de um episódio real ocorrido durante a guerra do Kosovo, em 1999: a aterragem forçada de um piloto norte-americano numa aldeia remota do Leste Europeu.

Marco Mendonça é um dos atores do elenco de "O Piloto Americano", que marca o regresso dos Artistas Unidos a um texto do escocês David Greig

A partir desse acontecimento, Greig constrói um confronto entre mundos — o do poder militar global e o de uma comunidade local pequena, pobre e profundamente marcada pela guerra. O Piloto Americano explora a forma como o mundo vê os Estados Unidos e como os Estados Unidos veem o mundo. A encenação é de António Simão. No elenco estão: Américo Silva, Andreia Bento, Hélder Braz, Joana Calado, Marco Mendonça, Nuno Gonçalo Rodrigues, Rúben Gomes e Simon Frankel.

“Chotto Desh”, de Akram Khan Company

Centro Cultural Vila Flor, Guimarães (14 de fevereiro)

De 5 a 14 de fevereiro, a 15.ª edição do festival internacional de dança de Guimarães reúne uma série de espetáculos imperdíveis. Um deles é Chotto Desh, da Akram Kahn Company, companhia a quem coube encerrar o certame em 2023 quando trouxe o memorável Jungle Book reimagined, que imaginava a popular história num “futuro próximo”. Também desta vez estão incumbidos de encerrarar o festival, com Chotto Desh, um espetáculo assinado pela diretora do Theatre-Rites, Sue Buckmaster, a partir do solo Desh, de Akram Khan.

"Chotto Desh", da Akram Kahn Company, é um dos destaques do GUIdance, festival internacional de dança de Guimarães

Cruzando dança contemporânea com a dança clássica indiana Kathak, a peça inspira-se nas vivências do próprio Akram Khan entre o Reino Unido e o Bangladesh, dando forma a um universo marcado pela memória, pela identidade e pela viagem entre culturas. Pensado para crianças a partir dos cinco anos, Chotto Desh é um conto sobre os sonhos de um menino que atravessa geografias reais e imaginadas, contado através de uma combinação de movimento, texto falado, animação, imagens e música original.

“O Meu Amigo Freddy Krueger”, de André Murraças

São Luiz Teatro Municipal — Sala Mário Viegas, Lisboa (19 fevereiro a 1 março)

Um solo de teatro escrito, interpretado e encenado por André Murraças, inspirado na sua adolescência nos anos 90. A partir de um relato pessoal, o espetáculo acompanha um jovem que encontra nos filmes de terror — em particular na figura monstruosa de Freddy Krueger — um refúgio face à violência do quotidiano escolar. Bullying, gordofobia e homofobia atravessam esta peça sobre a crueldade nas escolas e a dificuldade de crescer quando se é diferente, colocando em confronto o terror da ficção com o terror muito real da vida quotidiana.

O solo autobiográfico de André Murraças é o destaque do mês no Teatro São Luiz, em Lisboa

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Partindo da longa relação entre o género e as leituras queer, o espetáculo reflete sobre como os monstros funcionam simultaneamente como imagens de exclusão e de empoderamento, sobretudo para jovens que não se reconhecem na norma. Ao revisitar o passado a partir do presente, André Murraças afirma o terror como espaço de sobrevivência e imaginação, deixando uma mensagem de esperança: é sempre possível encontrar uma saída e transformar a diferença em força.

“Um Estar Aqui Cheio”, de Vera Mantero

Centro Cultural de Belém — Grande Auditório, Lisboa (26 de fevereiro)

Um Estar Aqui Cheio é um espetáculo de Vera Mantero — uma das figuras centrais da dança contemporânea portuguesa — que resulta de uma residência artística desenvolvida no âmbito do Porto Capital Europeia da Cultura, em 2001. Reunindo nove artistas de diferentes áreas — da dança à música, da escrita às artes visuais —, o projeto nasceu de um processo coletivo de reflexão, improvisação e troca em torno de questões fundamentais: “como surge a energia? O que nos faz mover na vida, o que é que põe um ser humano em movimento? O que é que cria a curiosidade, o que é que a põe em movimento? Como atravessar uma vida que de facto aproveita a força de toda a sua potência?”

A coreógrafa Vera Mantero leva ao CCB com uma peça que criou no âmbito do Porto Capital Europeia da Cultura, em 2001

Assumindo formas múltiplas — concerto, conferência, coreografia e instalação —, o espetáculo propõe uma experiência sensorial e partilhada, na qual o público é convidado a encontrar o seu próprio lugar em diferentes tempos e perceções. Vinte e cinco anos após a sua estreia, apresentada originalmente apenas em três salas, Um Estar Aqui Cheio chega pela primeira vez a Lisboa, ao Centro Cultural de Belém, com o elenco original, reafirmando a relevância do pensamento artístico de Vera Mantero e a sua investigação contínua sobre corpo, desejo, liberdade e sentido.

“Cuidar”, de Alexander Zeldin

Culturgest — Auditório Emílio Rui Vilar, Lisboa (26 a 28 de fevereiro)

Um grupo de trabalhadores do turno da noite numa fábrica de transformação de carnes. São auxiliares de limpeza contratados por uma agência de trabalho temporário, vivem sob condições precárias e repetitivas: limpam as instalações durante horas, fazem pausas cronometradas para beber chá ou café, folhear revistas e conversar, e regressam a casa ao amanhecer, apenas para recomeçar o mesmo ciclo na noite seguinte. Só que em contextos de exploração e desgaste, a amizade e a solidariedade podem emergir como formas de cuidado.

"Cuidar" é uma peça que expõe o realismo social do teatro do inglês Alexander Zeldin, que tem ecos do cinema de Ken Loach ou Mike Leigh

Cuidar é o primeiro capítulo da trilogia de Alexander Zeldin sobre desigualdades sociais, criado a partir de um período de imersão na vida profissional de pessoas que trabalham na limpeza contratadas em Inglaterra com os chamados contratos “zero hours”. À semelhança do cinema de Ken Loach, Zeldin dá voz a estas figuras frequentemente invisíveis, num teatro atento às realidades sociais contemporâneas.

A última passagem do autor britânico, nome cimeiro do teatro europeu contemporâneo, por Portugal, foi em 2024, quando trouxe The Confessions ao CCB, um dos espetáculos do ano para o Observador.

“Inhale Delirium Exhale”, de Miet Warlop

Rivoli — Grande Auditório, Porto (27 a 28 de fevereiro)

A artista belga Miet Warlop está de regresso ao Porto (depois do poderoso One Song, em 2024) com uma ode à imaginação. Em Inhale Delirium Exhale, que chega Warlop procura “tornar tangível a turbulência interior do processo criativo”, antecipa a nota que anuncia o espetáculo.

Em "Inhale Delirium Exhale", de Miet Warlop, seis intérpretes partilham o palco com objetos de têxtil, nomeadamente 4 mil metros de seda

As imagens que nos são dadas a conhecer mostram um grupo de intérpretes e 4 mil metros de seda. Impulsionados pela música da discográfica belga DEEWEE, desdobram-se numa coreografia que tem tudo para ser um deleite visual — ou não fosse a artista formada em artes visuais, pese embora tenha há muito escolhido trabalhar fora das paredes de um museu. A sinopse antecipa “um mergulho profundo num universo visual tão imersivo quanto avassalador”.

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