“A Voz de Hind Rajab”

No dia 29 de Janeiro de 2024, vários voluntários do Crescente Vermelho passaram horas a fio a falar com Hind Rajab, uma menina de seis anos presa num carro em Gaza, rodeada de familiares mortos e sob fogo cruzado. Enquanto procuravam mantê-la em linha, tentavam tudo para furar a burocracia dos procedimentos a ter em situações como esta, e enviar uma ambulância para a resgatar com vida o mais depressa possível. A tunisina Kaouther Ben Hania recriou aqui essas horas de tensão e desespero, utilizando excertos das gravações das conversas e da voz da própria menina. A Voz de Hind Rajab é um filme de suspense em que a história é tragicamente verdadeira, e para lá do debate sobre a necessidade e a legitimidade do recurso à voz da criança, fica o testemunho dos extremos de horror e desumanidade daquele conflito. Ben Hia não precisava era de ter mostrado as fotografias que fecham o filme, porque são obviamente redundantes. Venceu o Grande Prémio do Júri do Festival de Veneza e é candidato ao Óscar de Melhor Filme Internacional.

“Hot Milk”

Rose (Fiona Shaw), uma irlandesa sexagenária e rabugenta com uma doença misteriosa — e que poderá ser psicossomática — que a atirou há muitos anos para uma cadeira de rodas, viaja para Alméria com a filha, Sofia (Emma Mackey), onde vai consultar um médico que usa métodos de análise e tratamento muito próprios. Sofia é dominada pela mãe, que a usa para fazer tudo, e está prisioneira da condição física desta, mas o seu comportamento começa a mudar pouco a pouco, sob o efeito do calor e da praia, e pelo convívio com a misteriosa e despreocupada Ingrid (Vicky Krieps), com a qual se envolve intimamente. Realizado por Rebecca Lenkiewicz, que adapta o romance homónimo de Deborah Levy, publicado em 2016, Hot Milk pouco mais faz do que recensear com morneza um punhado de lugares-comuns das histórias sobre relações entre mães possessivas e monopolizadoras, e filhas passivas e tiranizadas, que a certa altura percebem a situação em que se encontram e querem libertar-se dela. O final é o único momento original do filme, mas já vem tarde.

“O Monte dos Vendavais”

Jacob Elordi e Margot Robbie são os mais recentes intérpretes de Cathy e de Heathcliff, os amantes envolvidos numa relação intensa e destrutiva na paisagem bravia do Yorkshire do século XIX, nesta nova adaptação à tela do aparentemente inesgotável romance de Emily Brontë, assinada pela atriz e realizadora Emerald Fennell (Uma Miúda com Potencial, Saltburn). A primeira data de 1920 e é um filme perdido, e a mais conhecida é de William Wyler, feita em 1939 com Laurence Olivier e Merle Oberon. Timothy Dalton, Anna Calder-Marshall, Ralph Fiennes e Juliette Binoche estão entre os atores e atrizes que já personificaram Heathcliff e Cathy no cinema, isto sem falar nas várias versões para televisão, sob a forma de séries e de telefilmes, ou ainda nas adaptações livres para outras cinematografias, realizadas por nomes como Luis Buñuel ou Jacques Rivette. Este novo O Monte dos Vendavais foi filmado em VistaVision (seguindo o exemplo de O Brutalista, Batalha Atrás de Batalha e Bugonia), e teve um orçamento de 80 milhões de dólares.

“Sem Alternativa”

O novo filme do sul-coreano Park Chan-wook (Oldboy — Velho Amigo, Vingança Planeada, A Criada) é baseado num livro do autor policial americano Donald E. Westlake, The Ax, que já antes foi adaptado ao cinema por Costa-Gavras, em Golpe a Golpe (2005). Man-su (Lee Byung-hun, o vilão de Squid Game)  tem um bom emprego numa empresa de papel, vive com a mulher, o filho adolescente, a filha pequena, um prodígio do violoncelo, e dois cães, na casa da sua infância, que voltou a comprar e melhorou cuidadosamente. Tudo parece correr bem. Até ao dia em que a sua empresa é comprada por uma companhia americana e ele é despedido. A família tem que cortar em tudo e até a casa terá que ser vendida, com a consequente mudança para um apartamento. Desesperado, cansado e vexado, Man-su toma uma decisão extrema. Perante a possibilidade de um bom emprego que surge, decide matar os outros candidatos mais fortes ao cargo. Sem Alternativa foi escolhido como filme da semana pelo Observador e pode ler a crítica aqui.