Às vezes, as más notícias caem-nos em cima vindas do nada e com brutalidade, como naqueles desenhos animados em que a personagem leva com um piano caído do céu na cabeça. É o que sucede a Man-su (Lee Byung-hun, o vilão de Squid Game), o principal protagonista de Sem Alternativa, o novo filme do sul-coreano Park Chan-wook (Oldboy — Velho Amigo, Vingança Planeada, A Criada). Man-su tem um bom emprego numa empresa de papel, vive com a mulher, um filho adolescente, uma filha pequena que é um prodígio do violoncelo e dois cães na casa da sua infância, que voltou a comprar e melhorou cuidadosamente. Tudo parece correr-lhe bem. Até ao dia em que a sua empresa é comprada por uma companhia americana e ele é despedido.

[Veja o “trailer” de “Sem Alternativa”:]

A família começa então a cortar em tudo. Acabam as lições de ténis da mulher, que arranja um part-time num dentista; acaba a Netflix; diminuem as porções de carne na comida; um dos carros é trocado por outro mais pequeno e mais barato; os cães vão para casa dos avós; e veem-se na necessidade de vender a casa e ir viver para um apartamento. E para horror de Man-su, o potencial comprador é um seu arrogante e boçal colega. Man-su, entretanto, já se humilhou a entregar currículos de joelhos e a chorar a diretores de outras empresas do ramo, e participou em seminários para quadros desempregados, que incluem ridículas sessões de catarse coletiva destinadas a aumentar a autoestima e a confiança.

Até que ele e a mulher são postos perante um dilema pela professora da filha, cujas lições de violoncelo foram a única coisa de que não abdicaram. A menina tem tanto talento, que precisa de subir a outro nível. O que quer dizer um novo professor, e lições mais caras. Desesperado, cansado e vexado, Man-su toma uma decisão extrema. Posto perante a possibilidade de um bom emprego que surge, decide matar os outros candidatos mais fortes ao cargo (um deles arranjou trabalho numa sapataria e o outro continua desempregado), ser ele o escolhido e voltar a ter a vida confortável, feliz e segura que tinha antes com a família.  

[Veja uma entrevista com o realizador Park Chan-Wook e com o actor Lee Byung-un:]

Baseado em The Ax, do escritor policial americano Donald E. Westlake, que já foi adaptado ao cinema por Costa-Gavras em Golpe a Golpe (2005), Sem Alternativa é um filme em que Park Chan-wook dispensa a frieza descritiva da obra de Westlake, e encavalita farsa negra e caricatural, sátira ao capitalismo da era da robotização e da IA em versão sul-coreana, e policial violento mas desastrado. Isto porque Man-su, longe de ser um génio do crime, é um trapalhão, e os esquemas que concebe, primeiro, para iludir e atrair as vítimas, e depois para as eliminar e fazer desaparecer os corpos, são disparatados e complicados.

A ideia de que Man-su, os seus colegas e subordinados são tão dispensáveis e esquecíveis como o papel da indústria em que labutam está na história, mas Chan-wook sugere-a sem precisar de a sublinhar a traço grosso ou de a erigir em “mensagem” do filme. Cujo título é irónico, porque o protagonista tinha alternativas ao assassínio dos seus pares e concorrentes ao mesmo cargo. Por exemplo, vingar-se daqueles que o despediram de forma tão fria e expedita, ou procurar trabalho noutra área que não a do papel, sujeitando-se a ganhar menos e viver mais frugalmente. O realizador compreende a situação de Man-su e lamenta-a, mas não está necessariamente do seu lado quando ele opta pelo crime, e quer que os espectadores sintam o mesmo.

[Veja uma sequência do filme:]

Lee Byung-hun é muito bom no patético e atarantado Man-su, que humilhado no seu orgulho profissional, ferido na sua função de chefe de família, e privado do seu invejável estatuto social, recorre ao impensável, e Park Chan-wook faz jus à sua consabida destreza técnica e inventiva visual. Se bem que Sem Alternativa tenha alguma palha de subenredos, digressões e acontecimentos laterais, que vão de uma dor de dentes que não pára de atormentar o protagonista a um punhado de incidentes familiares (e até mesmo uma sequência onírica), que podiam ter sido aplainados ou mesmo podados, e que o tornam desnecessariamente tortuoso e prolixo.

Mas não é tão grave que impeça Park Chan-wook de levar a água ao seu moinho. E coroe Sem Alternativa com um final ajustadamente amoral, numa fábrica de papel high tech, automatizada de cima a baixo, anunciando a quase total dispensa e irrelevância do elemento humano. E insinuando que os que conseguirem ser poupados à razia poderão, como Man-su, nem sempre ter as mãos limpas quando são escolhidos para operar os comandos e os teclados.